Na posse eterna do Coração
Imaculado de Maria
«Que vais fazer para o Céu?
— Vou amar muito a Jesus e ao Coração Imaculado de Maria».
Jacinta
E dirijamos agora
o olhar para o termo final aonde se encaminham todos os intentos da Providencia,
ao implantar no coração
dos homens e na Terra inteira, a devoção ao Imaculado
Coração de Maria.
Momento virá em
que cessarão todos os remos e impérios do mundo: cessarão todos os reis e
dominadores
temporais; acabar-se-á o tempo seguir-se-á a eternidade e na eternidade haverá
um só Reino: o Reino preparado por Deus desde a constituição do mundo, para os
que O serviram. Será o Céu onde Cristo é o Rei e Maria a Rainha.
Lá nos espera o
prémio da fervorosa devoção que tivermos tributado na Terra ao Imaculado Coração
de Maria. E a promessa formal de Nossa Senhora: «Prometo assistir na hora da
morte com as graças necessárias à salvação a todos os que no primeiro sábado de
cinco meses seguidos se confessarem, receberem a Sagrada Comunhão, rezarem um
Terço e Me fizerem quinze minutos de companhia, meditando nos quinze mistérios
do Rosário, com o fim de Me desagravarem».
— Vinde, benditos
de meu Pai — há-de dizer-nos Jesus — Eu tinha sede e destes-Me de beber. Eu
tinha fome e destes-Me de comer. Amando na Terra ao Imaculado Coração de Maria,
matastes-Me a sede, porque é por esse Vaso Sagrado que queria dessedentar-Me do
vosso amor.
— Vinde, benditos
de Meu Pai! Eu estava no cárcere e viestes visitar-Me. Não vivi só nove meses
encerrado no claustro virginal de Minha, Mãe, para ao nascer me dar a Vós. O
Seu Coração cativou-me para sempre com o Seu amor e por isso continuei
misticamente a morar, através dos séculos, como num sacrário eucarístico, em Seu
Coração Imaculado, para aí Me virdes visitar, buscar e possuir; para nessa
mansão vivermos todos à uma.
Amando ao Coração
de Maria, nele Me encontrastes, Me possuístes e aí os unimos indissoluvelmente
para sempre. É lá o tálamo dos meus desposórios com as almas. Possuí agora em
prémio o reino que vos estava preparado!
E uma das melhores
porções deste nosso reino será precisamente o Coração Imaculado de Maria, nossa
Mãe. Esse mesmo Coração constituir-se-á óptimo galardão dos que na Terra o
tiverem servido com amor dedicado.
No Céu, veremos,
possuiremos, amaremos, gozaremos o Coração de Maria Imaculada e bendita!
Veremos,
não
simplesmente como o víamos na Terra, ao lusco-fusco da história e da fé,
conhecimento indirecto e por isso, insaciativo. Vê-lo-emos em si mesmo, no pleno
meio-dia da Glória. Contemplaremos face a face a Virgem Senhora, em todo o
esplendor da Sua dignidade de Mãe de Deus, de Filha predilecta do Eterno Pai, de
Esposa amantíssima do Espírito Santo.
Conheceremos
intuitivamente, num deslumbramento beatificante, as Suas prerrogativas de
Imaculada, toda Pura, toda Bela, de Virgem das virgens; de Mãe dos homens,
Corredentora e Medianeira nossa.
Possuiremos
como
nosso e para sempre esse Coração Imaculado. De novo Jesus há-de dizer-nos, logo
que entrarmos no Céu: Ecce Mater tua: eis aqui a tua Mãe! E Maria dirá
também: Ecce filius tuus: eis aqui o teu filho!
E desde esse
instante viveremos eternamente na posse mútua. Não somos nós que A recebemos em
nossa casa, como outrora S. João Evangelista; é Ela que nos recebe na Sua em que
é a Dona, a Mãe de Família. Ainda no Céu continuará a ser toda para Seus filhos
de uma maneira inefável. Ainda lá é Rainha e Mãe, vida e doçura nossa. Já Lhe
não chamaremos esperança nossa, como na Terra, porque chegamos à posse plena
dessa Mãe bondosíssima, o melhor que depois de Si mesmo nos reserva Deus
nos Céus.
Cristo é a nossa
herança, mas faz parte dessa herança Sua Mãe. Não Se nos dá sem Ela. Por isso,
na Glória será nossa a pureza do Coração de Maria, a Sua santidade, o Seu amor,
o Seu poder, para dele dispormos à vontade em favor dos que ainda na
Terra militam pela Pátria celeste.
Amaremos: —
«Que
vais fazer para o Céu? — perguntava a Lúcia à sua prima Jacinta. — Vou amar
muito a Jesus e ao Coração Imaculado de Maria!
Muito mais
profunda e transformante que aos Pastorinhos em Fátima, há-de a luz de Maria
Santíssima inundar-nos
a alma e todo o nosso ser, no momento em que ao chegarmos ao Céu, nos abrir de
par em par os braços e o Coração materno, para nele nos acolher amorosamente. E
nessa luz deslumbrantíssima e mais intensa que o Sol, nos veremos em Deus e em
Maria como num espelho; e porque é luz e é fogo, deixar-nos-à eternamente em
chamas vivíssimas de amor ao Coração de nosso Pai e de nossa Mãe! Viveremos na
plenitude do amor. E diremos com Santo Agostinho: «Ó Beleza sempre nova, que
tarde te conheci!...»
Amaremos e seremos
amados com esse amor do qual na Terra ninguém sabe falar. S. Paulo, depois da
visão que teve do Céu, disse que nem os olhos viram, nem os ouvidos ouviram, nem
veio jamais à mente do homem o que Deus tem preparado no Céu para os que
O amam
O melhor que Deus
tem preparado para os Bem-aventurados é a Si mesmo e a Maria Santíssima; mas a
quinta-essência deste dom cifra-se no amor que Ele e Maria nos hão de manifestar
por toda a eternidade. Então compreenderemos como Deus realmente é Amor: Deus
caritas est! Como o Coração de Maria é Amor! Oh, o que será esse amor de
Deus e de nossa Mãe!? O que será essa ternura, essa bondade, essa doçura, essa
suavidade, esse encanto do coração de Maria?...
Gozarmos,
como
consequência necessária, de tão imenso Bem. O mesmo gozo de Deus e de Maria será
o nosso gozo: intra in gaudium Domini tui. O gozo de Deus ad intra
é a Sua mesma felicidade infinita; ad extra, antes de mais nada, depois
da humanidade de Jesus, é Maria Santíssima. Pois neste duplo gozo entraremos nós
também. Todas as nossas faculdades espirituais e os nossos corações serão
inundados de delícias inefáveis, ao entrarmos na posse de Deus e de Maria.
Que
felicidade a nossa ao vermos e sentirmos que a nossa Soberana e nossa Mãe possui
como ninguém e para sempre o Bem infinito e o possui no mais elevado grau a que
pode chegar pura criatura!
Que júbilo o
nosso, ao vermos tão exaltada no Céu Maria Santíssima, como Mãe de Deus, Rainha
dos Anjos e dos Santos, nossa Mãe querida, Senhora dos Céus e da Terra e dos
infernos! Exultaremos ao contemplá-la tão amada e aclamada por tantos milhões de
vassalos, todos eles coroados como reis, mas tributando-lhe todos rendida
homenagem de súbditos, e infindo amor de filhos queridíssimos. Para Maria
Santíssima constituem eles o melhor fruto e o melhor objecto de Seu amor, depois
de Jesus; são a Sua mais gloriosa conquista.
E num
fluxo e refluxo, «nesta alegria que experimentam os Anjos e os Santos a
respeito de Maria, aumentará acidentalmente a sua própria felicidade.
Causa-lhes gozo verem encher-se, graças ao mérito de Cristo e às orações, de Sua
Mãe, os lugares deixados vagos na revolta de Lúcifer. A simpatia torna comuns
aos Anjos e aos Santos as alegrias de Jesus e de Maria; estabelece no Céu uma
harmonia deliciosa, cuja doçura inefável todos saboreiam».
Este
gozo será sem sombras, sem receios, sem limites, sem intermitências: será para
sempre, eterno! Eternamente cantaremos jubilosos ao Imaculado Coração de Maria:
Tu Gloria Jerusalem, Tu laetitia Israel,
Tu honorificentia populi nostri!
Que
doçura terão para nós então no Paraíso as palavras que tantas vezes meditamos na
Epístola da Missa do Coração de Maria: «Eu como a vinha, produzi flores de suave
odor e as minhas flores dão frutos de glória e abundância. Eu sou a Mãe do Belo
Amor, do temor, da ciência e da santa esperança. Em Mim está a graça do caminho
e da verdade; em Mim toda a promessa de vida e de virtude. Vinde a Mim vós todos
que Me desejais e saciai-vos com meus frutos. Meu espírito é mais doce que o mel
e minha herança mais suave que um favo. Minha memória se conservará nas gerações
através dos séculos. Os que me comem, desejam-Me ainda mais e os que Me bebem
terão de Mim mais sede ainda. O que Me escuta não será confundido e os que agem
por Mim, não perecerão. Os que Me glorificam, terão a vida eterna».
Aí fica uma
palidíssima ideia de que espera no Céu aos devotos do Coração Imaculado de
Maria. Esta a nossa grande esperança. «Os servos de Maria — escreveu Santo
Afonso — têm um belíssimo sinal de predestinação. E acrescenta com S. Boaventura
que «as portas do Céu se abrem para receber a quantos confiam no patrocínio de
Maria. Santo Efrém diz por isso, ser esta devoção a porta aberta para o
paraíso... Desde que não lhe ponhamos obstáculo, alcança-nos esta divina Mãe o
Paraíso, pela eficácia das Suas súplicas e do Seu patrocínio. Aquele,
por conseguinte, que A serve e conta com a Sua intercessão vive seguro do
Paraíso, como se já lá estivesse».
E
conclui com S. Bernardo: «Seja pois sempre louvada a infinita Bondade do nosso
Deus, que foi servido constituir Maria nossa Advogada no Céu, para como Mãe do
Juiz e Mãe de misericórdia tratar do grande problema da nossa salvação».
Glórias de Maria,
c. VIII, §
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