PRO CAUSA DE BEATIFICAÇÃO - PRO CAUSE DE BÉATIFICATION

O Coração Imaculado de Maria e a Família

«Virá S. José com o Menino».
Nossa Senhora

O Coração de Maria vem para salvar os pecadores e santificar os bons; mas vem por isso mesmo, para salvar as Famílias pecadoras e santificar as que de boa vontade ouvirem a Sua voz.

Abram-se de par em par os lares a esta Mãe Imaculada, colocando neles bem patentes em trono de glória, a imagem do Seu Coração misericordioso; consagrem-se-lhe por toda a parte em corpo gesto os membros de cada família, proclamando-A Mãe e Rainha de suas casas, e pronto se verificará que entrou nelas a salvação, como outrora, com a, estada de Jesus, em casa de Zaqueu.

É sabido como na aparição de Agosto de 1917, Nossa Senhora afirmou aos Pastores: «em Outubro farei um milagre, para que todos creiam nas minhas aparições. Se não vos tivessem levado à aldeia (quer dizer: se a auto­ridade de Vila Nova de Ourém não tivesse prendido as crianças no dia 13 desse mês) o milagre seria mais grandioso. Virá S. José com o Menino para dar a paz ao mundo».

De facto em Outubro, enquanto a multidão contem­plava o famoso milagre do Sol, as criancinhas viam junto do mesmo Sol, a Sagrada Família: S. José, emergindo das nuvens de branco, e o Menino de vermelho, no braço es­querdo do Santo patriarca; Nossa Senhora, à direita do Sol, em corpo inteiro, vestida de vermelho e manto azul que lhe cobria a cabeça e caía solto. S. José traça três vezes no ar azul uma cruz abençoando aquela imensa multidão.

Tem-se escrito, que estas derradeiras visões da Sagrada Família, mais as da Senhora das Dores e do Carmo que também se deram, devem ter querido significar os diferentes mistérios do Rosário; parece-nos plausibilíssima esta interpretação. Mas ela não obsta a que de uma maneira particular o Céu tenha pretendido, com a aparição da Sagrada Família, focar um ponto capitalíssimo, sobre o qual é mister que desçam imediatas as bênçãos do alto, por meio do Coração Imaculado de Maria e do Patrono principal das Famílias, S. José, se desejamos que haja enfim paz no mundo. Esse ponto é a Família, onde tanto hoje se ofende a Deus: eis a fortaleza a conquistar primeiro para o Coração de Maria, banindo de lá o pecado e fazendo reinar nela a virtude doméstica de que nos da exemplo esplendente a Sagrada Família de Nazaré.

O assunto exige de nós algumas considerações.

Quando em 1931, a 31 de Dezembro, Pio XI, brindava o Orbe católico com a encíclica Lux Veritatis comemorativa da definição dogmática da divina Maternidade de Maria Santíssima, concluía significando, quanto esperava, que um dos frutos desse centenário fosse, tomarem-Se mais a sério os ensinamentos acerca da dignidade do matrimónio e da educação da juventude e por isso exortava os pais e mães a olharem para a Divina Mãe de Deus, para S. José, para o Menino Jesus, como os mais perfeitos modelos a imitarem. Os pais têm em S. José uma norma luminosa na providência paternal; as mães têm em Maria Santíssima um altíssimo exemplo de amor, de pudor, de humildade e de perfeita fidelidade; os filhos encontram em Jesus um exemplo de obediência divina para admirar, venerar e imitar.

«Sobretudo — asseverava o Pontífice — particularmente aquelas mães da nossa época, que fatigadas de ter filhos ou de se verem presas pelo laço conjugal, pisaram aos pés ou violaram o seu dever, importa que voltem os olhos para Maria e meditem atentamente naquela que levantou a tanta dignidade o gravíssimo encargo de Mãe.

Pode ser que assim se envergonhem, graças à Rainha do Céu, das desonras com que têm tratado o sacramento do matrimónio. Será um estímulo para na medida do possível, imitarem as Suas virtudes».

Insistamos.

O ponto central para onde confluem todas as obras de Deus ad extra, pelo menos dentro da presente economia divina, é Cristo. Mas na ordem da execução, antes do Verbo encarnar, principia o Espírito Santo por Lhe pre­parar a Mãe. E de longe vem essa preparação

Logo no amargo dia da queda de nossos primeiros pais, profetiza Deus, que vai pôr inimizades entre Ela e a serpente tentadora e que essa mulher privilegiada lhe há-de esmagar a cabeça. Eis o primeiro anúncio do Coração Imaculado de Maria.

Chegado o momento da realização das profecias, acode a acção da graça a tempo de isentar de toda man­cha, desde o instante da Sua Conceição a Maria Santíssima, impedindo não só que o pecado a bafeje, mas deixando-A simultaneamente cheia de graça e beleza, em virtude dos méritos previstos de Jesus Cristo. Juntamente com a isenção da culpa apresenta-se Maria com a mais perfeita inteireza original, sem a concupiscência.

E o primeiro grande passo dado na preparação da Mãe do Verbo. Razões desta preparação tão esmerada: a dignidade do Filho: santidade infinita, não convinha que ao pôr o pé na Terra, para nos libertar do pecado, tomasse carne de Mãe que alguma hora tivesse estado sob o jugo de Satanás. E só quem compreender a dignidade santidade e missão do Filho, é que terá unia ideia do brilho e esplendor da candura imaculada e pureza virginal da Mãe.

Maria é imaculada porque vai dar Deus ao mundo vai ser Mãe da vida, a verdadeira Mãe dos viventes. Pura e imaculada, porque sendo Mãe de Cristo o é ao mesmo tempo de todos os que com Cristo formam um só Corpo místico, de todos os filhos de Deus.

Assim se prepara a Mãe da Família em que há-de nascer o Messias.

O segundo passo é este: logo aos três anos A levam seus pais, como reza a tradição, movidos pelo Espírito Santo, ao Templo a consagrar-se a Deus e a viver aí recolhida do mundo, toda entregue ao serviço do Senhor. E não tem outra preparação para o matrimónio, para o lar que há-de constituir... E lá que A vai buscar S. José para Esposa...

Eloquentes ensinamentos se colhem de tão simples e sumárias considerações.

A primeira de todas as preocupações na campanha pela Família e pela restauração dos lares deve ser esta: a preparação da mãe. E muito mais importante sob múltiplos aspectos dentro da família a missão da mãe, do que mesmo a do pai. A própria natureza indica-o de tantos e tão delicados modos!

E qual a primeira coisa que importa, nesta preparação da mãe?... Torná-la imaculada e imune das paixões.

O ideal seria que ela logo ao ser concebida, aparecera isenta de mancha; mas esse privilégio perdeu-o para todas as suas filhas a primeira mãe, ao manchar-se no Paraíso terreal. E de fé que todos contraímos o pecado original. Mas haja ao menos o cuidado sacratíssimo de lhe conservar imaculada a graça recebida no baptismo; para que um dia os botões de laranjeira e o véu branco do noivado traduzam a consoladora realidade, de que a veste cândida recebida junto da pia baptismal, vai ainda sem mancha para o toro nupcial, como o arminho mais belo que o há-de adornar e perfumar.

A esse esforço em resguardar a inocência da mulher, há-de aliar-se outro, sem o qual o primeiro seria gualdido: trabalhar diligentemente por imunizá-la das paixões. Está nisso a única verdadeira emancipação da mulher. A última centúria tem aturdido o cérebro de tanto ouvir gritar em todos os tons: viva a emancipação da mulher! E o resul­tado aonde chegaram os gritadores desses vivas e das avariadas teorias e processos da emancipação da mulher, foi voltar ela em nossos dias às degradações aviltantes em que a detinha escravizada, antes de Cristo, o paganismo.

Não é essa a emancipação da mulher. O único verdadeiro modo de a emancipar é libertá-la das paixões; não fazê-la o joguete delas; é defendê-la de todos os laços e tentações; não lançá-la para a arena e transformá-la no principal instrumento de diversão e de volúpia!

Além da sua própria dignidade, além dos seus des­tinos eternos, a missão a que ela se destina na família exige ao superlativo que seja imaculada e emancipada mais que ninguém, do jugo escravizador das paixões próprias e alheias.

E porquê?

Pela prole. E por causa dos filhos que as mães devem ser imaculadas e integras. Quanto mais integras e imaculadas, mais fecundas em todo o sentido natural e sobrenatural da palavra. Quanto mais integras e imaculadas, mais dignas do nome de mães de seus filhos.

O filho é o ideal da família; foi assim em Nazaré, tem que ser assim em toda a parte onde se constitui um lar. Suprimido esse ideal, degenera a família. Mulher casada ou com resoluções disso, cujo ideal não é o filho, a procriação da prole, renuncia facilmente a ser imaculada, passa facilmente a um simples, reles instrumento das paixões.

Maria foi Imaculada, porque era Mãe do Filho de Deus; as mães devem ser imaculadas porque são mães dos filhos de Deus. E esse o destino de qualquer homem que vem a este mundo: ser filho de Deus pela graça santificante.

Quanto importa que os braços maternais, onde nos primeiros meses da sua existência é reclinada a criancinha, sejam braços imaculados! A criancinha, pelo baptismo, é feita hóstia viva, hóstia agradável a Deus e o atar onde ela se oferece nos primeiros anos ao Senhor, são os braços maternais. Que imaculado então há-de ser esse coração ao qual tantas vezes estreita a hostiazinha pura, fruto do seu amor! Ilumina-se de fulgurações sacerdotais a missão sagrada da mulher na família.

A razão por que aos Sacerdotes se lhes Impõem tan­tas purificações e tanta pureza, é porque têm que manejar coisas sagradas. E que vaso mais sagrado do que uma crian­cinha inocente? Enquanto a houver na Terra, está Deus connosco; por isso, bradem as mães todas à uma: seja imaculado o meu coração: fiat cor meum immaculatum!

Se fora possível banir Deus da face da Terra, era conspurcando a mulher. Por aí começou Satanás; para envenenar toda a Humanidade roubou a inocência a Eva, ainda antes de ela ser mãe. Por aqui ataca sempre, para arruinar mais e mais o mundo através, dos séculos. Haja vista o que se tem passado na Rússia bolchevista e o que se passou na Alemanha racista e o que ai vai por toda a parte, onde mais longe andam as nações do verdadeiro Deus! Há quanto tempo nessas regiões a mulher deixou de ser imaculada!... Há quanto tempo anda feita o joguete e o aviltado instrumento das paixões sem freio! Foi desde o momento em que renunciou dentro da família a nobilíssima tarefa de ser mãe.

* * *

Mas quem esmagou a cabeça à serpente? A Ima­culada. Quem lha esmagará de novo? As mulheres ima­culadas que tomando o Coração da Mãe puríssima por modelo, com Ela se lançarem resolutas na campanha pró-família.

E com essas heroínas imaculadas na infância, como a Jacinta, imaculadas na mocidade, como Santa Maria Goretti e Santa Gema Galgani, imaculadas no matrimónio, como Rosa Gattorno, que o Imaculado Coração de Maria vai reconquistar para Jesus o mundo, reconquistando-Lhe as famílias.

Entretanto é inútil pretender essa geração de heroínas, se a preparação das futuras mães continuar a ser o que vemos por aí em nossos dias.

Onde se preparam as mães imaculadas? Ao ar livre das ruas? Nas assembleias? Nos teatros? Casinos? Bailes? Cinemas? Nas praias, em trajes tão dissimulados quer mal aparecem, tão provocante é o seu disfarce? Nos hipódromos? Nas corridas de bicicleta? No constante e estonteante rodopio da vida de sociedade?

Maria Imaculada foi para o Templo aos três anos e lá se conservou e preparou até constituir família; e a Sua Família é que é o modelo ideal de toda a família cristã Indicação celeste, de como deve ser a preparação das mulheres imaculadas para a futura família. E no recolhi­mento, no recato, no trato com Deus, na vida interior, na vida séria, austera que conseguirão conservar-se imacula­das e tornar-se aptas para um dia desempenharem a sagrada missão de mães.

O a tremenda responsabilidade das mães! Não há mais santos no mundo, faltam Sacerdotes, faltam os salvadores das nações, porque faltam mães verdadeiramente cheias de Deus, que com o sangue e o leite saibam comunicar a seus filhos o espírito de almas grandes!

Comece-se a campanha por entronizar no lar, em lugar de destaque a imagem do Coração Imaculado da Mãe — celeste; consagre-se-Lhe fervorosamente, num dia solene, toda a família[1]; reze-se diante dessa imagem diariamente o Terço, tão pedido por Nossa Senhora; resolvam-se todos os membros do lar a prestar-Lhe o obséquio de irem ao menos nos cinco primeiros sábados de meses seguidos a comungar em corpo gesto, para desagravar esse Coração ultrajado por maus filhos; e Maria Santíssima banhará na Luz que Lhe inunda o Coração essa família e brilharão como por encanto as virtudes domésticas e sobretudo apa­recerão as Mães imaculadas de que o mundo precisa para se salvar.


[1] «E como o Nosso Predecessor de imortal memória Leão XIII, nos albores do século XX, quis consagrar todo o género humano a Sacratíssimo Coração de Jesus, também Nós como que representando a família humana por Ele redemida quisemos solenemente consagrá-la ao Coração Imaculado de Maria Virgem. Desejamos que todos façam o mesmo, sempre que a oportunidade o aconselhar; e não só em cada diocese e em cada paróquia, mas também em cada família. Assim esperamos que desta consagração particular e pública nasçam — abundantes benefícios e favores celestiais».

Pio XII na carta encíclica «auspicia quaedam» sobre as orações públicas a fazerem-se no mês de Maio de 1948 (Osservatore Romano de 3-4 de Maio de 1948).