O Coração de
Maria, Caminho que nos conduz a Deus
«Abriu as mãos comunicando-nos uma luz muito intensa».
Lúcia
Na aparição de 1
de Junho de 1917, afirmando Nossa Senhora à Lúcia, que Jesus queria estabelecer
no mundo a devoção ao
Seu Imaculado Coração, acrescentou: a quem a abraçar
prometo a salvação. Estas almas
serão predilectas de Deus, como flores por mim colocadas no Seu trono».
Para a Lúcia havia
a garantia seguinte: «O Meu Coração será o teu refúgio e o caminho que te
conduzirá a Deus.
Depois da visão do
inferno, no mês seguinte, concluiu a Virgem: «Vistes o inferno, para onde vão as
almas dos pobres pecadores. Para os salvar Deus quer estabelecer no mundo
a devoção ao meu Imaculado Coração»; e quando mais tarde, se revelou à Irmã
Lúcia, já religiosa de Santa Doroteia, asseverou categoricamente Nossa Senhora:
«Prometo assistir na hora da morte com as graças necessárias para a salvação, a
todos os que nos primeiros sábados de cinco meses seguidos se confessarem,
receberem a Sagrada Comunhão, rezarem um Terço e Me fizerem quinze minutos de
companhia, meditando nos quinze mistérios do Rosário, para Me desagravarem».
Numa palavra:
todas estas passagens nos mostram os resultados magníficos que oferece o Coração
Imaculado de Maria a quem abraçar esta devoção.
Para todos é
caminho que os conduz a Deus: aos pecadores e às almas boas.
Aos pecadores que
cumprirem o mínimo dos obséquios exigidos por Maria Santíssima, assistir-lhes-á
à hora da morte com as graças para a salvação; às almas que generosamente
viverem, como os pastorinhos, a devoção ao Seu Coração, numa entrega total, para
A ajudarem com as suas imolações a salvar almas, a Mãe do Céu fará deles almas
predilectas de Deus; serão as flores escolhidas do Seu jardim, quer dizer do Seu
Coração, que Ela colocará junto do trono de Deus; almas que neste mundo
conduzirá a Deus, dando-lhes a vida de Deus, fazendo-as em Seu Coração
bondosíssimo viver na mais intima união com Deus, elevando-as a grande
santidade.
Quanto aos pecadores, já muitos lugares deste livro o demonstraram,
principalmente ao falarmos nesta segunda parte, da finalidade da devoção ao
Imaculado Coração de Maria e quando, na primeira, dissertamos sobre a Sua
misericórdia. Em resumo: condu-los Maria a Deus, porque os conduz à graça
santificante de que Ela é Mãe: Mater
divinae gratiae.
Na
Missa da festa ao Coração Imaculado de Maria, canta a Igreja com palavras dos
Provérbios, aplicando-as. a este Coração Santíssimo: «Bem-aventurado o homem que
ouve a minha voz e acode à minha porta, logo de manhã, isto é, como
explica Santo Afonso de Ligório: sem demora, com prontidão, porque certamente Me
encontrará. E quem Me encontrar, encontrará a vida e conseguirá do Senhor a
salvação.
Para
isto encontrou Maria a graça junto do Senhor: invenisti gratiam
apud Deum.
Comentando esta passagem escreveu o cardeal Hugo: «Maria não achou a graça para
Si, porque estava cheia dela desde o primeiro instante. Então para quem a achou?
Achou-a para os pecadores que a tinham perdido. Corram pois, a Maria os
pecadores que perderam a graça porque em seu poder a acharão certamente; e
digam-lhe: Senhora, a coisa achada deve-se restituir a quem a perdeu. Aquela
graça, que Vós achastes, não é Vossa, porque nunca a perdestes; é nossa, porque
a perdemos, por isso, no-la deveis restituir».
Vai
ter com esta Mãe de misericórdia e mostra-Lhe as chagas que na alma te fizeram
teus pecados – insinua S. Bernardino — Ela não deixará de rogar a Seu Filho, que
te perdoe, por aquele leite que Lhe deu; e o Filho que tanto A ama, atendê-La-á
com toda a certeza».
E
Santo Afonso acrescenta: «Nenhum pecador deve temer, que Maria o desatenda ao
recorrer à Sua piedade. Não: pois Ela é Mãe de misericórdia e como tal
deseja salvar os mais miseráveis». E lembra o mesmo Autor que certa vez viu
Santa Gertrudes a Maria Santíssima com o manto aberto, debaixo do qual estavam
refugiadas muitas feras: leões, ursos, tigres. Viu também como a Santíssima
Virgem não só não os afastava, mas com grande piedade os acolhia e afagava. Com
isto entendeu a Santa, que ainda os pecadores mais perdidos, quando recorrem a
Maria, não são expulsos, mas antes bem aceites e salvos da morte eterna.
Entremos pois nesta Arca, refugiemo-nos sob o manto de Maria. Sem dúvida Ela
não nos repelirá, mas seguramente nos há-de salvar».
Escreveu o autorizado P. Vermeersch, S.J. que «a salvação dos servos de Maria é
uma das verdades práticas que se demonstram pela persuasão dos mesmos fiéis e
pela pregação quotidiana dos oradores sagrados. Sobre um ponto de dogma ou de
perfeição cristã Deus não permite erro universal no povo cristão». Tal é o poder
e influência de Maria «que não espera senão a nossa oração que como filhos
chamemos por Ela, para usar em nosso favor da valia de que goza junto do Senhor».
* * *
Mas os melhores
resultados desta vide a frutificar em suavidades divinas destinam-se às almas,
que compreendendo o amor do Coração de Maria, inteiramente se Lhe entregam, a
fim de viverem do Seu Coração, para o Seu Coração, no Seu Coração.
Com estas mais
expressa e esplendidamente se cumpre o que reza a Epístola da Missa do
Imaculado Coração de Maria: Ego quasi vitis fructificavi suavitatem odoris:
Eu como vide frutifiquei em odor de suavidade.
E que odor de
suavidade é este, que a Virgem faz germinar nas almas?
Descobre-o a mesma Epístola: «é a doçura do Seu espírito que Eia comunica e dá
em herança aos Seus predilectos: Spiritus enim meus super mel dulcis et
haereditas mea super mel et favum. O meu espírito é mais doce que o mel e a
minha herança supera a suavidade de um favo de mel.
Não há doçura como
a do espírito de Maria Santíssima, por isso bradamos: Ó clemente, ó piedosa, ó
doce Virgem Maria! E que o Seu espírito é o espírito de Jesus e Jesus
como cantou S. Bernardo: «para o ouvido é doce Cântico, para o paladar mel
mirífico e para o coração, néctar celeste.»
Ora, é esse mesmo
espírito que Nossa Senhora comum herança a seus filhos, por isso, frutifica em
odor de tal suavidade, que supera a doçura do favo de mel. Santa Inês aparecendo
a Santa Brígida disse-lhe: «Assim como com o Sol se iluminam e inflamam as
coisas do firmamento e da terra, assim não há ninguém que, se A implora, não
sinta a doçura de Maria.»
Santo
Ambrósio queria que totalmente vivesse em nós o espírito de Maria: sic in
omnibus anima Mariae ut magnificet Dominum: sic in omnibus Matiae spiritus ut
exultet in Deo salutari suo: esteja em todos a alma de Maria, para que
magnifique ao Senhor; haja em todos o espírito de Maria, para que exulte em Deus
seu Salvador.
E
acrescenta o venerável P. Miguel de Santo Agostinho: Eu digo mais: haja em nós
todos o espírito de Maria e vivamos nesse espírito; para que permanecendo em nós
o Seu espírito, realize ele mesmo em nós as nossas obras e assim possamos viver
pelo Seu espírito. Assim acostuma-se a alma a levar vida divina e mariana,
porque proveniente do espírito de Deus e de Maria, ou seja, com a graça que lhe
é concedida pelas mãos de Maria; e pode então com verdade dizer: Spiritus
Jesu et Mariae in me manens ipse facit opera; é uni e o mesmo espírito de
Jesus e de Maria que opera tudo na alma.
Desta maneira, a
alma opera sempre o que quer Maria, e como Ela sempre e só quer a vontade de
Deus, a um tempo vive conforme a Deus e a Maria.
Eis aí um dos mais
esplêndidos frutos da verdadeira devoção ao Coração de Maria. Mas há mais: a
alma, não só por hábito adquirido com repetidos actos, mas particularmente por
graça que lhe comunica o espírito de Maria, começa a viver perenemente como que
voltada com todo seu interior para Maria, como se fosse o ar que respira; por
isso, para Ela se dirigem todas as suas lembranças, pensamentos e afectos, com
suma reverência e simultaneamente com ardentíssimo e filial amor; em
consequência, com este modelo continuamente diante do olhar de seu espírito e de
seu coração, vai pouco a pouco também com graça especial de Maria, copiando em
si as virtudes que nEla contempla.
Mas a
maior graça que o Coração Imaculado de Maria outorga às almas que lhe são mais
fiéis e mais queridas, é o
viverem
continuamente em Maria. E
esta graça há-de entender-se não só neste sentido, que
Maria
é a causa eficiente, comunicando as Suas graças e virtudes; causa exemplar,
tornando-se o molde, no dizer de S. Luís Grignion de Montfort, onde vai tomar a
forma de Cristo; causa final, atraindo para Si todos os nossos afectos e
pensamentos,
mas muito mais. Além do Seu espírito e
do Seu viver, o Coração de Maria faz sentir intimamente a certas almas, de uni
modo inefável e por graça extraordinária, sem visões nem nada que fira os
sentidos, a Sua presença suavíssima; a alma passa a viver no Coração Imaculado
desta Mãe, que é o Paraíso do Novo Adão, Cristo, «Santuário da Divindade,
remanso da Santíssima Trindade» como Lhe chama Montfort: «neste Paraíso — diz —
não se pode entrar senão por uma graça particular que se deve merecer (quer
dizer: removendo todos os obstáculos e dispondo-nos para ela o melhor possível).
Depois que por fidelidade se alcançou esta graça insigne, — continua o Santo — é
mister permanecer neste belo interior de Maria em complacência, paz, confiança e
esconder-nos ai em segurança e perder-nos sem reserva, para que este Coração
virginal, nos alimente com a Sua graça e misericórdia, nos livre das
tribulações, medos e escrúpulos e seja a nossa fortaleza contra os assaltos de
nossos inimigos, mundo, demónio e pecado, os quais aí não têm entrada e por
isso Ela diz: qui operantur in Me non peccabunt; isto é: os que
permanecem em espírito na Santíssima Virgem, não caem em pecados consideráveis».
De si
próprio confessou S. Luís de Montfort antes de morrer, ao seu íntimo amigo M.
Blain, que Deus o favorecia da graça
extraordinária de sentir continuamente no fundo da alma, Jesus e Maria.
E a doutrina do grande teólogo místico, o Carmelita, P. Miguel de Santo
Agostinho, no tratado por nós já citado. Escreve assim no capítulo VII: Deste
modo Maria se apresenta a algumas almas pias, à uma com Deus e em Deus,
sem que nada se ponha de permeio; e assim acontece-lhes terem sempre em
toda a parte, a esta Mãe amável, deosculando-A, abraçando-A, etc., com admirável
transformação e ocupação amorosa, sentindo-se como que perder ao mesmo tempo em
Maria e em Deus. Então é como se fossem recolhidos e encerrados em Seu
puríssimo, amantíssimo e ardentíssimo Coração... em grande ternura de afecto e
amor inocentíssimo para com Ela e para com Deus ao mesmo tempo»:
Na
vida da venerável Madre Maria da Encarnação, religiosa ursulina de Tours e
Québec, lemos esta passagem a respeito desta união com Nossa Senhora: «mal
tinha começado — escreve ela mesma — senti a Sua assistência (de Maria) de um
jeito e maneira bem extraordinário, que era tê-La continuamente presente. Não A
via com os olhos do corpo nem com visão imaginária, mas do modo que o
Adorabilíssimo Verbo Encarnado me fez a honra e a misericórdia de Se comunicar,
por união, amor e comunicação actual e contínua: coisa que eu antes nunca tinha
experimentado a respeito da Santíssima Virgem, Mãe de Deus, a não ser nesta
ocasião, apesar de Lhe ter tido sempre grande devoção».
Do
dito se segue, que esta união com o Imaculado Coração de Maria, em nada estorva
nem diminui a perfeição da união com Deus; pelo contrário.
Se já na Terra, ao tratarmos com almas muito sobrenaturais, sente-se como que um
irradiar de Deus que nos atrai e une mais com Ele!... Cumpre-se o dito do
Evangelho: ubi enim sunt duo vel tres congregati in nomine meo ibi sum in
medio eorum: onde estiverem dois ou três unidos em meu nome, aí estou eu no
meio deles.
Que será tratar e unir-se com Aquela que é mais de Deus, que todos os Anjos e
Santos juntos? Com Aquela que na Sua união com Deus tem um lugar completamente
acima e à parte de tudo o que podem fruir os Serafins e Querubins nem toda a
Corte Celeste junta? A ninguém se comunica tanto a Santíssima Trindade, como ao
Coração de Maria. «Deus — escreve ainda o mencionado Autor — pela sua
Omnipotência, Sabedoria e Bondade não pode criar criatura mais nobre, mais pura,
mais perfeita nem mais digna do que esta Sua e nossa Mãe superamável. Levado de
inefável amor com esta Mãe amabilíssima, todo n’Ela se difunde e tanto A enche
de Si e de Suas perfeições, quanto é possível comunicar a uma pura criatura».
Por isso, em
ninguém se encontra tão intensa e profusamente digamos assim Deus, do que em
Maria. Logo unirmo-nos a Ela é encontrar, é banharmo-nos também nessa Luz
infinita que a ilumina. Eis aí o dom por excelência que nossa Senhora, ao
atrair-nos a Si, ao unir-nos ao Seu Coração, nos quer comunicar: Deus.
Portanto, que
sólida e preciosa e excelente é esta união com o Coração de nossa Mãezinha do
Céu. Dir-se-ia um modo inefável de comunhão. E com esta visão clara das coisas,
principalmente, que havemos de buscar o Coração de Maria, como o Coração que
mais unido está a Deus, mais trespassado da Luz divina e que mais participa das
perfeições e atributos divinos.
Contemplar assim
as excelências deste Coração e toda a luz deslumbrante que dele irradia
intensissimamente não desune de Deus; pelo contrário: estreita-nos o mais
intimamente que é possível a Deus.
Também neste capítulo, Fátima nos dá lições profundas. Recordemos as duas
aparições de Maio e Junho. Da segunda escreve a Irmã Lúcia, que no momento em
que Nossa Senhora lhe disse, que nunca a abandonaria e que o Seu Imaculado
Coração seria o Seu refúgio e o caminho que a conduziria até Deus: «A Virgem
abriu as mãos e nos comunicou — diz — pela segunda vez o reflexo da Luz intensa
que A envolvia. Nela nos vimos como que
submergidos em Deus».
De
forma que essa Luz que as criancinhas contemplam em Maria, ao reflectir sobre
elas, faz que se sintam submergidas em
Deus. Não
é isto o que acabamos de afirmar?...
Da aparição de
Maio escreveu a mesma vidente, que «Era uma Senhora mais brilhante que o Sol,
espargindo Luz mais clara e intensa que um copo de cristal cheio de água
cristalina atravessado pelos raios mais ardentes do Sol.» Nossa Senhora
anunciou-lhes, que iam ter muito que sofrer e «ao pronunciar estas palavras,
abriu aos mãos comunicando-nos uma Luz muito intensa, como um reflexo que delas
expedia, penetrando-nos no peito e no mais íntimo da alma e fazendo-nos ver a
nós mesmos em Deus, que era essa Luz, mais claramente do que nos vemos num
espelho.»
Repare-se bem na
profundeza destas afirmações: da Virgem vem a Luz que os inunda e penetra até ao
íntimo da alma; nessa Luz vêem-se a si mesmos em Deus. Parece que estamos a
ouvir S. João no seu Evangelho ou no Apocalipse. A Luz que alumia os
Bem-aventurados no Céu e a Maria mais que a ninguém, é o Cordeiro, Luz da Luz:
Lumen de Lumine; Maria Santíssima comunicando portanto a Sua Luz aos
pequeninos, comunica-lhes Deus e vendo-se eles nessa Luz, vêem-se em Deus. A Luz
que Maria deu ao mundo em Belém, ao nascer Jesus, essa mesma dá às almas de modo
inenarrável, quando se lhes comunica intimamente. Ditosa união com Maria
Santíssima, que é a melhor maneira de nos unir com Deus!
O autor por nós
tantas vezes aludido neste capítulo, afirma, que nessa união com Maria sentem
por vezes as almas, como se Maria fosse a sua respiração e repetindo o
provérbio: anima plus est ubi amat quam ubi animat, afirma ainda, que
essas almas mais lhe parece viverem em Deus e em Maria, do que em si mesmas,
sentem-se como que transformadas em Maria, e podem asseverar: vivo ego jam
non ego vivit vero in me Maria: vivo, mas já não sou eu que vivo, é Maria
que vive em Mim.
O
auge desta divina união realiza-se, quando a alma toda inflamada na caridade que
o Divino Espírito Santo difunde nos corações, se sente tão em Deus e em Maria,
que é como se os três fossem um só: Deus, Maria, a alma. Verifica-se então
experimentalmente mais que nunca, neste vale de lágrimas, o que Jesus pedia para
nós todos na última Ceia: «Que todos sejam um, como Tu, Pai em Mim e Eu
em Ti, para que eles em Nós sejam um. Eu dei-lhes aquela claridade que Tu
me deste, para que sejam um, como Nós o somos, para que todos sejam consumados
num: ut sint consumati in unum!
.
Fiquemos por aqui, que este assunto não se esgota e em vez de mais palavras,
roguemos ao Imaculado Coração de Maria, se digne na Sua imensa bondade e
misericórdia, receber-nos assim nesta Sua escola de perfeição e santidade, para
merecermos pertencer ao número daqueles que nestes últimos tempos, na afirmação
de S. Luís Grignion de Montfort, hão de ser almas cheias de graça e de zelo,
escolhidas para se oporem aos inimigos de Deus, que surgirão por toda a parte em
frémitos de ódio.
Sobre estes três pontos ver: Antonin Lhoameau, La Vie Spirituelle à
l’École du B. L. M. Grignion de Montfort, 4ª ed. 1920, pág.
286 e ss.
Obr. cit.; veja-se todo o capítulo VII e ss.
La
Témoignage de Marie de 1’Incarnation,
ursuline de Tours et
Québec, pág. 261, Paris Beauchesne, 1932.
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