Amor Que Ora
«Que fazeis? Orai, orai muito!»
O Anjo aos Pastorinhos
Despertando em
nossas almas o amor filial a Maria Santíssima, facilita-se o
caminho para cumprirmos o que Ela de nós
deseja.
Ora, o Coração
Imaculado de Maria querendo salvar-nos a todo o custo, manda que empreguemos os
meios
para isso; e o primeiro, o mais indispensável e ao alcance de todos é a
Oração. Razão porque tanto Ela, como já antes o Anjo instam uma e
outra vez: orai! orai! orai!
E que
substanciosas lições nos proporcionam, na sua brevidade, as palavras celestes
sobre a importante prática da Oração!
Primeiramente, na
insistência com que invariavelmente, em todas as aparições do Anjo e da Senhora,
se inculca a Oração, lembra-se ao mundo mais uma vez retumbantemente a
necessidade máxima que dela temos. Dir-se-ia o eco vibrante, em nossos dias, das
palavras de Jesus outrora no Evangelho: «é preciso orar sempre; orai sem cessar;
orai, para não caírdes em tentação; pedi e recebereis; sem Mim nada podeis
fazer».
Donoso Cortês
escreveu algures, que «os que oram, prestam maior serviço ao mundo, do que os
que combatem; se o mundo se torna cada vez pior, é porque se combate mais
do que se ora». E alguém acrescentou que a maior desgraça do nosso tempo era
orar-se tão pouco.
Maria Santíssima
vem ensinar-nos a prestar esse grande serviço ao mundo; vem socorrer-nos nessa
grande desgraça.
E particularmente
para o intricado problema da conversão dos pecadores se requer oração. Quem
peca, de si inutiliza-se para obras de vida eterna: um morto não pode ter obras
de vida. Por si, conseguintemente, não se pode converter. Mas é Deus tão
infinitamente bom que do alto lhe estende o braço da Sua misericórdia, para que
o pecador, segurando-se dele, se erga do abismo onde se precipitou, pecando. O
primeiro movimento a realizar para se segurar desse braço é orar: «Pai, pequei
contra o Céu e contra Ti; perdoa-me!»
Baldada ficaria a
urgente finalidade para que a Virgem apareceu em Fátima e nos revelou o Seu
Imaculado Coração, queremos dizer: a conversão dos pecadores, se eles não se
resolvem a implorar o indispensável auxílio divino para este intento.
A conversão é obra
da graça divina, mas não se realiza sem a nossa cooperação. Do Céu vem o
primeiro impulso, por meio da Virgem celeste, fazendo-nos ver a nossa desgraça:
«não ofendam mais a Nosso Senhor que já está muito ofendido»; comunicando-nos o
desejo inicial de sairmos dessa mesma desgraça. Em Outubro, ao revelar que era
a Senhora do Rosário, diz: «que vinha a exortar os pecadores a mudarem de vida
e a não ofenderem mais a Nosso Senhor». Mas importa da nossa parte lançar mão de
todos os meios ao alcance, para realizarmos em obras esse desejo.
O mais imediato de
todos é a Oração e por isso, ela deve ser também a nossa primeira prática
de devoção ao Imaculado Coração de Maria.
Orar! Orar antes
de mais nada, afim de conseguirmos o perdão dos nossos pecados e a graça de nos
livrarmos do inferno: quem vive em pecado mortal, está condenado ao inferno,
enquanto perseverar nesse estado de condenação. Orar, para satisfazermos à
Justiça Divina por esses mesmos pecados e repararmos a Sua honra ultrajada. Orar
para perseverarmos nos bons propósitos e não tornarmos a cair em pecado.
* * *
E como havemos de
orar e o que havemos de dizer ao Senhor?
Oiçamos o Anjo,
que é bom Mestre. A primeira aparição versa, pode dizer-se, expressamente este
assunto. Depois de tranquilizar os pequeninos, declarando-lhes que é o Anjo da
Paz, dá-lhes uma lição prática de oração.
— Orai comigo —
lhes diz — «E ajoelhando em terra, curvou a fronte até ao chão. Levados por um
movimento sobrenatural, imitámo-lo — escreve a Irmã Lúcia — e repetimos as
palavras que lhe ouvimos pronunciar: «Meu Deus, eu creio, adoro, espero e
amo-Vos. Peço-vos perdão para os que não crêem, não adoram, não esperam e Vos
não amam.
«Depois de repetir
isto três vezes, ergueu-se e disse: — Orai assim. Os Corações de Jesus e Maria
estão atentos à voz das vossas súplicas».
Que bela lição aí
fica! Primeiro mostra-se-nos o modo reverente e devoto como havemos de
portar-nos diante de Deus. Na presença da Divina Majestade até os Anjos curvam
a fronte humildemente; porque Deus é tudo e nós nada; Deus é o Senhor e nós seus
servos; e tratando-se dos homens, Ele é a Santidade Infinita e nós o pecado, a
maldade, a monstruosidade, como de si mesma sentia Santa Margarida Maria.
Depois, que
variedade de actos nos leva o Anjo a exercitar nesta oração! E a fé, a adoração,
que só a Deus é devida; é a esperança; é o amor para com Deus; é a reparação
pelos pecadores.
Mas não se
contenta com uma oração qualquer, passageira. E ver como na segunda aparição
insiste: — «Que fazeis? Orai! Orai muito! Os Corações de Jesus e Maria têm sobre
vós desígnios de misericórdia. Oferecei constantemente ao Altíssimo orações e
sacrifícios.
Quer
pois, que orem
muito, que orem constantemente: é o sine intermissione orate
do Evangelho.
Mais: manda-lhes
que transformem tudo em oração: — «De tudo o que puderdes oferecei um sacrifício
ao Senhor em acto de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido e de
súplica pela conversão dos pecadores».
Lembram-nos as palavras de S. Paulo, quando exorta: «ou comais, ou bebais ou
façais seja o que for, fazei tudo para glória de Deus».
Na terceira
aparição transmite o Anjo aos ditosos videntes uma oração sublime. Nela se
recordam as melhores devoções do Cristianismo: Santíssima Trindade, Augustíssimo
Sacramento da Eucaristia, Sagrado Coração de Jesus Imaculado Coração de Maria.
Diz-lhes como hão de unir a sua prece à Vítima que continuamente se imola em
nossos altares, e por uma Comunhão milagrosa, une-os realmente a essa mesma
Vítima: que não há melhor modo de orar na Terra, do que a união a Jesus pela
Comunhão Eucarística.
Recordemos mais
uma vez esse episódio.
Estavam os
Pastorinhos na Loca do Cabeço e aparece-lhes terceira vez o Anjo, «trazendo na
mão um cálice e sobre ele uma Hóstia, da qual caíam dentro do cálice algumas
gotas de sangue. Deixando o cálice e a Hóstia suspensos no ar, prostrou-se em
terra e repetiu três vezes a oração:
— Santíssima
Trindade, Pai, Filho, Espírito Santo, adoro-Vos profundamente e ofereço-Vos o
preciosíssimo. Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo, presente em
todos os sacrários da Terra, em reparação dos ultrajes sacrilégios e
indiferenças com que Ele mesmo é ofendido. E pelos méritos infinitos do Seu
Santíssimo Coração e do Coração Imaculado de Maria, peço-Vos a conversão dos
pobres pecadores».
Depois,
levantando-se, tomou de novo o cálice e a Hóstia e deu-me a Hóstia a mim — é
sempre a Irmã Lúcia que fala — e o que continha o cálice deu-o a beber à Jacinta
e ao Francisco, dizendo ao mesmo tempo: — Tomai e bebei o Corpo e o Sangue de
Jesus Cristo horrivelmente ultrajado pelos homens ingratos. Reparai os seus
crimes e consolai o vosso Deus.
«De novo se
prostrou em terra e repetiu connosco mais três vezes a mesma oração: Santíssima
Trindade, etc.»
Aí fica ao mesmo
tempo um lindo método para comungar, breve, devoto, substancioso e muito ao
alcance de todos, mesmo dos que não sabem ler.
Bem
se compreende, que eficaz deve ser oração com tais quilates e aprendida em tal
escola. Por isso, categoricamente o Anjo afirma aos pequeninos: — «Os Corações
de Jesus e de Maria estão atentos à voz de vossas súplicas»; isto é:
atendem-nas, ouvem-nas e dão-lhes bom despacho, tanto mais que esses Sagrados
Corações têm sobre eles desígnios de
misericórdia.
* * *
Nossa Senhora, por
Sua vez, em todas as aparições insiste sempre também, que oremos e pede
particularmente a reza do Terço diário, mandando acrescentar no fim de cada
mistério uma jaculatória que exprime a grande” graça a obter para o mundo: que
não caiam as almas no inferno, perdão para os pecadores, a sua conversão e
salvação eterna no céu, porque são Seus filhos; ei-la: «O meu Jesus,
perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno, levai as alminhas todas para o Céu,
principalmente as que mais precisarem».
Outra oração lhes
ditou também, sobretudo para os momentos de sacrifício: «Ó Jesus, é por vosso
amor, pela conversão dos pecadores e em reparação pelos pecados cometidos contra
o Coração Imaculado de Maria».
Bons discípulos e
admiráveis modelos de oração saíram com tais lições, os três zagais de Fátima.
Do primo escreve a Irmã Lúcia: «O Francisco era de poucas palavras e para fazer
a sua oração e os seus sacrifícios gostava de se ocultar até da Jacinta e de
mim. Não poucas vezes o íamos surpreender detrás de uma parede ou de um silvado,
para onde dissimuladamente se tinha escapado, de joelhos a rezar, ou pensar,
como ele dizia, em Nosso Senhor, triste por tantos pecados.
«Se lhe
perguntava: — Francisco, porque não me dizes para rezar contigo e mais a
Jacinta? — Gosto mais de rezar sozinho, respondia, para consolar a Nosso Senhor,
que está tão triste».
Um dia apartou-se
das Companheiras para longe; procuraram-no e foram encontrá-lo prostrado por
terra, atrás de um muro de pedras soltas.
— Que estás aqui a
fazer? — indagaram.
Como despertado de
um sono profundo, respondeu:
— Comecei a rezar
as orações do Anjo e depois fiquei a pensar.
— Então não
ouviste a Jacinta chamar-te?
— Não ouvi nada.
«De vez em quando
— afirma a Lúcia — afastava-se de nós dissimuladamente. Quando lhe dávamos pela
falta, púnhamo-nos à sua procura, chamando por ele. Lá nos respondia detrás duma
paredita ou de algum arbusto ou silvado, onde estava de joelhos a rezar.
Enquanto a Jacinta parecia preocupada com o único pensamento de converter
pecadores, livrar as almas do inferno, ele parecia só pensar em consolar a Nosso
Senhor e a Nossa Senhora, que lhe tinha parecido estarem tão tristes».
«Um dia
perguntei-lhe: — Francisco, tu de que gostas mais de consolar a Nosso Senhor ou
converter pecadores?
— Gosto mais de
consolar a Nosso Senhor. Não reparaste como Nossa Senhora ainda no último mês se
pôs tão triste, quando disse que não ofendessem a Nosso Senhor, que já está tão
ofendido? Eu queria consolar a Nosso Senhor e depois converter pecadores, para
que não O ofendessem mais».
A Jacinta para
orar não se escondia tanto nem do irmão nem da prima; desde as primeiras
aparições, transformou-se em apóstola da oração: — Agora, quando rezarmos o
Terço, temos que rezar a Ave-Maria e o Padre Nosso, inteiros» — recomendava ela.
Quando às ordens
do administrador de Ourém, se achou cativa no meio dos presos, prostrou-se de
joelhos com o Francisco e a Lúcia, diante de uma medalha que tirou do pescoço e
um preso pendurou na parede e começaram a rezar destemidamente o Terço. Os
presos ajoelharam também e acompanharam-nos na devoção.
— «Comungaste? –
interrogava ela à Lúcia que regressava da Igreja. Ouvindo resposta afirmativa,
pedia logo: — então chega-te aqui bem para mim, que tens em teu coração a Jesus
escondido!»
— «Não sei como é
— segredava outras vezes — sinto-a Nosso Senhor dentro de mim; compreendo o que
me diz e não O vejo nem O oiço; mas é tão bom estar com Ele!»
Do Rev. P. Dr.
Cruz aprendeu ela, entre outras, duas jaculatórias que não se cansava de
repetir: «Ó meu Jesus... eu Vos amo! Doce Coração de Maria, sede a minha
salvação!»
Já enferma
declarava à Lúcia: — «Quando estou só, desço-me da cama para rezar as orações do
Anjo, mas agora já não sou capaz de chegar com a cabeça ao chão, porque caio;
rezo só de joelhos».
— «Pergunta à
Jacinta — dizia para a Lúcia a mãe da pequena — o que está a pensar, quando está
com as mãos na cara tanto tempo, sem se mover? Já lhe tenho perguntado, mas
sorri-se e não responde».
A Lúcia fez-lhe a
pergunta: — «Penso em Nosso Senhor e Nossa Senhora — respondeu e nomeou algumas
coisas do segredo — Gosto muito de pensar.
«Um dia assim
abriu a sua alma inocente e abrasada, como um serafim: — «gosto tanto de dizer a
Jesus que O amo... Quando lho digo muitas vezes, parece que tenho lume no peito,
mas não me queima!...»
* * *
Em resumo: Fátima prega-nos com eloquência evangélica, de palavra e por obras, a
Oração: oração reverente, humilde, simples, continua, em actos de fé, de
adoração, de esperança, de perdão, de amor, de reparação e zelo pela conversão
dos pecadores.
Nela está o meio indispensável, necessário, quanto é da nossa parte, para
conseguirmos a conversão do pecado para a graça e a salvação eterna da nossa
alma. É também o primeiro dos meios a que devemos acudir, se queremos cooperar
com o Coração de Maria na salvação de nossos irmãos, os pobres e infelizes
pecadores. Por isso a Virgem nos pede tanto, que oremos, ao vir a Fátima
trazer-nos o Seu Imaculado Coração.
|