PRO CAUSA DE BEATIFICAÇÃO - PRO CAUSE DE BÉATIFICATION

SEGUNDA PARTE

Prática da devoção ao Imaculado Coração de Maria

O fim desta Devoção

«Parecia ser esta toda a amargura
e preocupação do Seu Imaculado Coração».
 Lúcia

Na primeira parte deste livro indagámos sucintamente os fundamentos históricos, filosóficos e teológicos da Devoção ao Imaculado Coração de Maria. Entre os pri­meiros destacam-se pela sua importância, as revelações de Fátima, nas quais Maria Santíssima afirma categoricamente: «Jesus quer estabelecer no mundo a Devoção ao Imaculado Coração.

Mesmo que do Céu não viera este imperativo, quem não se sente obrigado a venerar com especialíssimas demonstrações de reverência e amor ao Coração de Maria Santíssima? «Quê? — exclama Terrien — a própria natu­reza nos ensina que devemos prestar homenagem, respeito e reverência aos seres racionais dotados de alguma exce­lência, mesmo na ordem natural e não havia de ter direito às minhas homenagens a Mãe de Deus, a Rainha do mundo, o Abismo insondável onde transbordam as perfeições da natureza, da graça e da Glória; a mais elevada, a mais perfeita das criaturas de Deus, a Obra-prima de Suas mãos; Aquela diante de quem desmaia toda a grandeza que não seja Deus? E mister fechar voluntariamente os olhos (como fazem os protestantes) para não ver e con­fessar os títulos da Bem-aventurada Virgem Maria ao culto dos Anjos e dos homens: isto é de todas as criaturas.[1]

De mais a mais, esta tão excelsa e soberana Senhora é nossa Mãe. «Não há no Céu nem na Terra laços tão fortes, nem tão poderosos, como os que estreitam uma tal Mãe a cada um de nós, seus filhos».[2]  Só por este motivo já Ela tinha direito ao culto de hiperdulia.

Mas não pretendemos demonstrar a evidência, a quem conhece Nossa Senhora, isto é os direitos de especial culto e devoção ao Seu Coração Imaculado; salta bem aos olhos, depois de tudo o que levamos dito na primeira parte. O que mais importa agora é sabermos como Lhe havemos de prestar esse culto. Guiar-nos-emos sempre pela luz que nos vem de Fátima, para responder a esta pergunta.

Primeiro contudo, e a essa luz também, indaguemos o fim imediato que a Providência tem em vista, ao querer que nesta hora histórica, se estabeleça mais de veras no mundo a devoção ao Imaculado Coração de Maria.

A resposta ressalta clara das revelações aos Videntes, principalmente à Lúcia, e até da Liturgia da nova Missa, na festa do Imaculado Coração de Maria. De tudo parece escutar-se Nossa Senhora a dizer de Si mesma o que ou­trora afirmava de Si o Divino Mestre: non veni vocare justos sed peccatores ad poenitentiam: Eu vim chamar os pecadores à penitência.[3]

Esta a grande e mais urgente finalidade da Devoção ao Imaculado Coração de Maria.

Comecemos pela Liturgia. O Intróito da Missa abre com as palavras de S. Paulo aos Hebreus: «Vamos pois, cheios de confiança ao trono da graça: para conseguirmos misericórdia e alcançarmos favor em auxílio oportuno».[4]

Nunca o auxílio da misericórdia e da graça é tão oportuno, como quando mais falho dessa graça e mais in­digno dessa misericórdia se torna o mundo, por suas iniquidades.

Os tempos que atravessamos são brutais: campeia em tanta parte o ateísmo bolchevista, cuspindo as mais execrandas blasfémias contra o Céu! Ao seu lado preparando-lhe eficazmente o terreno, o paganismo crescente, numa arrogância irritante, pretendendo apresentar-se como um novo redentor, por julgarem já fora de modo e atrasado para os nossos progressos, o verdadeiro Redentor e a Sua Religião Revelada.

Em consequência alastra a abominação dos costumes; já apenas se encontra inocência e perfeita pureza sobre a face da Terra: abominabiles facti sunt!

Os lares desmoronam-se em ruínas, pelos ataques à prole, à fidelidade, à indissolubilidade conjugais. Os cla­mores das vozes inocentes que tinham direito à vida e nem chegam a nascer, porque os exterminam ao serem conce­bidos, avolumam-se, momento a momento, e urgem com o Céu a pedir vinganças contra esta Terra de assassinos. E injustiças e rapinas e intemperanças e mais ainda, profanações do Santuário, por vezes mais provocativas da ira de Deus, que todos os outros crimes...

Que profundamente sentiu esta deplorabilíssima si­tuação do mundo a pequena Jacinta! Tinha-lho revelado Nossa Senhora. Por isso lhe ouviam: — «Os pecados que levam mais almas para o inferno são os pecados da carne». «Hão de vir umas modas que hão de ofender muito a Nosso Senhor... As pessoas que servem a Deus não devem andar na moda. A Igreja não tem modas. Nosso Senhor é sempre o mesmo».

«Os pecados do mundo são muito grandes. Nossa Senhora disse que no mundo há muitas guerras e discór­dias; as guerras não são senão castigo pelos pecados do mundo...

«Ai dos que perseguem a Religião de Nosso Senhor!... Se o governo deixasse em paz a Igreja e desse liberdade à santa Religião, era abençoado por Deus.

Minha madrinha, peça muito pelos pecadores! Peça muito pelos Padres! Peça muito pelos Religiosos! Peça muito pelos governos!

Os Padres só deviam ocupar-se das coisas da Igreja. Os Padres devem ser puros, muito puros! A desobediência dos Padres e dos Religiosos a seus Superiores e ao Santo Padre ofende muito a Nosso Senhor. Para ser Reli­giosa é preciso ser muito pura na alma e no corpo...»[5]

E a Jacinta declarava ainda, como uma consequência de todo este estado de coisas, que Nossa Senhora «já quase não podia sustar o braço de Seu amado Filho sobre o mundo».

Apesar disso e por isso, vem o Coração de Maria a Fátima, munida de toda a misericórdia de que é Rainha, para valer aos pecadores. Eles são a sua herança; são os Seus filhos que tantas dores Lhe Custaram no Calvário. Bem no-lo recorda o Evangelho da mesma Missa do Ima­culado Coração de Maria.

Reduz-se ele apenas a dois versículos; na sua brevi­dade, porém, quatro vezes repete uma palavra de miseri­córdia, síntese da feição mais característica do Coração Imaculado de Maria; é a palavra Mãe: Mater Jesu; Ma­trem stantem, dicit Matri Suae, Ecce Mater tua: «Mãe de Jesus, Mãe forte de pé junto à Cruz, Mãe a quem Jesus nos entrega como filhos, Mãe que Jesus nos dá para que A tomemos como nossa».[6]

Repare-se bem na hora em que o Salvador nos dá essa querida Mãe. Perpetrava-se nesse momento o maior crime que se viu no mundo: a morte de um Deus! Nesse crime (no qual se condensam todos os crimes dos homens de todos os tempos) eis a vingança que toma Jesus: pri­meiro dá-Se-nos a Si mesmo, num supremo acto de amor e de misericórdia; e em segundo lugar, une a essa dádiva e a esse amor misericordioso a Sua Mãe, entregando-no-La também: Ecce Mater tua! Ei-la a Mãe do Santo dos Santos, proclamada solenemente Mãe dos pecadores. Que troca! Mas que misericórdia!

O mundo de hoje revela-se todo ele um novo Calvário em que as multidões ao longe e ao largo bradam, mais injuriosas ainda do que os judeu deicidas: tolle! tolle! Fora! Fora! Não queremos a Cristo para nada! Morra! Desapareça para sempre!

E Cristo Crucificado pelos pecados de todos os homens, que tem de ficar presente a todos os séculos, nesse Seu contínuo e místico agonizar, a vingança que resolve tomar de nós, em hora de crimes supremos, é uma nova demonstração da Sua infinita Misericórdia: um como derradeiro esforço para nos salvar. Ecce Mater tua: aí tendes mais uma vez, e com maiores efusões de Sua bondade maternal, o Coração de vossa Mãe Imaculada. Fazei o que Ela disser e sereis salvos!

 

* * *

 

Mas que seja esta a finalidade (não exclusiva mas a mais urgente) da devoção ao Coração de Maria, aparece ainda mais claro, se recordarmos as revelações feitas aos Pastorinhos.

Já nas aparições do Anjo se vê isto mesmo; para a conversão dos pecadores faz o celeste Mensageiro conver­gir tudo o que lhe ensina e recomenda.

Na primeira aparição, ora e ensina-lhes uma oração a implorar perdão «para os que não crêem, não esperam, não amam a Deus».

Na segunda, não só insiste que orem, mas manda-lhes: «de tudo o que puderdes oferecei um sacrifício em acto de reparação pelos pecados com que Ele (Jesus) é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores... sobretudo aceitai e suportai com submissão o sofrimento que o Senhor vos enviar».

Na terceira, é a Comunhão reparadora ministrada milagrosamente: «tomai e recebei o Corpo e Sangue de Jesus Cristo tão horrivelmente ultrajado pelos homens ingratos. Reparai os seus crimes e consolai o vosso Deus». E nova oração lhes ensina de desagravo e intercessão pelos pobres pecadores: «Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, adoro-Vos profundamente e ofereço-Vos o preciosíssimo Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo, presente em todos os Sacrários da Terra, em reparação dos ultrajes, sacrilégios e indiferenças com que Ele mesmo é ofendido. E pelos méritos infinitos do Seu Santíssimo Coração e do Coração Imaculado de Maria, peço-Vos a conversão dos pobres pecadores».

Com as aparições do Anjo ficaram os Pastorinhos iniciados na sua missão; a Virgem na Cova da Iria vem confirmar e completar o trabalho começado e desde a primeira aparição se mostra bem explícita nos intentos com que desce à Terra: salvar os pecadores.

Antes de mais nada, manda-lhes que rezem o Terço com devoção e pergunta-lhes «se querem oferecer sacrifícios a Nosso Senhor e aceitar de boa vontade os sofrimentos que Ele lhes enviar, em reparação de tantos pecados com que a Divina Majestade é ofendida, para obter a conversão dos pecadores e em desagravo das blasfémias e ultrajes feitos ao Imaculado Coração de Maria».

Em Junho insiste nas mesmas recomendações e ensina-Lhes uma jaculatória para intercalarem nos mistérios do Terço, toda ela encaminhada a acudir aos pobres pecadores: «ó meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno; levai as alminhas todas para o Céu, principal­mente as que mais precisarem».

Repare-se bem nesta última cláusula: as que mais precisarem, que ela põe-nos bem em foco as grandes preocupações da nossa Mãe do Céu. Comentando esta parte da jaculatória, escrevia a própria Irmã Lúcia, a 17 de Dezembro de 1939, que Nossa Senhora se referia às «almas que se encontram em maior perigo de condenação eterna, pois parecia ser esta toda a amargura e preocupação do Seu Imaculado Coração».[7]

Desta amargura ficam os Pastorinhos a participar intensissimamente, sobretudo desde a aparição de Julho, ao verem o inferno. «Nosso Senhor mostrou-nos um grande mar de fogo — relata a Irmã Lúcia — que parecia estar debaixo da Terra. Mergulhados nesse fogo os demónios e as almas, como se fossem brasas transparentes e negras ou bronzeadas com forma humana flutuavam no incêndio levadas pelas chamas que delas mesmas saíam junta­mente com nuvens de fumo, caindo para todos os lados, semelhante ao cair das faúlhas nos grandes incêndios, sem peso nem equilíbrio, entre gritos e gemidos de dor e desespero, que horrorizava e fazia estremecer de pavor».

Para que foi esta visão a criancinhas inocentes e a quem Nossa Senhora já tinha revelado que iriam para o Céu?

E para obter aquilo a que veio a Fátima. Lembra ao mundo esta tremenda verdade em pleno século XX, porque também para este século de requintes na cultura e descuido da eternidade, é remédio eficaz lembrar-lhe os seus novíssimos, para que se converta e não peque. E mostrando-o aos pequeninos, leva-os a todas as generosidades na oração e sacrifício, afim de acudirem aos pecadores. Tudo é pouco para livrar uma alma do inferno. Mais: para conseguir o mesmo resultado, vem Maria Santíssima oferecer aos mesmos pecadores o Seu Coração. Imaculado, como Arca de salvação.

Oiçamos a Virgem, logo após essa visão terrífica.

— «Vistes o inferno — lhes diz — para onde vão as almas dos pobres pecadores; para os salvar, Deus quer estabelecer no mundo a devoção ao meu Imaculado Coração».

Não se pode por mais explícita a finalidade desta devoção, pelo menos quanto ao intento principal que Deus tem em vista: salvar os pobres pecadores. E Nossa Se­nhora Continua: «Se fizerem o que Eu disser, salvar-se-ão muitas almas e terão paz...» Mais adiante acrescenta: «Se atenderem aos meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz».

Não precisávamos de mais para demonstrar a tese deste capítulo.

Nesta aparição ensinou Nossa Senhora aos seus pri­vilegiados Pastorinhos outra jaculatória em prol dos pecadores: «Sacrificai-vos pelos pecadores e dizei muitas vezes e em especial sempre que fizerdes algum sacrifício: «— Ó Jesus, é por vosso amor, pela conversão dos Pecadores e em reparação pelos pecados cometidos contra o Imaculado Coração de Maria».

E ao princípio ordenou-lhes que voltassem ali no dia 13 do mês seguinte, que continuassem a rezar o Terço todos os dias, em honra de Nossa Senhora do Rosário, para obter a paz do inundo e o fim da guerra, porque só Ela lhes pode valer.

Em Agosto repete-lhes: «rezai, rezai muito e fazei sacrifícios pelos pecadores. Olhai, que vão muitas almas para o inferno, por não haver quem se sacrifique por elas».

No grande dia 13 de Outubro de 1917, depois de a Lúcia perguntar, na sua linguagem simples: — «quem é vossemecê e que quer de mim?» — A visão respondeu que era a Senhora do Rosário e que viera para exortar os fiéis a mudarem de vida e a não afligirem mais a Nosso Senhor com o pecado, que já estava muito ofendido e a recitarem o santo Rosário e a fazerem penitência dos seus pecados».

«Desta aparição — escreveu a Irmã Lúcia ao Senhor Bispo de Leiria — as palavras que mais se me gravaram no coração foi o pedido de Nossa Santíssima Mãe do Céu: Não ofendam mais a Nosso Senhor, que já está muito ofen­dido! Que amorosa queixa e que terno pedido! Quem me dera que ele ecoasse pelo mundo fora e que todos os filhos da Mãe do Céu ouvissem o som da Sua voz!»

Como se vê, até ao fim, sempre a mesma insistência: a conversão dos pecadores, a conversão dos pecadores, a conversão dos pecadores!

Para tanto corre a Virgem em seu socorro, pois em crimes tão enormes e tão multiplicados, só Ela lhes pode valer. E que diante de Deus e de Seu Divino Filho, Juiz supremo dos homens, o único pára-raios da divina Justiça é o Coração Imaculado de Maria.

São imensos e insuportáveis os nossos pecados e reclamam castigo imediato; mas eis que se põe entre nós e a cólera divina este Prodígio de pureza, de santidade e de amor a toda a prova: este Coração em que principal­mente se passou todo o Martírio da Virgem no Calvário, para salvar os pecadores; Coração da Mãe dos homens, da Corredentora, da Medianeira; Íris de bonança entre o Céu e a Terra...

Deus vai para ferir-nos, «porque já está muito ofen­dido, mas encontra de permeio este Coração que também e sobretudo é o Coração de Sua Mãe e... já não pode des­carregar o golpe; suspende os castigos e dá a Sua Mãe licença de operar todos os milagres que quiser, para ver se ainda nos vale.   

E esses prodígios aí estão bem patentes e cada vez mais numerosos e espantosos.

Por outro lado, este Coração materno goza junto dos pecadores de uma atracção e força especiais para os cha­mar a Si: e mesmo sem falar exteriormente, só com mostrar-se nas suas imagens, transforma as almas, rende os pecadores arrependidos aos pés e à lei de Seu Divino Filho.

Estamos na hora das grandes misericórdias de Maria Santíssima, porque mais de propósito que nunca, se re­velou aos homens o Seu Imaculado Coração afim de salvar os pecadores. Sim: apara os salvar, Deus quer estabelecer no mundo a devoção ao meu Imaculado Coração» — afirmava a própria Virgem Maria à Lúcia.


[1] Obr. cit. II p. tom. II, pág. 137.

[2] Ib. pág. 221.

[3] Mt. IX, 13.

[4] Hebr. IV, 16.

[5] Cfr. Nossa Senhora de Fátima, pelo P. L.O. da Fonseca, S.J., ed. cit., págs. 146-147.

[6] Joan. XIX, 25-27.

[7] Cfr. Mensageiro do Coração de Jesus, Maio de 1946, pág. 197, Braga.