SEGUNDA PARTE
Prática da
devoção ao Imaculado Coração de Maria
O fim desta
Devoção
«Parecia ser esta toda a amargura
e preocupação do Seu Imaculado Coração».
Lúcia
Na primeira parte
deste livro indagámos sucintamente os fundamentos históricos, filosóficos e
teológicos da Devoção ao
Imaculado Coração de Maria. Entre os primeiros
destacam-se pela sua importância,
as revelações de Fátima, nas quais Maria Santíssima afirma categoricamente:
«Jesus quer estabelecer no mundo a Devoção ao Imaculado Coração.
Mesmo
que do Céu não viera este imperativo, quem não se sente obrigado a venerar com
especialíssimas demonstrações de reverência e amor ao Coração de Maria
Santíssima? «Quê? — exclama Terrien — a própria natureza nos ensina que devemos
prestar homenagem, respeito e reverência aos seres racionais dotados de alguma
excelência, mesmo na ordem natural e não havia de ter direito às minhas
homenagens a Mãe de Deus, a Rainha do mundo, o Abismo insondável onde
transbordam as perfeições da natureza, da graça e da Glória; a mais elevada, a
mais perfeita das criaturas de Deus, a Obra-prima de Suas mãos; Aquela diante de
quem desmaia toda a grandeza que não seja Deus? E mister fechar voluntariamente
os olhos (como fazem os protestantes) para não ver e confessar os títulos da
Bem-aventurada Virgem Maria ao culto dos Anjos e dos homens: isto é de todas as
criaturas.
De
mais a mais, esta tão excelsa e soberana Senhora é nossa Mãe. «Não há no Céu nem
na Terra laços tão fortes, nem tão poderosos, como os que estreitam uma tal Mãe
a cada um de nós, seus filhos».
Só por este motivo já Ela tinha direito ao culto de hiperdulia.
Mas não
pretendemos demonstrar a evidência, a quem conhece Nossa Senhora, isto é os
direitos de especial culto e devoção ao Seu Coração Imaculado; salta bem aos
olhos, depois de tudo o que levamos dito na primeira parte. O que mais importa
agora é sabermos como Lhe havemos de prestar esse culto. Guiar-nos-emos sempre
pela luz que nos vem de Fátima, para responder a esta pergunta.
Primeiro contudo,
e a essa luz também, indaguemos o fim imediato que a Providência tem em vista,
ao querer que nesta hora histórica, se estabeleça mais de veras no mundo a
devoção ao Imaculado Coração de Maria.
A
resposta ressalta clara das revelações aos Videntes, principalmente à Lúcia, e
até da Liturgia da nova Missa, na festa do Imaculado Coração de Maria. De tudo
parece escutar-se Nossa Senhora a dizer de Si mesma o que outrora afirmava de
Si o Divino Mestre: non veni vocare justos sed peccatores ad poenitentiam:
Eu vim chamar os pecadores à penitência.
Esta a grande e
mais urgente finalidade da Devoção ao Imaculado Coração de Maria.
Comecemos pela Liturgia. O Intróito da Missa abre com as palavras de S. Paulo
aos Hebreus: «Vamos pois, cheios de confiança ao trono da graça: para
conseguirmos misericórdia e alcançarmos favor em auxílio oportuno».
Nunca o auxílio da
misericórdia e da graça é tão oportuno, como quando mais falho dessa graça e
mais indigno dessa misericórdia se torna o mundo, por suas iniquidades.
Os tempos que
atravessamos são brutais: campeia em tanta parte o ateísmo bolchevista, cuspindo
as mais execrandas blasfémias contra o Céu! Ao seu lado preparando-lhe
eficazmente o terreno, o paganismo crescente, numa arrogância irritante,
pretendendo apresentar-se como um novo redentor, por julgarem já fora de modo e
atrasado para os nossos progressos, o verdadeiro Redentor e a Sua Religião
Revelada.
Em
consequência alastra a abominação dos costumes; já apenas se encontra inocência
e perfeita pureza sobre a face da Terra:
abominabiles facti sunt!
Os lares
desmoronam-se em ruínas, pelos ataques à prole, à fidelidade, à
indissolubilidade conjugais. Os clamores das vozes inocentes que tinham direito
à vida e nem chegam a nascer, porque os exterminam ao serem concebidos,
avolumam-se, momento a momento, e urgem com o Céu a pedir vinganças contra esta
Terra de assassinos. E injustiças e rapinas e intemperanças e mais ainda,
profanações do Santuário, por vezes mais provocativas da ira de Deus, que todos
os outros crimes...
Que profundamente
sentiu esta deplorabilíssima situação do mundo a pequena Jacinta! Tinha-lho
revelado Nossa Senhora. Por isso lhe ouviam: — «Os pecados que levam mais almas
para o inferno são os pecados da carne». «Hão de vir umas modas que hão de
ofender muito a Nosso Senhor... As pessoas que servem a Deus não devem andar na
moda. A Igreja não tem modas. Nosso Senhor é sempre o mesmo».
«Os pecados do
mundo são muito grandes. Nossa Senhora disse que no mundo há muitas guerras e
discórdias; as guerras não são senão castigo pelos pecados do mundo...
«Ai dos que
perseguem a Religião de Nosso Senhor!... Se o governo deixasse em paz a Igreja e
desse liberdade à santa Religião, era abençoado por Deus.
Minha madrinha,
peça muito pelos pecadores! Peça muito pelos Padres! Peça muito pelos
Religiosos! Peça muito pelos governos!
Os
Padres só deviam ocupar-se das coisas da Igreja. Os Padres devem ser puros,
muito puros! A desobediência dos Padres e dos Religiosos a seus Superiores e ao
Santo Padre ofende muito a Nosso Senhor. Para ser Religiosa é preciso ser muito
pura na alma e no corpo...»
E a Jacinta
declarava ainda, como uma consequência de todo este estado de coisas, que Nossa
Senhora «já quase não podia sustar o braço de Seu amado Filho sobre o mundo».
Apesar disso e por
isso, vem o Coração de Maria a Fátima, munida de toda a misericórdia de que é
Rainha, para valer aos pecadores. Eles são a sua herança; são os Seus filhos que
tantas dores Lhe Custaram no Calvário. Bem no-lo recorda o Evangelho da mesma
Missa do Imaculado Coração de Maria.
Reduz-se ele apenas a dois versículos; na sua brevidade, porém, quatro vezes
repete uma palavra de misericórdia, síntese da feição mais característica do
Coração Imaculado de Maria; é a palavra Mãe: Mater Jesu; Matrem
stantem, dicit Matri Suae, Ecce Mater tua: «Mãe de Jesus, Mãe forte de pé
junto à Cruz, Mãe a quem Jesus nos entrega como filhos, Mãe que Jesus nos dá
para que A tomemos como nossa».
Repare-se bem na
hora em que o Salvador nos dá essa querida Mãe. Perpetrava-se nesse momento o
maior crime que se viu no mundo: a morte de um Deus! Nesse crime (no qual se
condensam todos os crimes dos homens de todos os tempos) eis a vingança que toma
Jesus: primeiro dá-Se-nos a Si mesmo, num supremo acto de amor e de
misericórdia; e em segundo lugar, une a essa dádiva e a esse amor misericordioso
a Sua Mãe, entregando-no-La também: Ecce Mater tua! Ei-la a Mãe do Santo
dos Santos, proclamada solenemente Mãe dos pecadores. Que troca! Mas que
misericórdia!
O mundo de hoje
revela-se todo ele um novo Calvário em que as multidões ao longe e ao largo
bradam, mais injuriosas ainda do que os judeu deicidas: tolle! tolle!
Fora! Fora! Não queremos a Cristo para nada! Morra! Desapareça para sempre!
E Cristo
Crucificado pelos pecados de todos os homens, que tem de ficar presente a todos
os séculos, nesse Seu contínuo e místico agonizar, a vingança que resolve tomar
de nós, em hora de crimes supremos, é uma nova demonstração da Sua infinita
Misericórdia: um como derradeiro esforço para nos salvar. Ecce Mater tua:
aí tendes mais uma vez, e com maiores efusões de Sua bondade maternal, o Coração
de vossa Mãe Imaculada. Fazei o que Ela disser e sereis salvos!
* * *
Mas que seja esta
a finalidade (não exclusiva mas a mais urgente) da devoção ao Coração de Maria,
aparece ainda mais claro, se recordarmos as revelações feitas aos Pastorinhos.
Já nas aparições
do Anjo se vê isto mesmo; para a conversão dos pecadores faz o celeste
Mensageiro convergir tudo o que lhe ensina e recomenda.
Na primeira
aparição, ora e ensina-lhes uma oração a implorar perdão «para os que não crêem,
não esperam, não amam a Deus».
Na segunda, não só
insiste que orem, mas manda-lhes: «de tudo o que puderdes oferecei um sacrifício
em acto de reparação pelos pecados com que Ele (Jesus) é ofendido e de
súplica pela conversão dos pecadores... sobretudo aceitai e suportai com
submissão o sofrimento que o Senhor vos enviar».
Na
terceira, é a Comunhão reparadora ministrada milagrosamente: «tomai e recebei o
Corpo e Sangue de Jesus Cristo tão horrivelmente ultrajado pelos homens
ingratos. Reparai os seus crimes e consolai o vosso Deus». E nova oração
lhes ensina de desagravo e intercessão pelos pobres pecadores: «Santíssima
Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, adoro-Vos profundamente e ofereço-Vos o
preciosíssimo Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo, presente em todos
os Sacrários da Terra, em reparação dos ultrajes, sacrilégios e indiferenças com
que Ele mesmo é ofendido. E pelos méritos infinitos do Seu Santíssimo Coração e
do Coração Imaculado de Maria, peço-Vos a
conversão dos pobres pecadores».
Com
as aparições do Anjo ficaram os Pastorinhos iniciados na sua missão; a Virgem na
Cova da Iria vem confirmar e completar o trabalho começado e desde a primeira
aparição se mostra bem explícita nos intentos com que desce à Terra:
salvar os pecadores.
Antes
de mais nada, manda-lhes que rezem o Terço com devoção e pergunta-lhes «se
querem oferecer sacrifícios a Nosso Senhor e aceitar de boa vontade os
sofrimentos que Ele lhes enviar, em reparação de tantos pecados com que a
Divina Majestade é ofendida, para obter a conversão dos pecadores e em
desagravo das blasfémias e ultrajes feitos ao Imaculado
Coração de Maria».
Em Junho insiste
nas mesmas recomendações e ensina-Lhes uma jaculatória para intercalarem nos
mistérios do Terço, toda ela encaminhada a acudir aos pobres pecadores: «ó meu
Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno; levai as alminhas todas para
o Céu, principalmente as que mais precisarem».
Repare-se bem nesta última cláusula: as que mais precisarem, que ela
põe-nos bem em foco as grandes preocupações da nossa Mãe do Céu. Comentando esta
parte da jaculatória, escrevia a própria Irmã Lúcia, a 17 de Dezembro de 1939,
que Nossa Senhora se referia às «almas que se encontram em maior perigo de
condenação eterna, pois parecia ser esta toda a amargura e preocupação do
Seu Imaculado Coração».
Desta amargura
ficam os Pastorinhos a participar intensissimamente, sobretudo desde a aparição
de Julho, ao verem o inferno. «Nosso Senhor mostrou-nos um grande mar de fogo —
relata a Irmã Lúcia — que parecia estar debaixo da Terra. Mergulhados nesse fogo
os demónios e as almas, como se fossem brasas transparentes e negras ou
bronzeadas com forma humana flutuavam no incêndio levadas pelas chamas que delas
mesmas saíam juntamente com nuvens de fumo, caindo para todos os lados,
semelhante ao cair das faúlhas nos grandes incêndios, sem peso nem equilíbrio,
entre gritos e gemidos de dor e desespero, que horrorizava e fazia estremecer de
pavor».
Para que foi esta
visão a criancinhas inocentes e a quem Nossa Senhora já tinha revelado que iriam
para o Céu?
E para obter
aquilo a que veio a Fátima. Lembra ao mundo esta tremenda verdade em pleno
século XX, porque também para este século de requintes na cultura e descuido da
eternidade, é remédio eficaz lembrar-lhe os seus novíssimos, para que se
converta e não peque. E mostrando-o aos pequeninos, leva-os a todas as
generosidades na oração e sacrifício, afim de acudirem aos pecadores. Tudo é
pouco para livrar uma alma do inferno. Mais: para conseguir o mesmo resultado,
vem Maria Santíssima oferecer aos mesmos pecadores o Seu Coração. Imaculado,
como Arca de salvação.
Oiçamos a Virgem,
logo após essa visão terrífica.
—
«Vistes o inferno — lhes diz — para onde vão as almas dos pobres pecadores;
para os salvar, Deus quer estabelecer no
mundo a devoção ao meu Imaculado Coração».
Não se pode por
mais explícita a finalidade desta devoção, pelo menos quanto ao intento
principal que Deus tem em vista: salvar os pobres pecadores. E Nossa
Senhora Continua: «Se fizerem o que Eu disser, salvar-se-ão muitas almas
e terão paz...» Mais adiante acrescenta: «Se atenderem aos meus pedidos, a
Rússia se converterá e terão paz».
Não precisávamos
de mais para demonstrar a tese deste capítulo.
Nesta aparição
ensinou Nossa Senhora aos seus privilegiados Pastorinhos outra jaculatória em
prol dos pecadores: «Sacrificai-vos pelos pecadores e dizei muitas vezes e em
especial sempre que fizerdes algum sacrifício: «— Ó Jesus, é por vosso amor,
pela conversão dos Pecadores e em reparação pelos pecados cometidos
contra o Imaculado Coração de Maria».
E ao
princípio ordenou-lhes que voltassem ali no dia 13 do mês seguinte, que
continuassem a rezar o Terço todos os dias, em honra de Nossa Senhora do
Rosário, para obter a paz do inundo e o fim da guerra,
porque só Ela lhes pode valer.
Em Agosto
repete-lhes: «rezai, rezai muito e fazei sacrifícios pelos pecadores.
Olhai, que vão muitas almas para o inferno, por não haver quem se sacrifique por
elas».
No grande dia 13
de Outubro de 1917, depois de a Lúcia perguntar, na sua linguagem simples: —
«quem é vossemecê e que quer de mim?» — A visão respondeu que era a
Senhora do Rosário e que viera para exortar os fiéis a mudarem de vida e a
não afligirem mais a Nosso Senhor com o pecado, que já estava muito ofendido
e a recitarem o santo Rosário e a fazerem penitência dos seus pecados».
«Desta aparição —
escreveu a Irmã Lúcia ao Senhor Bispo de Leiria — as palavras que mais se me
gravaram no coração foi o pedido de Nossa Santíssima Mãe do Céu: Não ofendam
mais a Nosso Senhor, que já está muito ofendido! Que amorosa queixa e que
terno pedido! Quem me dera que ele ecoasse pelo mundo fora e que todos os filhos
da Mãe do Céu ouvissem o som da Sua voz!»
Como se vê, até ao
fim, sempre a mesma insistência: a conversão dos pecadores, a conversão dos
pecadores, a conversão dos pecadores!
Para tanto corre a
Virgem em seu socorro, pois em crimes tão enormes e tão multiplicados, só Ela
lhes pode valer. E que diante de Deus e de Seu Divino Filho, Juiz supremo
dos homens, o único pára-raios da divina Justiça é o Coração Imaculado de Maria.
São imensos e
insuportáveis os nossos pecados e reclamam castigo imediato; mas eis que se põe
entre nós e a cólera divina este Prodígio de pureza, de santidade e de amor a
toda a prova: este Coração em que principalmente se passou todo o Martírio da
Virgem no Calvário, para salvar os pecadores; Coração da Mãe dos homens, da
Corredentora, da Medianeira; Íris de bonança entre o Céu e a Terra...
Deus vai para
ferir-nos, «porque já está muito ofendido, mas encontra de permeio este Coração
que também e sobretudo é o Coração de Sua Mãe e... já não pode descarregar o
golpe; suspende os castigos e dá a Sua Mãe licença de operar todos os milagres
que quiser, para ver se ainda nos vale.
E esses prodígios
aí estão bem patentes e cada vez mais numerosos e espantosos.
Por outro lado,
este Coração materno goza junto dos pecadores de uma atracção e força especiais
para os chamar a Si: e mesmo sem falar exteriormente, só com mostrar-se nas
suas imagens, transforma as almas, rende os pecadores arrependidos aos pés e à
lei de Seu Divino Filho.
Estamos na hora
das grandes misericórdias de Maria Santíssima, porque mais de propósito que
nunca, se revelou aos homens o Seu Imaculado Coração afim de salvar os
pecadores. Sim: apara os salvar, Deus quer estabelecer no mundo a devoção ao meu
Imaculado Coração» — afirmava a própria Virgem Maria à Lúcia.
Obr. cit.
II p.
tom.
II, pág.
137.
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