Coração
Doloroso de Maria
«Coitadinha
da Senhora!... Eu tenho tanta pena dela!»
Jacinta
Falámos do Coração
de nossa Mãe; ora, não conhece profundamente esse Coração, quem não conhece
as
Suas dores. Maria
sem dor não é a Mãe de Jesus nem a Mãe dos homens. E como
todas as Suas dores foram sobretudo sofrimentos íntimos, sofrimentos do Coração,
não conhece Maria, quem não conhece o Seu Coração Doloroso.
Portanto,
paralelamente ao que protestava S. Paulo, havemos nós de protestar também:
depois do conhecimento de Cristo e de Cristo Crucificado, não quero outra
Ciência que não seja o conhecimento de Maria Crucificada no íntimo do Seu
Coração.
No estudo
elementar que vimos fazendo do Coração de Maria, falhava uma feição essencial,
se puséssemos de parte as Suas dores. Assim como ficaria incompleto o objecto da
Devoção ao Coração de Jesus, se nele considerássemos apenas o Coração do
Homem-Deus, todo em chamas de caridade muito embora, mas sem a Chaga que o
dilacera, sem a Cruz que de alto a baixo o trespassa, sem os espinhos que em
apertada coroa pungentemente o cingem; assim não possuiríamos cabalmente o
objectivo da devoção ao Coração de Maria, se nele considerássemos tão-somente o
Coração virginal da Mãe de Jesus e nossa Mãe, recamado muito embora de rosas,
símbolo da Sua caridade para com Deus e para com os homens e não advertíssemos
bem na espada ou espadas que o transverberam, ou nos espinhos que se lhe cravam
ao redor, conforme as Aparições de Fátima.
«O
que nos tira toda a dúvida a respeito do imenso amor que nos tem Maria, nossa
Mãe — escreveu Campana — são as dores atrozes que Ela sofreu».
«Coitadinha de
Nossa Senhora!... Eu tenho tanta pena dela! — expressava a Jacinta, ao meditar
nos espinhos do Coração de Maria.
As dores de Maria
são consequência espontânea de ser Ele o Coração da Mãe de Jesus Crucificado e o
Coração da Mãe dos pecadores: Mãe de tais filhos leva no peito o Coração da mais
amargurada das Mães. Mostra a história, que a fé cristã, nas suas instituições
piedosas não esqueceu este elemento; antes, a meditar nas dores, é que por assim
dizer, descobriu o Coração de Nossa Senhora E o Coração trespassado pelo gládio
predito por Simeão, que as almas contemplam, quando Lhe prestam as suas
homenagens.
Logo na madrugada
da sua existência surpreendemos a Maria Santíssima com o Seu coração Imaculado,
pungido de penetrantes espinhos.
Foram espinhos a
separação de Seus pais, quando segundo piedosa tradição, na tenra idade de três
anos, vai para o Templo; e espinhos a prematura morte desses seres queridos,
embora tivesse a suavizá-los a mais perfeita conformidade com a Vontade de Deus
e os dulçores da contemplação divina.
Espinhos para o
Seu dulcíssimo e virginal Coração, logo após as delícias sublimes da Encarnação
do Verbo em Suas entranhas, compreender as angústias de S. José, enquanto não
soube do mistério que nela se estava operando.
Nasceu Jesus:
Maria vê com Seus olhos o lindo fruto da Sua virgindade. E o mais belo dos
filhos dos homens. Só Ela sabe dos segredos inarráveis de doçura que inebriaram
nesses instantes Sua alma e Seu Coração. Mas foi doçura colhida também entre
espinhos.
Veio a Belém aos
Seus, mas os Seus não A receberam. Em consequência, foi albergar-se num estábulo
e teve de passar pela dor de ver nascer o Senhor do universo, nas palhas de um
presépio de animais! Para um Coração de Mãe e de tal Mãe pungiam profundamente
tais espinhos.
E a fuga
precipitada para o Egipto com as privações do exílio? Não dá um passo a Mãe de
Jesus que não pise abrolhos. Jesus vem ao mundo como Vitima: Mãe da Vítima por
excelência, tem que ser vítima também. Por isso a Igreja com palavras do
Espírito Santo diz de Maria: sicut lilium inter spinas sic Amica mea inter
filias: entre todas as demais, a Filha predilecta do Altíssimo é lírio entre
espinhos.
* * *
Mas um momento
houve, logo aos quarenta dias de nascido Jesus, que sobre todos Lhe rasgou para
sempre o Coração e para sempre Lhe deixou a alma em sangue.
Dirigira-se com
José ao Templo levando consigo Jesus, para cumprir com a Lei da purificação e do
resgate do primogénito. E eis que inspirado pelo Espírito Santo, vai ao Templo
também o Santo Velho Simeão que ha muito suspirava pela consolação de Israel,
pois fora-lhe revelado, não morreria antes de contemplar com seus olhos o
Messias.
Ao ver o Menino,
toma-O nos braços e sobrenaturalmente iluminado exclama: «Agora leva em paz,
Senhor, o teu servo, conforme a Tua palavra, porque meus olhos viram a Tua
salvação que preparaste ante a face de todos os povos, como luz das gentes e
glória do teu povo de Israel».
Em grande
admiração estavam Maria e José, ao ouvirem estes louvores do Seu Jesus e
intenso regozijo sentiam em Sua alma, por verem como o Divino Espírito. Santo O
ia dando a conhecer aos justos da Terra.
Mas
logo se voltou Simeão para Maria e com a mesma luz do Espírito Santo continuou:
«Eis que este Menino está posto para ruína e para salvação de muitos em Israel e
para sinal de contradição; e uma espada trespassará a Tua mesma alma, para que
se revelem os pensamentos de muitos corações».
Desde esse momento
o Coração da Mãe dulcíssima ficou despedaçado para sempre pela dor, e nesta dor
foi a fuga para o Egipto. Todas as alegrias até então experimentadas se toldaram
e a Sua alma principiou a viver mergulhada em mar de amargura mortal, como a
mesma Senhora revelou a Santa Matilde. A luz daquela profecia viu quanto até à
morte havia de sofrer Seu Filho e só um perpétuo milagre Lhe tinha mão da
existência, para não sucumbir a tanta dor.
Aos
doze anos, é directamente Jesus quem em Seus desígnios sapientíssimos, Lhe fere
atrozmente o Coração, quando fica no Templo e os deixa a José e Maria, durante
três dias, na aflição de O haverem perdido. Quando ao terceiro dia depois de O
buscarem por toda a parte, deram com Ele no Templo, o Coração torturado de Maria
não pôde deixar de desabafar a Sua imensa dor: «Meu Filho, porque fizeste assim
connosco? Olha que Teu Pai e eu Te andávamos buscando com dor!»
Mas em vez de
bálsamo, deu Jesus uma resposta, que na aparência seria para agravar mais a
chaga aberta: «por que é que Me buscáveis? Não sabíeis que nas coisas de meu
Pai é preciso que Eu esteja?»
Nossa Senhora
guardou bem lá dentro no Coração estas palavras, naquele momento
incompreensíveis para Ela.
A estes espinhos
acrescente-se a dor que experimentou pela morte de Seu Esposo, S. José. Maria
foi Esposa perfeitíssima e por isso, amava a S. José com uma fineza e
intensidade de amor que esposa nenhuma saberá jamais consagrar a seu esposo.
Como não havia portanto de sofrer com a separação desse ente querido, conhecedor
dos seus mais íntimos segredos, que partia para a eternidade?
Sofreu ainda
quando Jesus, chegado o instante de iniciar a Sua vida pública, teve enfim de
deixar a casa materna. Os três anos que se seguiram, foram repassados de
angústias, sobressaltos e aflições para o Seu Coração, ao ver Seu Jesus
malsinado, odiado, perseguido, blasfemado...
* * *
Mas eis-nos
finalmente no lance culminante que fez de Maria a Rainha dos Mártires.
É no Calvário.
O Evangelho em
cinco palavras diz tudo: juxta crucem Jesu Mater ejus: estava junto da
Cruz de Jesus Sua Mãe.
Juxta crucem!
Junto
da Cruz de Cristo só se não despedaçam os corações mais duros que o granito. As
rochas do Calvário estalaram; o véu do Templo fendeu-se; as sepulturas
abriram-se; o Sol escureceu. E a dor da natureza ante a morte do Seu Criador.
Como havia Maria
Santíssima de presenciar tal espectáculo, mesmo que Aquele Crucificado não fora
Seu Filho, sem se Lhe despedaçar a alma toda, Ela o Coração mais bem formado e
sensível de todos os corações?!
O
tormento da cruz era para os contemporâneos em primeiro lugar, o mais humilhante
de todos os suplícios extrema poena. Cidadão que se prezasse, nem nos
lábios tomava a palavra cruz, como lembra Cícero: tão baixa e aviltante
ela era. Esta pena só se infligia aos criminosos mais vis e abjectos. Até a
Sagrada Escritura bradava: «maledictus a Deo qui pendet in ligno: é
amaldiçoado por Deus O que pende no madeiro».
E nesta abjecção
que Maria contempla a Jesus, ainda há pouco aclamado triunfalmente entre palmas
e hosanas. Agora ali está tratado como um verme, como a abjecção da plebe.
Depois em que
estado físico!? Quem poderá descrever o que os olhos da Virgem Mãe tiveram de
presenciar, quando com enormes cravos, varando-lhe brutalmente pés e mãos,
fixaram a Jesus no madeiro infamíssimo? Que lancinante seria contemplar aquele
rasgar da carne, aquela crispação de nervos e músculos! E agora ei-Lo ao alto,
erguido na Cruz: é o maior espectáculo de dor e ignominia que jamais
presenciaram olhos humanos!
Dir-se-ia um leproso: quasi leprosum; sem aspecto de homem: vidimus
eum et non erat aspectus; dos pés à cabeça não há nele parte sã; é
o opróbrio dos homens
e isto depois do que já tinha sofrido: o suor de sangue, no horto, a flagelação,
a coroação de espinhos...
Seria preciso
maior tragédia para comover corações humanos e os confranger de dor?
Mater ejus!
— Mas a Virgem que contempla este suplício é a Mãe do supliciado! Aqui só as
mães que tivessem a desgraça sem nome de ver condenado à morte algum filho
querido e fossem forçadas a assistir-lhe à execução, poderiam vislumbrar a
tortura da Mãe de Jesus no Calvário! O
vos omnes qui transitis per viam attendite et videte si est dolor similis sicut
dolor meus,
eis o gemido lancinante que
a Igreja põe nos lábios da Mãe Dolorosa, neste momento supremo de angústia, para
que todos os homens através dos séculos o escutem e se compadeçam: ó vós todos
os que passais no caminho da existência, atendei e vede se há dor como a minha
dor! Escutai e compadecei-vos; são os gemidos maternos do Coração de Maria todo
dilacerado por causa dos vossos pecados!»
O
Evangelho fala de mais dois crucificados juntamente com Jesus. Mas depois de
Jesus não há no Calvário ninguém mais crucificado do que o Coração de Maria.
«Não, ó Virgem, Vós não estais junto da Cruz! — exclama S. Boaventura — Vós
estais também na Cruz; estais toda nas Chagas de Cristo e Cristo está todo
Crucificado no íntimo de Vosso Coração: tota in vulneribus Chiristi, totus
Christus est in visceribus Cordis tui!»
Pobre Mãe! O que
fizeram a Seu Filho, à carne da Sua carne! Ela era a mais ditosa das mães;
dera-Lhe o Eterno Pai por Filho o Seu mesmo Filho e nascera-Lhe em Belém à
meia-noite, entre os cantares dos Anjos. Ei-lo que morre entre gritos infernais
das multidões que O odeiam, assassinado atrocissimamente numa cruz! Era a
inocência infinita e executam-No como o pior dos malfeitores, preferindo-Lhe um
celerado! Levou a vida a fazer bem e a compadecer-se de todos os que sofriam e
para Ele não há ali quem se compadeça, na tremenda calamidade que sobre Ele
desabou!
E a Virgem sente
tudo isto e não pode valer a Seu Filho! Quem é o homem que não choraria, se
visse a Mãe de Cristo em tamanho suplício? — Geme amarguradamente a Igreja, na
liturgia das Dores de Nossa Senhora.
Há porém uma
palavra no Evangelho que nos leva a penetrar mais fundo ainda na dor do Coração
Imaculado de Maria: é a palavra Jesus. Vede quem é Aquele Filho: é Jesus,
o Salvador!
Esta palavra
revela-nos um mar muito mais insondável e amargo de dor para o Coração de
Maria. Há dores mais formidáveis do que tudo o que os olhos contemplam no
Calvário. Aquelas chagas todas de Cristo não são mais que um desafogo dessas
dores misteriosas: as Suas dores da alma. Não O ouvimos no Horto: «Pai, se é
possível passe de Mim este cálix?»
Mais
do que os opróbrios externos que O saturam, há um opróbrio interno que O
aniquila: pro nobis peccatum fecit!
Cristo sente-se e é tratado como se fora o pecado universal de todos os homens e
de todos os tempos. Todos os crimes da Humanidade desde Adão até ao último homem
que há-de vir a este mundo, pesam sobre Ele e por tudo tem que pagar.
Por
isso há uma força que O condena e esmaga mais poderosamente, do que tudo quanto
de torturas físicas e morais inventaram Seus inimigos, para O atormentarem e
banirem: é a Justiça de Deus ofendida, a quem generosamente Se ofereceu. A
oblação foi aceite e enquanto não estiver tudo consumado pelo sacrifício, Seu
Pai deixa-O nesse abandono incompreensível, mas real, que leva Jesus a desabafar
na Cruz: «Meu Deus, Meu Deus, por que Me abandonaste?!»
Eis o maior
sofrimento de Cristo: esse abandono e a causa dele, isto é, ver-Se revestido de
todos os pecados, como se fora o grande pecador por excelência; e ao mesmo tempo
presenciar a insensatez dos homens que, apesar da Sua Paixão, continuarão
através dos séculos a ofender a Seu Pai, inutilizando assim o sangue precioso
que agora por todos eles derrama!
Eis aí também o
maior sofrimento do Coração de Maria Santíssima: todo este abandono, confusão e
aflições íntimas da alma e do Coração de Seu Filho Lhe são misticamente
comunicadas ao Seu Coração e à Sua alma de Mãe de Cristo e de Corredentora do
género humano. Também Ela juntamente com Jesus toma sobre Si os pecados da
Humanidade e Se oferece por eles, em expiação ao Eterno Pai. E porque depois da
do Filho de Deus não há oblação mais aceite nem de maior suavidade, por isso, A
não poupa a abandonos e torturas íntimas a Justiça Divina, unindo-A, como
nenhuma outra vítima, às profundas imolações e holocaustos do Coração Santíssimo
de Jesus.
Concluamos. A
célebre imagem da Virgem Dolorosa de Espoleto, contemplada em solene procissão
por um piedoso jovem de nome Francisco, incendiou-o em tão divinas chamas de
amor, que resolveu fazer-se religioso dos Clérigos da Paixão de Jesus Cristo e
tomando o nome de Gabriel de Nossa Senhora das Dores, tais progressos fez na
santidade, que aos vinte e quatro anos subia ao Céu consumado em perfeição. Hoje
está nos altares como uma das mais lídimas glórias dos Padres Passionistas.
A assídua
contemplação do Coração Doloroso de Maria é escola fecunda de santidade.
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