PRO CAUSA DE BEATIFICAÇÃO - PRO CAUSE DE BÉATIFICATION

Coração Doloroso de Maria

«Coitadinha da Senhora!... Eu tenho tanta pena dela!»
Jacinta

Falámos do Coração de nossa Mãe; ora, não conhece profundamente esse Coração, quem não conhece as Suas dores. Maria sem dor não é a Mãe de Jesus nem a Mãe dos homens. E como todas as Suas dores foram sobretudo sofrimentos íntimos, sofrimentos do Coração, não conhece Maria, quem não conhece o Seu Coração Doloroso.

Portanto, paralelamente ao que protestava S. Paulo, havemos nós de protestar também: depois do conhecimento de Cristo e de Cristo Crucificado, não quero outra Ciência que não seja o conhecimento de Maria Crucificada no íntimo do Seu Coração.

No estudo elementar que vimos fazendo do Coração de Maria, falhava uma feição essencial, se puséssemos de parte as Suas dores. Assim como ficaria incompleto o objecto da Devoção ao Coração de Jesus, se nele considerássemos apenas o Coração do Homem-Deus, todo em cha­mas de caridade muito embora, mas sem a Chaga que o dilacera, sem a Cruz que de alto a baixo o trespassa, sem os espinhos que em apertada coroa pungentemente o cin­gem; assim não possuiríamos cabalmente o objectivo da devoção ao Coração de Maria, se nele considerássemos tão-somente o Coração virginal da Mãe de Jesus e nossa Mãe, recamado muito embora de rosas, símbolo da Sua caridade para com Deus e para com os homens e não advertíssemos bem na espada ou espadas que o transverberam, ou nos espinhos que se lhe cravam ao redor, conforme as Apari­ções de Fátima.

«O que nos tira toda a dúvida a respeito do imenso amor que nos tem Maria, nossa Mãe — escreveu Campana — são as dores atrozes que Ela sofreu».[1]

«Coitadinha de Nossa Senhora!... Eu tenho tanta pena dela! — expressava a Jacinta, ao meditar nos espinhos do Coração de Maria.

As dores de Maria são consequência espontânea de ser Ele o Coração da Mãe de Jesus Crucificado e o Coração da Mãe dos pecadores: Mãe de tais filhos leva no peito o Coração da mais amargurada das Mães. Mostra a história, que a fé cristã, nas suas instituições piedosas não esqueceu este elemento; antes, a meditar nas dores, é que por assim dizer, descobriu o Coração de Nossa Senhora E o Coração trespassado pelo gládio predito por Simeão, que as almas contemplam, quando Lhe prestam as suas homenagens.

Logo na madrugada da sua existência surpreendemos a Maria Santíssima com o Seu coração Imaculado, pungido de penetrantes espinhos.

Foram espinhos a separação de Seus pais, quando segundo piedosa tradição, na tenra idade de três anos, vai para o Templo; e espinhos a prematura morte desses seres queridos, embora tivesse a suavizá-los a mais per­feita conformidade com a Vontade de Deus e os dulçores da contemplação divina.

Espinhos para o Seu dulcíssimo e virginal Coração, logo após as delícias sublimes da Encarnação do Verbo em Suas entranhas, compreender as angústias de S. José, enquanto não soube do mistério que nela se estava operando.

Nasceu Jesus: Maria vê com Seus olhos o lindo fruto da Sua virgindade. E o mais belo dos filhos dos homens. Só Ela sabe dos segredos inarráveis de doçura que inebriaram nesses instantes Sua alma e Seu Coração. Mas foi doçura colhida também entre espinhos.

Veio a Belém aos Seus, mas os Seus não A receberam. Em consequência, foi albergar-se num estábulo e teve de passar pela dor de ver nascer o Senhor do uni­verso, nas palhas de um presépio de animais! Para um Coração de Mãe e de tal Mãe pungiam profundamente tais espinhos.

E a fuga precipitada para o Egipto com as privações do exílio? Não dá um passo a Mãe de Jesus que não pise abrolhos. Jesus vem ao mundo como Vitima: Mãe da Vítima por excelência, tem que ser vítima também. Por isso a Igreja com palavras do Espírito Santo diz de Maria: sicut lilium inter spinas sic Amica mea inter filias: entre todas as demais, a Filha predilecta do Altíssimo é lírio entre espinhos.

 

* * *

 

Mas um momento houve, logo aos quarenta dias de nascido Jesus, que sobre todos Lhe rasgou para sempre o Coração e para sempre Lhe deixou a alma em sangue.

Dirigira-se com José ao Templo levando consigo Jesus, para cumprir com a Lei da purificação e do resgate do primogénito. E eis que inspirado pelo Espírito Santo, vai ao Templo também o Santo Velho Simeão que ha muito suspirava pela consolação de Israel, pois fora-lhe revelado, não morreria antes de contemplar com seus olhos o Messias.

Ao ver o Menino, toma-O nos braços e sobrenaturalmente iluminado exclama: «Agora leva em paz, Senhor, o teu servo, conforme a Tua palavra, porque meus olhos viram a Tua salvação que preparaste ante a face de todos os povos, como luz das gentes e glória do teu povo de Israel».

Em grande admiração estavam Maria e José, ao ouvi­rem estes louvores do Seu Jesus e intenso regozijo sentiam em Sua alma, por verem como o Divino Espírito. Santo O ia dando a conhecer aos justos da Terra.

Mas logo se voltou Simeão para Maria e com a mesma luz do Espírito Santo continuou: «Eis que este Menino está posto para ruína e para salvação de muitos em Israel e para sinal de contradição; e uma espada trespas­sará a Tua mesma alma, para que se revelem os pensa­mentos de muitos corações».[2]

Desde esse momento o Coração da Mãe dulcíssima ficou despedaçado para sempre pela dor, e nesta dor foi a fuga para o Egipto. Todas as alegrias até então experimentadas se toldaram e a Sua alma principiou a viver mergulhada em mar de amargura mortal, como a mesma Senhora revelou a Santa Matilde. A luz daquela profecia viu quanto até à morte havia de sofrer Seu Filho e só um perpétuo milagre Lhe tinha mão da existência, para não sucumbir a tanta dor.

Aos doze anos, é directamente Jesus quem em Seus desígnios sapientíssimos, Lhe fere atrozmente o Coração, quando fica no Templo e os deixa a José e Maria, durante três dias, na aflição de O haverem perdido. Quando ao terceiro dia depois de O buscarem por toda a parte, deram com Ele no Templo, o Coração torturado de Maria não pôde deixar de desabafar a Sua imensa dor: «Meu Filho, porque fizeste assim connosco? Olha que Teu Pai e eu Te andávamos buscando com dor!»[3]

Mas em vez de bálsamo, deu Jesus uma resposta, que na aparência seria para agravar mais a chaga aberta: «por que é que Me buscáveis? Não sabíeis que nas coi­sas de meu Pai é preciso que Eu esteja?»

Nossa Senhora guardou bem lá dentro no Coração es­tas palavras, naquele momento incompreensíveis para Ela.

A estes espinhos acrescente-se a dor que experimentou pela morte de Seu Esposo, S. José. Maria foi Esposa perfeitíssima e por isso, amava a S. José com uma fineza e intensidade de amor que esposa nenhuma saberá jamais consagrar a seu esposo. Como não havia portanto de sofrer com a separação desse ente querido, conhecedor dos seus mais íntimos segredos, que partia para a eternidade?

Sofreu ainda quando Jesus, chegado o instante de iniciar a Sua vida pública, teve enfim de deixar a casa materna. Os três anos que se seguiram, foram repassa­dos de angústias, sobressaltos e aflições para o Seu Cora­ção, ao ver Seu Jesus malsinado, odiado, perseguido, blas­femado...

 

* * *

 

Mas eis-nos finalmente no lance culminante que fez de Maria a Rainha dos Mártires.

É no Calvário.

O Evangelho em cinco palavras diz tudo: juxta crucem Jesu Mater ejus: estava junto da Cruz de Jesus Sua Mãe.

Juxta crucem! Junto da Cruz de Cristo só se não despedaçam os corações mais duros que o granito. As rochas do Calvário estalaram; o véu do Templo fendeu-se; as sepulturas abriram-se; o Sol escureceu. E a dor da natureza ante a morte do Seu Criador.

Como havia Maria Santíssima de presenciar tal espectáculo, mesmo que Aquele Crucificado não fora Seu Filho, sem se Lhe despedaçar a alma toda, Ela o Coração mais bem formado e sensível de todos os corações?!

O tormento da cruz era para os contemporâneos em primeiro lugar, o mais humilhante de todos os suplícios extrema poena. Cidadão que se prezasse, nem nos lábios tomava a palavra cruz, como lembra Cícero: tão baixa e aviltante ela era. Esta pena só se infligia aos criminosos mais vis e abjectos. Até a Sagrada Escritura bradava: «maledictus a Deo qui pendet in ligno: é amaldiçoado por Deus O que pende no madeiro».[4]

E nesta abjecção que Maria contempla a Jesus, ainda há pouco aclamado triunfalmente entre palmas e hosanas. Agora ali está tratado como um verme, como a abjecção da plebe.

Depois em que estado físico!? Quem poderá descre­ver o que os olhos da Virgem Mãe tiveram de presenciar, quando com enormes cravos, varando-lhe brutalmente pés e mãos, fixaram a Jesus no madeiro infamíssimo? Que lancinante seria contemplar aquele rasgar da carne, aquela crispação de nervos e músculos! E agora ei-Lo ao alto, erguido na Cruz: é o maior espectáculo de dor e ignominia que jamais presenciaram olhos humanos!

Dir-se-ia um leproso: quasi leprosum; sem aspecto de homem: vidimus eum et non erat aspectus; dos pés à cabeça não há nele parte sã; é o opróbrio dos homens [5] e isto depois do que já tinha sofrido: o suor de sangue, no horto, a flagelação, a coroação de espinhos...

Seria preciso maior tragédia para comover corações humanos e os confranger de dor?

Mater ejus! — Mas a Virgem que contempla este su­plício é a Mãe do supliciado! Aqui só as mães que tives­sem a desgraça sem nome de ver condenado à morte algum filho querido e fossem forçadas a assistir-lhe à execução, poderiam vislumbrar a tortura da Mãe de Jesus no Calvário! O vos omnes qui transitis per viam attendite et videte si est dolor similis sicut dolor meus, [6] eis o gemido lan­cinante que a Igreja põe nos lábios da Mãe Dolorosa, neste momento supremo de angústia, para que todos os homens através dos séculos o escutem e se compadeçam: ó vós todos os que passais no caminho da existência, atendei e vede se há dor como a minha dor! Escutai e compadecei-vos; são os gemidos maternos do Coração de Maria todo dilacerado por causa dos vossos pecados!»

O Evangelho fala de mais dois crucificados junta­mente com Jesus. Mas depois de Jesus não há no Calvário ninguém mais crucificado do que o Coração de Maria. «Não, ó Virgem, Vós não estais junto da Cruz! — exclama S. Boaventura — Vós estais também na Cruz; estais toda nas Chagas de Cristo e Cristo está todo Crucificado no íntimo de Vosso Coração: tota in vulneribus Chiristi, totus Christus est in visceribus Cordis tui!»[7]

Pobre Mãe! O que fizeram a Seu Filho, à carne da Sua carne! Ela era a mais ditosa das mães; dera-Lhe o Eterno Pai por Filho o Seu mesmo Filho e nascera-Lhe em Belém à meia-noite, entre os cantares dos Anjos. Ei-lo que morre entre gritos infernais das multidões que O odeiam, assassinado atrocissimamente numa cruz! Era a inocência infinita e executam-No como o pior dos malfei­tores, preferindo-Lhe um celerado! Levou a vida a fazer bem e a compadecer-se de todos os que sofriam e para Ele não há ali quem se compadeça, na tremenda calamidade que sobre Ele desabou!

E a Virgem sente tudo isto e não pode valer a Seu Filho! Quem é o homem que não choraria, se visse a Mãe de Cristo em tamanho suplício? — Geme amarguradamente a Igreja, na liturgia das Dores de Nossa Senhora.

Há porém uma palavra no Evangelho que nos leva a penetrar mais fundo ainda na dor do Coração Imaculado de Maria: é a palavra Jesus. Vede quem é Aquele Filho: é Jesus, o Salvador!

Esta palavra revela-nos um mar muito mais inson­dável e amargo de dor para o Coração de Maria. Há dores mais formidáveis do que tudo o que os olhos contemplam no Calvário. Aquelas chagas todas de Cristo não são mais que um desafogo dessas dores misteriosas: as Suas dores da alma. Não O ouvimos no Horto: «Pai, se é possível passe de Mim este cálix?»

Mais do que os opróbrios externos que O saturam, há um opróbrio interno que O aniquila: pro nobis peccatum fecit! [8] Cristo sente-se e é tratado como se fora o pecado universal de todos os homens e de todos os tempos. Todos os crimes da Humanidade desde Adão até ao último homem que há-de vir a este mundo, pesam sobre Ele e por tudo tem que pagar.

Por isso há uma força que O condena e esmaga mais poderosamente, do que tudo quanto de torturas físicas e morais inventaram Seus inimigos, para O atormentarem e banirem: é a Justiça de Deus ofendida, a quem generosa­mente Se ofereceu. A oblação foi aceite e enquanto não estiver tudo consumado pelo sacrifício, Seu Pai deixa-O nesse abandono incompreensível, mas real, que leva Jesus a desabafar na Cruz: «Meu Deus, Meu Deus, por que Me abandonaste?!»[9]

Eis o maior sofrimento de Cristo: esse abandono e a causa dele, isto é, ver-Se revestido de todos os pecados, como se fora o grande pecador por excelência; e ao mesmo tempo presenciar a insensatez dos homens que, apesar da Sua Paixão, continuarão através dos séculos a ofender a Seu Pai, inutilizando assim o sangue precioso que agora por todos eles derrama!

Eis aí também o maior sofrimento do Coração de Maria Santíssima: todo este abandono, confusão e afli­ções íntimas da alma e do Coração de Seu Filho Lhe são misticamente comunicadas ao Seu Coração e à Sua alma de Mãe de Cristo e de Corredentora do género humano. Também Ela juntamente com Jesus toma sobre Si os pecados da Humanidade e Se oferece por eles, em expiação ao Eterno Pai. E porque depois da do Filho de Deus não há oblação mais aceite nem de maior suavidade, por isso, A não poupa a abandonos e torturas íntimas a Jus­tiça Divina, unindo-A, como nenhuma outra vítima, às profundas imolações e holocaustos do Coração Santíssimo de Jesus.

Concluamos. A célebre imagem da Virgem Dolorosa de Espoleto, contemplada em solene procissão por um piedoso jovem de nome Francisco, incendiou-o em tão divinas chamas de amor, que resolveu fazer-se religioso dos Clérigos da Paixão de Jesus Cristo e tomando o nome de Gabriel de Nossa Senhora das Dores, tais progressos fez na santidade, que aos vinte e quatro anos subia ao Céu consumado em perfeição. Hoje está nos altares como uma das mais lídimas glórias dos Padres Passionistas.

A assídua contemplação do Coração Doloroso de Maria é escola fecunda de santidade.


[1] Obr. cit., vol. I, pág. 365.

[2] Lc. II, 25-36.

[3] Ib. ib. 42 e ss.

[4] Deut XXI, 22-23.

[5] Is. LIII, 2 ss.

[6] Thren, 1, 12.

[7] Stim. amor. P. I, c. IV.

[8] II Cor. V, 21.

[9] Marc. XV, 34.