Coração de
Nossa Mãe
«Gosto tanto
do Coração Imaculado de Maria!
É o Coração de Nossa Mãezinha do Céu!»
Jacinta
O Coração de Maria
é o Coração da Mãe de Jesus: eis o Seu maior privilégio; a Sua definição mais
compreensiva; o Seu mais luminoso ponto de vista.
Maravilha sublime
do Espírito Santo, para que o Verbo Divino, desde a Encarnação ao Calvário,
tivesse junto de Si na Terra, como num sacramento, a realização sensível do
inefável amor com que o Pai ab aeterno Lhe diz: Filius meus es Tu:
«Tu és meu Filho!»
Saltério incomparável a coroar toda a obra da criação, que desferido com mestria
divina, vibra as mais expressivas e dulcíssonas harmonias, ao descantar o Pai a
Seu Filho aquele eterno cantar de amor: «Este é o meu Filho predilecto em que
tenho todas as minhas complacências».
O Pai quis em
linguagem e provas sensíveis dizer a Seu Filho feito homem, quanto O amava e
para isso, deu-Lhe Mãe com um Coração feito ao Seu jeito divino de amar: deu-lhe
o Coração de Maria.
Mas
flui imediatamente esta consequência: Coração da Mãe de Jesus?... Logo,
necessariamente também Coração de Nossa
Mãe.
A
maternidade humana de Maria é consequência da Sua maternidade divina. A
terra onde foi lançada a semente, que depois foi vide, que bracejou, folhou,
floriu, frutificou, é a terra-mãe dessa vide, desses ramos, dessas flores,
desses frutos. Jesus é a Vide nascida da terra-virgem de Maria:
Ego sum vitis ;
e nós para darmos os frutos dessa vide havemos de ser-lhe os ramos
indissoluvelmente unidos, para dela recebermos a seiva:
vos palmites.
Maria, Mãe da
Vide, é também Mãe dos ramos de toda a gigantesca vinha que se dilata de Oriente
a Ocidente, do Norte ao Sul e abrange todos os tempos messiânicos, até à
consumação dos séculos, cujos frutos já vão dando vinho novo no Céu.
Maria
é Mãe de Cristo integral: Cristo integral é Jesus com todo o Seu corpo místico.
Maria é a Mãe de toda a grande família cristã. Belamente por isso Santo Alberto
Magno Lhe chamou nosso coração: Maria
est Cor nostrum .
O coração da família é a mãe: Maria é a Mãe da família de Cristo, da Igreja
católica, a quem a mesma Igreja saúda com o suavíssimo nome de «Mãe de
Misericórdia, Vida, Doçura e Esperança nossa».
Como
afirma Santo António, Maria ao conceber Jesus, «não concebeu um só, mas uma
multidão de filhos, isto é, todos os resgatados pelo Senhor. Concebeu-os todos
ao mesmo tempo, porque por um só acto e no mesmo instante deu o que é para todos
a causa da vida. Mas pelo que se refere á aplicação às almas dos frutos
da Paixão, não os gerou ao mesmo tempo; porque esta aplicação que é quem produz
na realidade a vida em cada alma, só se realiza no decorrer do tempo.
E S. Luís Grignion
de Montfort diz em linguagem popular, que uma mãe não dá à luz só a cabeça de
seu filho nem os membros sem cabeça: seria uma monstruosidade da natureza. Assim
na ordem da graça, cabeça e membros nascem da mesma Mãe.
Eva unida a Adão
no Paraíso no seu Pecado gerou-nos para a morte: é a mãe dos mortos. Maria unida
a Jesus na Sua maternidade virginal, gerou-nos para a vida: é a Mãe dos vivos.
Assim A aclamam em todos os tempos os Padres e Doutores da Igreja, dando em
resumo como provas da maternidade humana de Maria, primeiro: o parentesco que
temos em Cristo. Ele dignou-se fazer-se nosso Irmão quanto à natureza e quanto à
graça, adoptando-nos como irmãos. Logo Sua Mãe é nossa Mãe também. Segundo: a
cooperação dada por Maria na Redenção, gerando-nos espiritualmente. Terceiro: o
amor solícito com que nos defende contra as ciladas do demónio e procura formar
em nós outro Cristo. Quarto, finalmente: a doação que de Sua Mãe nos faz o
próprio Cristo na Cruz, quando disse ao representante, S. João: eis ai a tua
Mãe!
Assim o afirmou
Leão XIlI, quando na encíclica Octobri Mense, escreve, que foi no
Calvário que Cristo proclamou Maria, nossa Mãe.
O Eterno Pai, ao
restaurar tudo em Cristo, restaurou-nos com vantagem imensa a mãe que perdemos
em Eva, dando-nos Maria como Mãe. Assim, ao associar Maria á sua
Paternidade natural a respeito de Jesus, para ambos à uma no mais sublime
e divino dos acordes Lhe chamarem Filho, quis também associá-La à Sua
paternidade espiritual a respeito dos homens; porque Deus é nosso Pai e nós
seus filhos: «Vede que amor nos dedica o Pai — diz S. João — para nos podermos
chamar filhos de Deus e realmente o sermos!
E por isso, lá no
Céu Pai e Mãe, com toda a verdade nos dizem a cada um dos regenerados em Cristo:
Filius meus es tu: tu és meu filho!
Se o amor do Pai
celeste foi tão longe, que nos deu o Seu próprio Filho, não podia deixar de com
Ele nos dar Maria e em Maria o que Ela possui de melhor, o Seu Coração
maternal.
Que
admira pois, que Jesus à hora da morte, nos entregue oficialmente Aquela a quem
o Pai O confiara a Ele, quando O enviou ao mundo a fazer-se homem: ecce Matar
tua: eis aí a tua Mãe? Ensinara-nos em vida mortal a chamar a Seu Pai, nosso
Pai: Pater noster; não quis morrer nem partir para o Céu, sem nos ensinar
a chamar a Maria, nossa Mãe: ecce Mater
tua.
E com
que segurança no-la deixa! Sabia a quem nos confiava; tantas vezes Lhe tinha
experimentado os carinhos de Mãe! Não podia ter melhor aprendizagem Maria, para
exercer o mister de nossa Mãe, do que haver exercido esse dever de Mãe de Jesus,
durante trinta e três anos. O Divino Espírito Santo formara o Coração de Maria,
de modo que para o Verbo Encarnado e para os homens fosse como que o
prolongamento do amor do Pai a Seus Filhos: a Jesus e aos homens. Agora, depois
de tão longo tirocínio, o Seu Coração de Mãe a quem Jesus nos confia no
Calvário, fica a ser o precioso cofre do amor do Pai e do Filho para connosco:
ecce Mater tua!
A S. Pedro
examinou três vezes Jesus se O amava, para lhe confiar o seu rebanho; porque
Jesus não entrega as almas senão a quem for capaz de amar muito: diligis Me
plus his: amas-Me mais do que estes?
A
Maria não precisa de A interrogar; já Lhe tinha saboreado tantas vezes as mais
suaves e heróicas provas do Seu amor sem par. Por isso, sem prelúdios nos
entrega, para que seja, não simplesmente nossa pastora — também o é — mas muito
mais do que isso: nossa mãe: ecce Mater
tua, ecce filius tuus!
Aquele mesmo
Divino Espírito Santo que nos leva a chamar a Deus, Pai e nos dá como que
a sentir que somos filhos de Deus, é também quem nos Comunica o instinto
parecido, no dizer de Leão XIII e de Santo Ambrósio, com que até os mais
pequeninos na família cristã se prendem de Maria e sabem que Ela é sua Mãe.
«Gosto tanto do Coração Imaculado de Maria! — dizia saborosamente a Jacinta — E
o Coração de nossa Mãezinha do Céu!
E
Santa Teresa do Menino Jesus abria assim o seu coração com Nossa Senhora: —
«Quereis saber, minha Mamãzinha querida? Eu acho-Me mais feliz do que Vós. Eu
tenho-Vos por Mãe e Vós não tendes como eu uma Santíssima Virgem para amar!»
Esta verdade de
que em Maria Santíssima há um Coração que é o Coração da Mãe de Jesus e de nossa
Mãe, faz-nos apreciar mais ao vivo a nossa solidariedade e fraternidade com
Jesus: é nosso Irmão total que não só a meias. O mesmo a que chama Pai, é nosso
Pai; a mesma a quem chama Mãe, é nossa Mãe!
E que fecunda nos
brilha a esta luz a virgindade de Maria! Ninguém mais do que Ela é Virgem;
ninguém mais do que Ela é Mãe.
Não ficaria
satisfeita a nossa exigência de amor materno, se no amor de Maria não
lobrigássemos mais do que um efeito apenas do instinto maternal que Deus
conferiu a toda a donzela bem formada, mesmo àquelas que, ávidas de ideal,
dedicam a Jesus para sempre a flor da sua pureza integral.
Não: no Coração de
Maria o Seu amor de Mãe para connosco é obra de arte sem igual: da arte do amor
de Deus aos homens, obra-prima e primorosíssima do Espírito Santo... Foi mister
intervenção divina especialíssima, para criar em coração humano o amor com que
Maria Santíssima nos ama a nós Seus filhos.
Mas digamos tudo:
não há no Coração de Maria dois amores: um para Jesus Outro para nós. Com o amor
com que ama a Jesus, com esse mesmo nos ama a nós.
De pouco nos
valeria o amor de Maria, se ele não fosse o mesmo com que ama a Seu Filho.
«Daqui vem —
observa Pio XI; na encíclica Lux Veritatis — que por uma força
irresistível, corremos para. Maria a consagrar-lhe os nossos gozos, se estamos
alegres; as nossas tristezas, se estamos angustiados; as nossas esperanças se
andamos à busca de melhores bens; daqui o refugiarmo-nos nela a implorar o Seu
auxílio celeste nas dificuldades da Igreja, quando a fé esmorece, quando se
esfria a caridade, quando se corrompem os bons costumes particulares e públicos,
quando corre algum perigo o nome católico e a sociedade civil; daqui vem enfim,
que nos últimos momentos da vida, quando já não há nenhuma esperança nem
auxílio, para Ela levantemos os olhos em lágrimas e as mãos trémulas a pedir-Lhe
nos alcance de Seu Filho o perdão dos nossos pecados e a eterna
bem-aventurança».
«Oh! quel souvenir Il m’a Iaissé de Lui en me donnant les âmes! — dizia
Nossa Senhora a Sor Josefa a 25-3-21, sexta-feira santa.
Vide: Un appel à
I’amour, pág. 151 — Toulouse, 1944.
|