PRO CAUSA DE BEATIFICAÇÃO - PRO CAUSE DE BÉATIFICATION

Coração de Nossa Mãe

«Gosto tanto do Coração Imaculado de Maria!
É o Coração de Nossa Mãezinha do Céu!»

Jacinta

O Coração de Maria é o Coração da Mãe de Jesus: eis o Seu maior privilégio; a Sua definição mais com­preensiva; o Seu mais luminoso ponto de vista.

Maravilha sublime do Espírito Santo, para que o Verbo Divino, desde a Encarnação ao Calvário, tivesse junto de Si na Terra, como num sacramento, a realização sensível do inefável amor com que o Pai ab aeterno Lhe diz: Filius meus es Tu: «Tu és meu Filho!»

Saltério incomparável a coroar toda a obra da criação, que desferido com mestria divina, vibra as mais expressi­vas e dulcíssonas harmonias, ao descantar o Pai a Seu Filho aquele eterno cantar de amor: «Este é o meu Filho predilecto em que tenho todas as minhas complacências».[1]

O Pai quis em linguagem e provas sensíveis dizer a Seu Filho feito homem, quanto O amava e para isso, deu-Lhe Mãe com um Coração feito ao Seu jeito divino de amar: deu-lhe o Coração de Maria.

Mas flui imediatamente esta consequência: Coração da Mãe de Jesus?... Logo, necessariamente também Coração de Nossa Mãe.

A maternidade humana de Maria é consequência da Sua maternidade divina. A terra onde foi lançada a semente, que depois foi vide, que bracejou, folhou, floriu, frutificou, é a terra-mãe dessa vide, desses ramos, dessas flores, desses frutos. Jesus é a Vide nascida da terra-virgem de Maria: Ego sum vitis [2]; e nós para darmos os frutos dessa vide havemos de ser-lhe os ramos indissoluvelmente unidos, para dela recebermos a seiva: vos palmites.

Maria, Mãe da Vide, é também Mãe dos ramos de toda a gigantesca vinha que se dilata de Oriente a Oci­dente, do Norte ao Sul e abrange todos os tempos messiânicos, até à consumação dos séculos, cujos frutos já vão dando vinho novo no Céu.

Maria é Mãe de Cristo integral: Cristo integral é Jesus com todo o Seu corpo místico. Maria é a Mãe de toda a grande família cristã. Belamente por isso Santo Alberto Magno Lhe chamou nosso coração: Maria est Cor nostrum [3]. O coração da família é a mãe: Maria é a Mãe da família de Cristo, da Igreja católica, a quem a mesma Igreja saúda com o suavíssimo nome de «Mãe de Miseri­córdia, Vida, Doçura e Esperança nossa».

Como afirma Santo António, Maria ao conceber Jesus, «não concebeu um só, mas uma multidão de filhos, isto é, todos os resgatados pelo Senhor. Concebeu-os todos ao mesmo tempo, porque por um só acto e no mesmo instante deu o que é para todos a causa da vida. Mas pelo que se refere á aplicação às almas dos frutos da Paixão, não os gerou ao mesmo tempo; porque esta aplicação que é quem produz na realidade a vida em cada alma, só se rea­liza no decorrer do tempo.[4]

E S. Luís Grignion de Montfort diz em linguagem popular, que uma mãe não dá à luz só a cabeça de seu filho nem os membros sem cabeça: seria uma monstruosidade da natureza. Assim na ordem da graça, cabeça e membros nascem da mesma Mãe.

Eva unida a Adão no Paraíso no seu Pecado gerou-nos para a morte: é a mãe dos mortos. Maria unida a Jesus na Sua maternidade virginal, gerou-nos para a vida: é a Mãe dos vivos. Assim A aclamam em todos os tempos os Padres e Doutores da Igreja, dando em resumo como provas da maternidade humana de Maria, primeiro: o parentesco que temos em Cristo. Ele dignou-se fazer-se nosso Irmão quanto à natureza e quanto à graça, adoptando-nos como irmãos. Logo Sua Mãe é nossa Mãe também. Se­gundo: a cooperação dada por Maria na Redenção, geran­do-nos espiritualmente. Terceiro: o amor solícito com que nos defende contra as ciladas do demónio e procura formar em nós outro Cristo. Quarto, finalmente: a doação que de Sua Mãe nos faz o próprio Cristo na Cruz, quando disse ao representante, S. João: eis ai a tua Mãe!

Assim o afirmou Leão XIlI, quando na encíclica Octobri Mense, escreve, que foi no Calvário que Cristo proclamou Maria, nossa Mãe.

O Eterno Pai, ao restaurar tudo em Cristo, restaurou-nos com vantagem imensa a mãe que perdemos em Eva, dando-nos Maria como Mãe. Assim, ao associar Maria á sua Paternidade natural a respeito de Jesus, para ambos à uma no mais sublime e divino dos acordes Lhe chama­rem Filho, quis também associá-La à Sua paternidade es­piritual a respeito dos homens; porque Deus é nosso Pai e nós seus filhos: «Vede que amor nos dedica o Pai — diz S. João — para nos podermos chamar filhos de Deus e real­mente o sermos! [5]

E por isso, lá no Céu Pai e Mãe, com toda a verdade nos dizem a cada um dos regenerados em Cristo: Filius meus es tu: tu és meu filho!

Se o amor do Pai celeste foi tão longe, que nos deu o Seu próprio Filho, não podia deixar de com Ele nos dar Maria e em Maria o que Ela possui de melhor, o Seu Cora­ção maternal.

Que admira pois, que Jesus à hora da morte, nos entregue oficialmente Aquela a quem o Pai O confiara a Ele, quando O enviou ao mundo a fazer-se homem: ecce Matar tua: eis aí a tua Mãe? Ensinara-nos em vida mortal a chamar a Seu Pai, nosso Pai: Pater noster; não quis morrer nem partir para o Céu, sem nos ensinar a chamar a Maria, nossa Mãe: ecce Mater tua.

E com que segurança no-la deixa! Sabia a quem nos confiava; tantas vezes Lhe tinha experimentado os cari­nhos de Mãe! Não podia ter melhor aprendizagem Maria, para exercer o mister de nossa Mãe, do que haver exercido esse dever de Mãe de Jesus, durante trinta e três anos. O Divino Espírito Santo formara o Coração de Maria, de modo que para o Verbo Encarnado e para os homens fosse como que o prolongamento do amor do Pai a Seus Filhos: a Jesus e aos homens. Agora, depois de tão longo tirocínio, o Seu Coração de Mãe a quem Jesus nos confia no Calvário, fica a ser o precioso cofre do amor do Pai e do Filho para connosco: ecce Mater tua!

A S. Pedro examinou três vezes Jesus se O amava, para lhe confiar o seu rebanho; porque Jesus não entrega as almas senão a quem for capaz de amar muito: diligis Me plus his: amas-Me mais do que estes? [6]

A Maria não precisa de A interrogar; já Lhe tinha saboreado tantas vezes as mais suaves e heróicas provas do Seu amor sem par. Por isso, sem prelúdios nos entrega, para que seja, não simplesmente nossa pastora — também o é — mas muito mais do que isso: nossa mãe: ecce Mater tua, ecce filius tuus![7]

Aquele mesmo Divino Espírito Santo que nos leva a chamar a Deus, Pai e nos dá como que a sentir que somos filhos de Deus, é também quem nos Comunica o instinto parecido, no dizer de Leão XIII e de Santo Ambrósio, com que até os mais pequeninos na família cristã se prendem de Maria e sabem que Ela é sua Mãe. «Gosto tanto do Coração Imaculado de Maria! — dizia saborosamente a Ja­cinta — E o Coração de nossa Mãezinha do Céu!

E Santa Teresa do Menino Jesus abria assim o seu coração com Nossa Senhora: — «Quereis saber, minha Mamãzinha querida? Eu acho-Me mais feliz do que Vós. Eu tenho-Vos por Mãe e Vós não tendes como eu uma Santíssima Virgem para amar!»[8]

Esta verdade de que em Maria Santíssima há um Coração que é o Coração da Mãe de Jesus e de nossa Mãe, faz-nos apreciar mais ao vivo a nossa solidariedade e fraternidade com Jesus: é nosso Irmão total que não só a meias. O mesmo a que chama Pai, é nosso Pai; a mesma a quem chama Mãe, é nossa Mãe!

E que fecunda nos brilha a esta luz a virgindade de Maria! Ninguém mais do que Ela é Virgem; ninguém mais do que Ela é Mãe.

Não ficaria satisfeita a nossa exigência de amor materno, se no amor de Maria não lobrigássemos mais do que um efeito apenas do instinto maternal que Deus conferiu a toda a donzela bem formada, mesmo àquelas que, ávidas de ideal, dedicam a Jesus para sempre a flor da sua pureza integral.

Não: no Coração de Maria o Seu amor de Mãe para connosco é obra de arte sem igual: da arte do amor de Deus aos homens, obra-prima e primorosíssima do Espírito Santo... Foi mister intervenção divina especialíssima, para criar em coração humano o amor com que Maria San­tíssima nos ama a nós Seus filhos.

Mas digamos tudo: não há no Coração de Maria dois amores: um para Jesus Outro para nós. Com o amor com que ama a Jesus, com esse mesmo nos ama a nós.

De pouco nos valeria o amor de Maria, se ele não fosse o mesmo com que ama a Seu Filho.

«Daqui vem — observa Pio XI; na encíclica Lux Veritatis — que por uma força irresistível, corremos para. Maria a consagrar-lhe os nossos gozos, se estamos alegres; as nossas tristezas, se estamos angustiados; as nossas espe­ranças se andamos à busca de melhores bens; daqui o refugiarmo-nos nela a implorar o Seu auxílio celeste nas dificuldades da Igreja, quando a fé esmorece, quando se esfria a caridade, quando se corrompem os bons costumes particulares e públicos, quando corre algum perigo o nome católico e a sociedade civil; daqui vem enfim, que nos últimos momentos da vida, quando já não há nenhuma esperança nem auxílio, para Ela levantemos os olhos em lágrimas e as mãos trémulas a pedir-Lhe nos alcance de Seu Filho o perdão dos nossos pecados e a eterna bem­-aventurança».


[1] Mt. III, 17.

[2] Joan. XV, 5.

[3] In Marial — c. 83.

[4] Bibl. Virg. t. II, pág. 517.

[5] I Joan. III, 1.

[6] Joan. XXI, 18.

[7] «Oh! quel souvenir Il m’a Iaissé de Lui en me donnant les âmes! — dizia Nossa Senhora a Sor Josefa a 25-3-21, sexta-feira santa.

Vide: Un appel à I’amour, pág. 151 — Toulouse, 1944.

[8] Cit. por S. Navantés em L’Imitation de S.te Thérese de l’Enfant Jésus, pág. 172, ed. 1929, Bruges — Paris.