PRO CAUSA DE BEATIFICAÇÃO - PRO CAUSE DE BÉATIFICATION

Coração Imaculado, Íris de Paz

«Que peçam a paz ao Imaculado Coração de Maria!
Que Deus lha entregou a Ela».
Jacinta

Da vida do homem sobre a Terra, disse Job, que era uma luta [1]. S. Paulo, escrevendo aos Gálatas, confirma isto mesmo, com a guerra que entre si levam travada estes dois adversários: o espírito e a carne [2]; e ao recordar outra luta de maior envergadura, a luta com os demónios, parece-lhe que a guerra com as potestades e espíritos ma­lignos é muito mais temível, e por isso, nos aconselha a confortar-nos com a virtude do Senhor e a revestir-nos com a armadura de Deus.[3]

Numa palavra: a vida do homem sobre a Terra é um tecido de combates com os inimigos internos e externos. Mas S. Tiago, perscrutando a razão pela qual andamos sempre em guerras, encontra-a nas nossas concupiscências: «donde as guerras e litígios entre vós? — pergunta — É ou não daqui: das concupiscências que lutam em vossos membros? [4]

Por isso, não há paz nos indivíduos, não há paz nas famílias, não há paz nas classes, não há paz nas nações, não há paz no mundo!

Começou a ser assim desde que no paraíso Adão e Eva, postergando a. Lei do Senhor, transgrediram Seu mandato, comendo da fruta proibida.

Antes da queda, o sorriso de Deus era o sol que ilu­minava, acalentava e fecundava de bênçãos e doçuras o Paraíso terreal e no coração de nossos pais, Como em lago tranquilo e cristalino, vinha esse sorriso divino espelhar os seus melhores fulgores e encantos e tudo neles rever­berava tranquilidade e ordem esplendente.

Reinava a bela paz da justiça original.

Com o pecado entrou a desordem no mundo: é ele a causa primordial das guerras — disse-o Nossa Senhora em Fátima — e das lutas, e a primeira dessas lutas por ele excitada e que jamais haveria de ter tréguas, foi a revolta das paixões Contra a razão, no pobre coração humano.

Agora só à força de constante pugna conseguirão os mais valentes manter subjugados os inimigos inatos e irreconciliáveis: as paixões!

 

* * *

 

Adejava no entanto, sobre a face da Terra uma esperança. O Senhor falara. Logo no dia do pecado de Adão e Eva, ao meio-dia, quando Deus passeava no Paraíso a contemplar todas as ruínas a que se reduzira a pobre Humanidade em botão — compadecido, abriu os lábios e cominando à serpente tentadora e momentaneamente vitoriosa, revelou numa promessa bonançosa, toda a obra da Redenção futura: «Porei inimizades entre ti e a mulher; entre a tua descendência e a descendência dela. Ela te esmagará a cabeça».[5]

Andaram os séculos: dezenas de séculos. Chegada a plenitude dos tempos apareceu essa mulher prodigiosa.

S. João Evangelista contempla-A no seu Apocalipse, vendo-A deslumbrante de luz e de beleza, como visão de paz celestial. "Um grande sinal apareceu no céu: uma Mulher vestida de sol, calçada de lua e coroada de doze estrelas..."[6]

De novo o sorriso de Deus acariciou a Terra, mais benévolo ainda do que no primeiro instante da criação do homem inocente. E se após o dilúvio universal, diz a Es­critura, que saboreou Deus o perfume suavíssimo do holocausto que Noé justo e bom Lhe ofereceu sobre o altar, que suavidade e que delícia para a Santíssima Trindade aspirar todo o perfume que desde o instante da Conceição, principiou a evolar-se para o Céu do Coração e da Alma Imaculada de Maria, sempre em perene holocausto de amor à Divindade?

Os Anjos olham extasiados este prodígio novo e inda­gam ansiosamente: «Quem é esta que sobe do deserto como um perfume de mirra e incenso e de tudo o que há de mais aromático?... Quem é esta que se ergue como o surgir da Aurora, bela como a lua, eleita como o sol, terrível como um exército ordenado em campo?... Quem é esta que sobe do deserto entre delícias reclinada sobre o Seu Amado»?...

E dos lábios do Esposo nos Cantares colheram a res­posta: «toda és formosa, minha Amada e não há mancha em Ti!»[7]

Maria Santíssima, Mãe prometida do Salvador, aparecia no mundo isenta de toda a mancha, adornada com toda a graça como uma doce visão de Paz, brilhando nela de novo toda a ordem e toda. a tranquilidade, em maior esplendor ainda do que a concedida por Deus aos nossos primeiros pais, no estado de justiça original.

Doce visão de Paz, porque tudo nela se ordena na mais perfeita tranquilidade, sem um desvio ao fim supremo, Deus. A Sua alma Imaculada é espelho sem mancha, candor da luz eterna, onde desde o primeiro instante da Sua Conceição se reflecte ao vivo a Paz de Deus.

Doce visão de Paz eficazmente garantida contra toda a perturbação, porque em Maria não pode entrar a causa da guerra, o pecado. E impecável. «Ao sair santificada desde a Sua Conceição — diz Suarez — foi Maria ao mesmo tempo confirmada no bem e recebeu tal dom de graça e tão extraordinária assistência, que nunca, nem sequer a menor falta deu entrada em Seu Coração»[8]. Mas já ante­riormente demonstramos este ponto.

Doce visão de Paz, porque mesmo que de fora tente o dragão bafejá-La com sua baba imunda, ou armar-lhe ciladas, não pode essa guerra atingi-La em seu ser.

S. João, no mesmo Apocalipse, em que nos apresenta essa mulher extraordinária, diz que viu também outro sinal: um dragão rufo, com sete cabeças e dez pontas... e colocou-se diante dessa mulher prestes a devorar-lhe o filho que ela ia dar à luz e logo que o filho nasceu, foi arrebatado para o céu e a mulher fugiu para o deserto, para lugar que lhe tinha aí preparado Deus... Dá-se então uma grande batalha no empino: dum lado S. Miguel com seus Anjos, do outro o dragão com os dele. O dragão — satanás — é vencido com os seus e precipitado no abismo... Ao cair na ruína, tenta ainda uma cilada contra a mulher que voava para o deserto; lança das fauces uru rio de água, para ver se a arrebatava na torrente; mas em vão. A água sumiu-se pela terra. O dragão ficou ardendo em raiva, mas a mulher saiu vitoriosa.

E ao vivo a situação de Maria Santíssima, porque dela se trata também nesta passagem da Escritura; não há guerra que possa perturbar-Lhe a doce Paz. Graças ao privilégio da sua integridade original, embora ao redor fervam as lutas, as ciladas, as perseguições, nada há que possa atingi-La nem alterar-Lhe um tanto, a Paz da Sua Alma, a harmonia de todo o Seu viver e agir.

E, como canta a Igreja, com palavras da Escritura, terrível como tem exército em campo de batalha, mas sempre em paz, pois não existe força interna ou externa que ouse desafiá-La para a luta.

 

* * *

 

Logo, o Coração Imaculado de Maria é entre todas as obras de Deus o mais acabado ideal de Paz; tem portanto direito a ser chamada e aclamada Rainha da Paz, em virtude do Seu privilégio de Imaculada desde a Conceição.

Pela Sua beleza inexcedível é Rainha da Beleza; pela Sua virgindade é Rainha da Virgindade, pela Sua paz suma e imperturbável é Rainha da Paz: Regina Pacis.

A esta razão intrínseca junta-se outra que na intenção do destino divino, precede a primeira. Fê-La Deus sem mancha, sem paixões, toda bela, porque A destinava para Mãe de Deus, para Mãe do Redentor e portanto, como melhor veremos depois, para Corredentora do género humano. Coloca-A entre a justiça divina e o pecador, como um Arco-íris de bonança e de paz; como um sorriso de Deus à Terra e da Terra a Deus. Ao contemplá-La em Sua beleza e santidade, desarma-se a ira divina, irri­tada com nossos pecados e n'Ela e por Ela se dão o ósculo de reconciliação a Justiça e a Paz: justitia et pax osculatae sunt.[9]

«Na terra não há virtude, nem há misericórdia, nem há conhecimento de Deus» — exclamava com o Profeta, Pio X, na encíclica do 50.0 aniversário da definição do dogma da Imaculada Conceição.

E continua com o mesmo Profeta Oseias: «A maldição, a mentira, o homicídio, o adultério inundaram-na. Contudo, neste como dilúvio de males, temos diante dos olhos, qual Arco-íris, a bondosíssima Virgem Maria, encarregada de negociar a paz entre Deus e os homens. Eu porei o meu Arco nas nuvens e ele será o sinal de concerto que persiste entre Mim e a Terra.[10] Esbraveje embora, tolde-se o Céu de negra cerração: ninguém se assuste. À vista de Maria, aplacar-se-á Deus e perdoará. E o meu Arco estará nas nuvens e vendo-o, Me lembrarei do concerto sempiterno. E não tornará mais a haver dilúvio que faça perecer nas águas toda a carne».[11]

Confortam-nos poderosamente estas palavras de Pio X, nesta hora em que o mundo todo parece querer consumir-se em ódios e em guerras e sobretudo na hora em que a Terra inteira merece os mais severos castigos de Deus, pelas suas iniquidades. Mas, sursum corda! Corações ao alto! Lá está no firmamento este Arco bonançoso de luz e de beleza imaculada, a que Deus não sabe opor-se. Onde quer que ele se ostente, logo cantam profeticamente os Anjos: «Glória a Deus nas alturas e na Terra Paz aos homens de boa vontade»! [12]

De mais a mais Maria Santíssima é a primeira interessada junto do trono de Seu Divino Filho, Rei Pacífico, em alcançar-nos a Paz e não há força no Céu que resista à intercessão de Maria: é omnipotência suplicante: tudo alcança, quando pede. «Que peçam a Paz ao Imaculado Coração de Mania! — dizia a Jacinta — Que Deus Lha entre­gou a Ela».[13]

Podemos pois concluir com as palavras do Intróito da Missa, na festa do Imaculado Coração de Maria, que são de S. Paulo: «Vamos portanto, até junto deste trono de graça, para conseguirmos misericórdia e encontrarmos favor em auxílio oportuno».[14]

Todos encontrarão a Paz em Maria: o pecador intranquilo e perturbado na consciência pelos seus crimes e desordens, invoque a Maria e encontrará a Paz; as famílias desavindas e em guerra, corram a lançar-se confiadas aos pés do Coração de Maria, consagrem-se-lhe inteiramente e encontrarão a Paz; as classes e o mundo que arde em ódios, em vez de recurso às armas, olhe confiado para a Estrela de Bonança, lance-se por terra arrependido junto do trono da Rainha dos Céus e da Terra e alcançará a Paz.

«Como não havemos de confiar — inculca Pio X, na mesma encíclica já citada — que a nossa salvação está mais perto do que julgamos? Tanto mais que sabemos por experiência, que a Divina Providência não costuma deferir muito o remédio, quando os males chegaram ao auge. O seu tempo está próximo a vir e os seus dias não estão longe. Porque o Senhor se compadecerá de Jacob e reservará para Si alguns escolhidos... Por isso ternos plena esperança, de que também poderemos dentro em pouco exclamar: O Senhor quebrou o bastão dos ímpios. Toda a Terra está agora em descanso e em silêncio: toda está alegre e cheia de consolação».

Sua Santidade Pio XII na Consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria também implorava afoito e confiado: «Rainha da Paz, rogai por nós e dai ao mundo em guerra a Paz por que os povos suspiram: a Paz na verdade, na justiça, na caridade de Cristo. Dai-lhe a Paz das armas e das almas, para que na tranquilidade da ordem se dilate o Reino de Deus!»


[1] Job, VII, 1.

[2] Gal, V, 17.

[3] Eph. VI, 10 e segs.

[4] Jac. IV, 1.

[5] Gen, II,15.

[6] Apoc. XII, 1 e segs.

[7] Cant. IV, 7.

[8] Suarez in S. Thom. disp. 4.

[9] Ps. LXXXIX, 11.

[10] Gen. IX, 13.

[11] Ib. 15-16.

[12] Lc. II,14

[13] JACINTA, pág. 114.

[14] Hebr.IV, 16.