Coração
Imaculado, Íris de Paz
«Que peçam a
paz ao Imaculado Coração de Maria!
Que Deus lha entregou a Ela».
Jacinta
Da vida do homem
sobre a Terra, disse Job, que era uma luta .
S. Paulo, escrevendo aos Gálatas, confirma
isto mesmo, com
a guerra que entre si levam travada estes dois adversários: o
espírito e a carne ;
e ao recordar outra luta de maior envergadura, a luta com os demónios,
parece-lhe que a guerra com as potestades e espíritos malignos é muito mais
temível, e por isso, nos aconselha a confortar-nos com a virtude do Senhor e a
revestir-nos com a armadura de Deus.
Numa palavra: a
vida do homem sobre a Terra é um tecido de combates com os inimigos internos e
externos. Mas S. Tiago, perscrutando a razão pela qual andamos sempre em
guerras, encontra-a nas nossas concupiscências: «donde as guerras e litígios
entre vós? — pergunta — É ou não daqui: das concupiscências que lutam em vossos
membros?
Por isso, não há
paz nos indivíduos, não há paz nas famílias, não há paz nas classes, não há paz
nas nações, não há paz no mundo!
Começou a ser
assim desde que no paraíso Adão e Eva, postergando a. Lei do Senhor,
transgrediram Seu mandato, comendo da fruta proibida.
Antes da queda, o
sorriso de Deus era o sol que iluminava, acalentava e fecundava de bênçãos e
doçuras o Paraíso terreal e no coração de nossos pais, Como em lago tranquilo e
cristalino, vinha esse sorriso divino espelhar os seus melhores fulgores e
encantos e tudo neles reverberava tranquilidade e ordem esplendente.
Reinava a bela paz
da justiça original.
Com o pecado
entrou a desordem no mundo: é ele a causa primordial das guerras — disse-o Nossa
Senhora em Fátima — e das lutas, e a primeira dessas lutas por ele excitada e
que jamais haveria de ter tréguas, foi a revolta das paixões Contra a razão, no
pobre coração humano.
Agora só à força
de constante pugna conseguirão os mais valentes manter subjugados os inimigos
inatos e irreconciliáveis: as paixões!
* * *
Adejava no entanto, sobre a face da Terra uma esperança. O Senhor falara. Logo
no dia do pecado de Adão e Eva, ao meio-dia, quando Deus passeava no Paraíso a
contemplar todas as ruínas a que se reduzira a pobre Humanidade em botão —
compadecido, abriu os lábios e cominando à serpente tentadora e momentaneamente
vitoriosa, revelou numa promessa bonançosa, toda a obra da Redenção futura:
«Porei inimizades entre ti e a mulher; entre a tua descendência e a descendência
dela. Ela te esmagará a cabeça».
Andaram os
séculos: dezenas de séculos. Chegada a plenitude dos tempos apareceu essa mulher
prodigiosa.
S.
João Evangelista contempla-A no seu Apocalipse, vendo-A deslumbrante de luz e de
beleza, como visão de paz celestial. "Um grande sinal apareceu no céu: uma
Mulher vestida de sol, calçada de lua e coroada de doze estrelas...
De novo o sorriso
de Deus acariciou a Terra, mais benévolo ainda do que no primeiro instante da
criação do homem inocente. E se após o dilúvio universal, diz a Escritura, que
saboreou Deus o perfume suavíssimo do holocausto que Noé justo e bom Lhe
ofereceu sobre o altar, que suavidade e que delícia para a Santíssima Trindade
aspirar todo o perfume que desde o instante da Conceição, principiou a evolar-se
para o Céu do Coração e da Alma Imaculada de Maria, sempre em perene holocausto
de amor à Divindade?
Os Anjos olham
extasiados este prodígio novo e indagam ansiosamente: «Quem é esta que sobe do
deserto como um perfume de mirra e incenso e de tudo o que há de mais
aromático?... Quem é esta que se ergue como o surgir da Aurora, bela como a lua,
eleita como o sol, terrível como um exército ordenado em campo?... Quem é esta
que sobe do deserto entre delícias reclinada sobre o Seu Amado»?...
E dos
lábios do Esposo nos Cantares colheram a resposta: «toda és formosa, minha
Amada e não há mancha em Ti!»
Maria Santíssima,
Mãe prometida do Salvador, aparecia no mundo isenta de toda a mancha, adornada
com toda a graça como uma doce visão de Paz, brilhando nela de novo toda a ordem
e toda. a tranquilidade, em maior esplendor ainda do que a concedida por Deus
aos nossos primeiros pais, no estado de justiça original.
Doce visão de Paz,
porque tudo nela se ordena na mais perfeita tranquilidade, sem um desvio ao fim
supremo, Deus. A Sua alma Imaculada é espelho sem mancha, candor da luz eterna,
onde desde o primeiro instante da Sua Conceição se reflecte ao vivo a Paz de
Deus.
Doce
visão de Paz eficazmente garantida contra toda a perturbação, porque em Maria
não pode entrar a causa da guerra, o pecado. E impecável. «Ao sair santificada
desde a Sua Conceição — diz Suarez — foi Maria ao mesmo tempo confirmada no bem
e recebeu tal dom de graça e tão extraordinária assistência, que nunca, nem
sequer a menor falta deu entrada em Seu Coração».
Mas já anteriormente demonstramos este ponto.
Doce visão de Paz,
porque mesmo que de fora tente o dragão bafejá-La com sua baba imunda, ou
armar-lhe ciladas, não pode essa guerra atingi-La em seu ser.
S. João, no mesmo
Apocalipse, em que nos apresenta essa mulher extraordinária, diz que viu também
outro sinal: um dragão rufo, com sete cabeças e dez pontas... e colocou-se
diante dessa mulher prestes a devorar-lhe o filho que ela ia dar à luz e logo
que o filho nasceu, foi arrebatado para o céu e a mulher fugiu para o deserto,
para lugar que lhe tinha aí preparado Deus... Dá-se então uma grande batalha no
empino: dum lado S. Miguel com seus Anjos, do outro o dragão com os dele. O
dragão — satanás — é vencido com os seus e precipitado no abismo... Ao cair na
ruína, tenta ainda uma cilada contra a mulher que voava para o deserto; lança
das fauces uru rio de água, para ver se a arrebatava na torrente; mas em vão. A
água sumiu-se pela terra. O dragão ficou ardendo em raiva, mas a mulher saiu
vitoriosa.
E ao vivo a
situação de Maria Santíssima, porque dela se trata também nesta passagem da
Escritura; não há guerra que possa perturbar-Lhe a doce Paz. Graças ao
privilégio da sua integridade original, embora ao redor fervam as lutas, as
ciladas, as perseguições, nada há que possa atingi-La nem alterar-Lhe um tanto,
a Paz da Sua Alma, a harmonia de todo o Seu viver e agir.
E, como canta a
Igreja, com palavras da Escritura, terrível como tem exército em campo de
batalha, mas sempre em paz, pois não existe força interna ou externa que
ouse desafiá-La para a luta.
* * *
Logo, o Coração
Imaculado de Maria é entre todas as obras de Deus o mais acabado ideal de Paz;
tem portanto direito a ser chamada e aclamada Rainha da Paz, em virtude
do Seu privilégio de Imaculada desde a Conceição.
Pela
Sua beleza inexcedível é Rainha da Beleza; pela Sua virgindade é Rainha da
Virgindade, pela Sua paz suma e imperturbável é Rainha da Paz:
Regina Pacis.
A
esta razão intrínseca junta-se outra que na intenção do destino divino, precede
a primeira. Fê-La Deus sem mancha, sem paixões, toda bela, porque A destinava
para Mãe de Deus, para Mãe do Redentor e portanto, como melhor veremos depois,
para Corredentora do género humano. Coloca-A entre a justiça divina e o pecador,
como um Arco-íris de bonança e de paz; como um sorriso de Deus à Terra e da
Terra a Deus. Ao contemplá-La em Sua beleza e santidade, desarma-se a ira
divina, irritada com nossos pecados e n'Ela e por Ela se dão o ósculo de
reconciliação a Justiça e a Paz: justitia et pax osculatae sunt.
«Na terra não há
virtude, nem há misericórdia, nem há conhecimento de Deus» — exclamava com o
Profeta, Pio X, na encíclica do 50.0 aniversário da definição do dogma da
Imaculada Conceição.
E
continua com o mesmo Profeta Oseias: «A maldição, a mentira, o homicídio, o
adultério inundaram-na. Contudo, neste como dilúvio de males, temos diante dos
olhos, qual Arco-íris, a bondosíssima Virgem Maria, encarregada de negociar a
paz entre Deus e os homens. Eu porei o meu Arco nas nuvens e ele será o sinal
de concerto que persiste entre Mim e a Terra.
Esbraveje embora, tolde-se o Céu de negra cerração: ninguém se assuste. À vista
de Maria, aplacar-se-á Deus e perdoará. E o meu Arco estará nas nuvens e
vendo-o, Me lembrarei do concerto sempiterno. E não tornará mais a haver
dilúvio que faça perecer nas águas toda a carne».
Confortam-nos
poderosamente estas palavras de Pio X, nesta hora em que o mundo todo parece
querer consumir-se em ódios e em guerras e sobretudo na hora em que a Terra
inteira merece os mais severos castigos de Deus, pelas suas iniquidades. Mas,
sursum corda! Corações ao alto! Lá está no firmamento este Arco bonançoso de
luz e de beleza imaculada, a que Deus não sabe opor-se. Onde quer que ele se
ostente, logo cantam profeticamente os Anjos: «Glória a Deus nas alturas e na
Terra Paz aos homens de boa vontade»!
De
mais a mais Maria Santíssima é a primeira interessada junto do trono de Seu
Divino Filho, Rei Pacífico, em alcançar-nos a Paz e não há força no Céu que
resista à intercessão de Maria: é omnipotência suplicante: tudo alcança, quando
pede. «Que peçam a Paz ao Imaculado Coração de Mania! — dizia a Jacinta — Que
Deus Lha entregou a Ela».
Podemos pois concluir com as palavras do Intróito da Missa, na festa do
Imaculado Coração de Maria, que são de S. Paulo: «Vamos portanto, até junto
deste trono de graça, para conseguirmos misericórdia e encontrarmos favor em
auxílio oportuno».
Todos encontrarão
a Paz em Maria: o pecador intranquilo e perturbado na consciência pelos seus
crimes e desordens, invoque a Maria e encontrará a Paz; as famílias desavindas e
em guerra, corram a lançar-se confiadas aos pés do Coração de Maria,
consagrem-se-lhe inteiramente e encontrarão a Paz; as classes e o mundo que arde
em ódios, em vez de recurso às armas, olhe confiado para a Estrela de Bonança,
lance-se por terra arrependido junto do trono da Rainha dos Céus e da Terra e
alcançará a Paz.
«Como não havemos
de confiar — inculca Pio X, na mesma encíclica já citada — que
a nossa salvação está mais perto do que julgamos? Tanto mais que sabemos por
experiência, que a Divina Providência não costuma deferir muito o remédio,
quando os males chegaram ao auge. O seu tempo está próximo a vir e os seus
dias não estão longe. Porque o Senhor se compadecerá de Jacob e reservará
para Si alguns escolhidos... Por isso ternos plena esperança, de que também
poderemos dentro em pouco exclamar: O
Senhor quebrou o bastão dos ímpios. Toda a Terra está agora em descanso e em
silêncio: toda está alegre e cheia de consolação».
Sua Santidade Pio
XII na Consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria também implorava
afoito e confiado: «Rainha da Paz, rogai por nós e dai ao mundo em guerra
a Paz por que os povos suspiram: a Paz na verdade, na justiça, na caridade de
Cristo. Dai-lhe a Paz das armas e das almas, para que na tranquilidade da ordem
se dilate o Reino de Deus!»
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