O Coração Imaculado
de Maria
á luz de Fátima
Fátima
«Jesus quer servir-se de ti,
para Me fazer conhecer e amar»
(Nossa Senhora à Lúcia).
«Fátima é a página mais bela, mais sublime, mais celeste da história de
Portugal e das mais belas de toda a História da
Humanidade» — assim se
expressou, no memorável Congresso Mariológico Luso-Espanhol, celebrado
em Fátima de 12 a 16 de Julho de 1944, o R. Dr. Mons. Manuel Mendes do
Carmo
.
Mas —
observou também S. Em. o Sr. Cardial Patriarca de Lisboa, ao encerrar o Congresso
Eucarístico de Campinas, no Brasil, a 7 de Setembro de 1946 — «a missão
especial de Fátima é a difusão do culto ao Imaculado Coração de Maria.
A medida que a perspectiva do tempo nos permitir julgar melhor os
grandes acontecimentos de que fomos testemunhas, estou certo que melhor
se verá, que Fátima será para o culto do Coração de Maria o que
Paray-le-Monial foi para o culto do Coração de Jesus. Fátima, de algum
modo, é a continuação, ou melhor, a conclusão de Paray. Reúne aqueles
dois Corações que o mesmo Deus uniu na obra divina da redenção dos
homens»
.
Sua
Santidade Pio XII sintetizou com toda a autoridade da Sua palavra: «às
mil homenagens que vos ditou o amor filial e reconhecido, juntastes
aquela preciosa coroa, e com ela cingistes a fronte de Nossa Senhora de
Fátima, aqui neste oásis bendito impregnado de sobrenatural, onde mais
sensível se experimenta o seu prodigioso patrocínio; onde todos
sentis mais perto o Seu Coração Imaculado a pulsar de imensa ternura
e solicitude materna por vós e pelo mundo»
.
Foi a
consoladora revelação que se ocultou ao público até ao 252 aniversário
das aparições, como parte integrante do segredo confiado aos videntes.
Assim o dispôs a Divina Providência, porque primeiro importava, que a
realidade das aparições de Fátima se impusesse como verdade inconcussa.
Era o trabalho árduo dos primeiros decénios. Convencido o mundo sensato
de que na verdade Nossa Senhora apareceu na Cova da Iria, chegava o
momento oportuno para mais clara e completamente compreendermos os Seus
desígnios.
— E
Vossemecê que me quer? — perguntava invariavelmente a Lúcia, nas
diferentes aparições da Senhora.
Hoje não há
dúvida: o que nos quis a Virgem Mãe acima de tudo, com as suas
manifestações, naquela Cova ditosa, foi revelar ao mundo o Seu Imaculado
Coração, como o meio especial reservado por Deus para esta hora aflitiva
e trágica. Quem a esta luz lê e medita as páginas incomparáveis da vida
de Jacinta e do Francisco, compreende melhor, como afinal o Céu vinha
encaminhando tudo para este resultado final.
Primeiramente, antes que se revele esse segredo, faz Deus dos três
afortunados Pastorinhos, modelos perfeitos da verdadeira devoção ao
Imaculado Coração de Maria.
Já quando
na primavera de 1916, na Loca do Cabeço, lhes aparece o Anjo, fixa desde
logo a atenção dos pequeninos nos Corações Santíssimos de Jesus e de
Maria, mostrando-lhes como esses Divinos Corações atendem às suas
súplicas inocentes.
— Não
temais — diz— sou o Anjo da Paz. Orai comigo.
E
ajoelhando em terra — conta a Lúcia — curvou a fronte até ao chão.
Levados por um movimento sobrenatural, imitámo-lo e repetimos as
palavras que lhe ouvimos pronunciar: — «Meu Deus, eu creio, adoro,
espero e amo-Vos. Peço Vos perdão para os que não crêem, não adoram,
não esperam e Vos não amam». Depois repetiu isto três vezes, ergue-se e
disse: — «Orai assim; os Corações de Jesus e Maria estão atentos à voz
de vossas súplicas»
.
Aí está um
dos elementos mais importantes na devoção ao Coração de Maria, tal qual
a deseja Deus: oração de corações limpos, em espírito de expiação e
reparação pela conversão dos pecadores.
Na segunda
Aparição, manifesta o Anjo claramente aos pequeninos, que os Divinos
Corações os designam para alta missão de misericórdia e para
corresponderem a esses desígnios, hão-de orar e sacrificar-se
continuamente em reparação e súplica pela conversão dos pecadores e
assim obter a paz do mundo. Missão gigantesca, mas sob o influxo desses
divinos Corações que neles têm postos os olhos, tudo será fácil.
Assim nos
fala desta Aparição a Lúcia: «A segunda devia ter sido no fim do verão,
nesses dias de maior calor, em que íamos com os rebanhos para casa, no
meio da manhã, para os tornar a abrir só a tardinha. Fomos pois, passar
as horas da sesta à sombra das árvores que cercavam o poço (no Arneiro
ao fundo do quintal) já várias vezes mencionado. De repente vimos o
mesmo Anjo junto de nós. — Que fazeis? Orai! Orai muito! Os Corações
de Jesus e Maria têm sobre vós desígnios de misericórdia. Oferecei
constantemente ao Altíssimo orações e sacrifícios.
— Como nos
havemos de sacrificar? — perguntei.
— De
tudo que puderdes, oferecei sacrifício em acto de reparação, pelos
pecados com que Ele é ofendido e de súplica pela conversão dos
pecadores. Atraí assim sobre a nossa Pátria a paz. Eu sou o Anjo da sua
guarda, o Anjo de Portugal. Sobretudo aceitai e suportai com submissão o
sofrimento que o Senhor vos enviar
.
Logo a
seguir conclui a Lúcia: «Estas palavras do Anjo gravaram-se em nosso
espírito, como uma luz que nos fazia compreender quem era Deus, como nos
amava e queria ser amado, o valor do sacrifício e como ele Lhe era
agradável, como por atenção a ele convertia os pecadores. Por isso,
desde esse momento começámos a oferecer ao Senhor tudo o que nos
mortificava, mas sem discorrermos a procurar outras mortificações ou
penitências, excepto a de passarmos horas seguidas prostrados por terra,
repetindo a oração que o Anjo nos tinha ensinado».
Na terceira
Aparição revela-se, em quadro vivo deslumbrante, um novo elemento da
prática da devoção ao imaculado Coração de Maria, que os Pastores já
estão vivendo, sem formalmente o advertirem: a Comunhão reparadora.
Devia ter sido em Outubro ou fins de Setembro. «Passamos da Pregueira
(é um pequeno olival pertencente a meus pais, declara a Irmã Lúcia)
para a lapa dando a volta à encosta do monte pelo lado de Aljustrel e
Casa Velha. Rezámos aí o Terço e a oração que na primeira Aparição nos
tinha ensinado. Estando pois aí, nos apareceu pela terceira vez,
trazendo na mão um cálice e sobre ele uma Hóstia, da qual caíam dentro
do cálice algumas gotas de sangue. Deixando o cálice e a Hóstia
suspensos no ar, prostrou-se em terra e repetiu três vezes a oração: —
Santíssima Trindade, Pai, Filho, Espírito Santo, adoro-Vos profundamente
e ofereço-Vos o preciosíssimo Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus
Cristo, presente em todos os sacrários da Terra, em reparação dos
ultrajes, sacrilégios e indiferenças com que Ele mesmo é ofendido. E
pelos méritos infinitos do Seu santíssimo Coração e do Coração
Imaculado de Maria, peço-Vos a conversão dos pobres pecadores.
Depois,
levantando-se, tomou de novo o cálice e a Hóstia e deu-me a Hóstia a mim
e o que continha o cálice deu-o a beber à Jacinta e ao Francisco,
dizendo ao mesmo tempo: — Tomai e bebei o Corpo e o Sangue de Jesus
Cristo horrivelmente ultrajado pelos homens ingratos. Reparai os seus
crimes e consolai o vosso Deus.
De
novo se prostrou por terra e repetiu connosco mais três vezes a mesma
oração: Santíssima Trindade etc. e desapareceu»
.
Neste
período das aparições do Anjo, realizam os Pastorinhos o seu noviciado
de
devotos
e apóstolos do Coração Imaculado de Maria, mas noviciado intensamente,
austeramente fervoroso. Destaca-se desde já bem em foco a grande razão
pela qual nos vai ser revelado o Coração de Maria: a conversão dos
pecadores assim como os meios indispensáveis para isso: oração continua
em actos de fé: «Meu Deus, eu creio»; actos de adoração: «adoro»;
«Santíssima Trindade, Pai, Filho, Espírito Santo, adoro-Vos
profundamente»; actos de esperança: «espero»; de amor: «Amo-Vos». Mas
oração expiatória e reparadora: «e peço-Vos perdão para os que não
crêem, não adoram, não esperam e Vos não amam»; oração em união com a
Vítima dos altares: «ofereço-Vos o preciosíssimo Corpo, Sangue, Alma e
Divindade de Jesus Cristo, presente em todos os sacrários do mundo»;
oração que, para ser ouvida, interpõe particularmente os méritos do
Coração de Jesus e de Maria.
A esta
oração há de unir-se inseparavelmente o sacrifício contínuo.
* * *
Mais
explicitamente porém, é nas aparições de Nossa Senhora, de 13 de Maio a
13 de Outubro de 1917, que o Imaculado Coração de Maria nos patenteia os
seus desígnios de amor e misericórdia.
Desde a
primeira vez que se mostra aos Pastores vem esse Coração de Mãe numa
ânsia de unir a Si almas inocentes e generosas, para que A ajudem a
aplacar a ira de Deus muito ofendido com os pecados do mundo.
— «Quereis
oferecer-vos a Nosso Senhor para aceitar de boa vontade todos os
sofrimentos que Ele vos quiser enviar, em reparação de tantos pecados
com que a Divina Majestade é ofendida, para obter a conversão dos
pecadores e em desagravo das blasfémias e ultrajes feitos ao imaculado
Coração de Maria?» — interrogava Nossa Senhora.
Responde
por todos três a Lúcia sem hesitação: — Sim, queremos!
Neste dizer
prontamente que sim, há uma consagração e entrega sem condições a Nossa
Senhora — elemento essencial na devoção ao Imaculado Coração de Maria.
A Virgem
Santíssima aceitou a oblação dos pequeninos e profetiza-lhes:
— «Ides
pois, ter muito que sofrer, mas a graça de Deus será o vosso conforto».
Ao
pronunciar estas palavras — escreve mais tarde a Irmã Lúcia, quando já
religiosa de Santa Doroteia — abriu as mãos, comunicando-nos uma luz
muito intensa, como um reflexo que delas expedia, penetrando-nos no
peito e no mais íntimo da alma e fazendo-nos ver a nós mesmos em Deus,
que era essa luz, mais claramente do que nos vemos num espelho. Então
por um impulso íntimo também comunicado, caímos de joelhos e repetimos,
intimamente: «Ó Santíssima Trindade, eu Vos adoro, meu Deus, meu Deus,
eu Vos amo no Santíssimo Sacramento»
.
Em seguida
pede-lhes Nossa Senhora a prática que Lhe é tão cara ao Seu Coração: —
«Rezai o Terço todos os dias para alcançar a paz para o mundo e o fim da
guerra».
As crianças
começam desde logo a viver esta entrega total a Nossa Senhora e a
cumprir à letra tudo o que lhes pediu.
— Hoje não
quero brincar— avisava no dia seguinte à tarde a Jacinta.
— Porquê? —
interroga a prima Lúcia.
— Porque
estou a pensar que aquela Senhora nos disse para rezarmos o Terço e
fazermos sacrifícios pela conversão dos pecadores. Agora quando rezarmos
o Terço, temos que rezar a Ave Maria e o Padre Nosso inteiros. E os
sacrifícios, como havemos de fazer?
Podemos dar
a nossa merenda às ovelhas — sugeriu o Francisco.
E a
proposta foi aceita
e começou para aquelas crianças, ainda de tão tenra idade, uma vida de
heroísmo no sacrifício, digna dos Santos da Tebaida.
A 13 de
Junho dá-se, como anunciara Maria Santíssima, a segunda Aparição,
importantíssima para o ponto de vista que nos ocupa.
Logo que a
Senhora poisou sobre a azinheirinha, pergunta a Lúcia:
— Vossemecê
mandou-me vir aqui, faz favor de dizer o que me quer?
— Quero
que venhais aqui no dia 13 do mês que vem e que rezeis o Terço
intercalando entre os mistérios a jaculatória: «Ó meu Jesus,
perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno; levai as alminhas todas para
o céu, principalmente as que mais precisarem».
Neste
momento revela a Virgem à Lúcia que Nosso Senhor a escolhia para
apóstola do Seu Imaculado Coração: foi quando a pastorinha suplicou que
a levasse para o Céu:
«— Queria
pedir-lhe para nos levar para o Céu!
— Sim
— responde a Virgem Maria — à Jacinta e ao Francisco levo-os em breve,
mas tu ficas cá mais algum tempo. Jesus quer servir-se de ti para Me
fazer conhecer e amar. Ele quer estabelecer no mundo a devoção ao Meu
imaculado Coração. A quem a abraçar prometo a salvação; estas almas
serão predilectas de Deus, como flores por Mim colocadas no Seu trono.
— Fico
cá sozinha? — perguntou um pouco assustada.
— Não,
filha. E tu sofres muito com isso? Eu nunca te deixarei. O meu Imaculado
Coração será o teu refúgio e o caminho que te conduzirá a Deus.
Foi
no momento que disse estas palavras — continua a Irmã Lúcia — que a
Virgem abriu as mãos e nos comunicou pela segunda vez o reflexo da luz
imensa que A envolvia. Nela nos vimos como submergidos em Deus. A
Jacinta e o Francisco pareciam estar na parte que se elevava para o Céu
e eu na que se espargia sobre a Terra. A frente da palma da mão direita
de Nossa Senhora estava um Coração cercado de espinhos que nele se
cravavam. Compreendemos que era o Coração Imaculado de Maria, ultrajado
pelos pecados da Humanidade, que queria reparação».
Como
se vê, este dia 13 de Junho
ocupa um lugar de destaque: é a Aparição formal do Imaculado Coração
de Maria. Precisamente 242 anos antes, também no mês de Junho, e se
não no dia 13, muito perto dele, entre os dias 13 e 21, dava-se
em Paray-le-Monial a grande revelação do Coração Santíssimo de Jesus a
Santa Margarida Maria. Também lá se manifestou o Coração do Salvador
rodeado de espinhos significativos dos ultrajes e ingratidões dos
homens; também lá pediu reparação e amor e um culto especial a esse
Coração amante tão ferido.
Ao
aparecer pela terceira vez em Julho, Nossa Senhora, sobre a azinheira,
põe-se-nos mais em evidência a urgente necessidade que tem o mundo do
Coração Imaculado de Maria. «Só
Ela lhe pode valer».
«— Vossemecê
que me quer? — indaga como sempre a Lúcia.
— Quero
que voltem aqui no dia 13 do mês que vem, que continuem a rezar o Terço
todos os dias em honra de Nossa Senhora do Rosário, para obter a paz do
mundo e o fim da guerra, porque só Ela lhes poderá valer» — responde a
Virgem Santíssima.
Insiste
depois na necessidade de sacrifício pela salvação dos pecadores.
«— Sacrificai-vos
pelos pecadores e dizei muitas vezes, em especial sempre que fizerdes
algum sacrifício: ó Jesus, é por vosso amor, pela conversão dos
pecadores e em reparação pelos pecados cometidos contra o Imaculado
Coração de Maria».
Agora vem o
que há de mais trágico nestas aparições de Fátima. «Ao dizer estas
palavras — continua a Lúcia — abriu de novo as mãos como nos dois meses
anteriores. O reflexo que elas expediam pareceu penetrar a terra e vimos
como um mar de fogo e mergulhados nesse fogo os demónios e as almas,
como se fossem brasas transparentes e negras ou bronzeadas, com forma
humana, que flutuavam no incêndio levadas pelas chamas que delas mesmas
saíam, juntamente com nuvens de fumo, caindo para todos os lados assim
como o cair das faúlhas nos grandes incêndios, sem peso nem equilíbrio,
entre gritos e gemidos de dor e desespero, que horrorizavam e faziam
estremecer de pavor. Os demónios distinguiam-se por formas horríveis e
asquerosas de animais espantosos e desconhecidos, mas transparentes como
negros carvões em brasa».
As
criancinhas ficaram aterradas e a Lúcia deu um grito de pavor que os
circunstantes ouviram: «Ai! Nossa Senhora!»
Desvanecido
este espectáculo horroroso, prosseguiu a Virgem: — «Vistes o inferno,
para onde vão as almas dos pobres pecadores. Para as salvar, Deus
quer estabelecer no mundo a devoção ao meu Imaculado Coração. Se
fizerem o que Eu vos disser, salvar-se-ão muitas almas e terão paz.
E
continuou: — «A guerra vai acabar, mas se não deixarem de ofender a
Deus, começará outra pior. Quando virdes uma noite alumiada por uma luz
desconhecida, sabei que é o grande sinal que Deus vos dá, de que vai
punir o mundo dos seus crimes por meio da guerra, da fome e da
perseguição à Igreja e ao Santo Padre. Para a impedir, virei pedir a
consagração da Rússia ao meu Imaculado Coração e a Comunhão
reparadora dos primeiros sábados. Se atenderem ao meu pedido, a
Rússia se converterá e terão paz; se não, espalhará os seus erros pelo
mundo, promovendo guerras e perseguições à. Igreja: os bons serão
martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão
aniquiladas; por fim o meu Imaculado Coração triunfará. O Santo
Padre consagrar-Me-à a Rússia, que se converterá e será concedido ao
mundo algum tempo de paz. Em Portugal conservar-se-á sempre o dogma da
Fé. Isto não o digais a ninguém; ao Francisco podeis dizê-lo».
É
riquíssima em dados sobre a devoção ao Imaculado Coração de Maria esta
Aparição. Revela-se-nos a finalidade, que Deus tem em vista ao
querer que ela se estabeleça: a salvação dos pecadores; os frutos
serão a salvação de muitos, se cumprirem as condições postas por Nossa
Senhora; para a Rússia em particular, virá a sua conversão e para o
mundo todo a paz. Lembram-se também os imensos males que se evitariam,
se a tempo esta devoção fosse espalhada e cumpridas as condições postas
por Nossa Senhora.
Na Aparição
de Agosto, a 19, manifesta outra vez Maria Santíssima a contínua
preocupação do Seu Coração Imaculado: os pecadores que vão para o
inferno e a necessidade de almas que se sacrifiquem por eles, para os
salvar:
«— Rezai,
rezai muito e fazei sacrifícios pelos pecadores, pois vão muitas almas
para o inferno por não haver quem se sacrifique e peça por elas».
«Estas
palavras — escreve
o R. P. Marchi — despertavam
nos pequenos uma verdadeira fome de mortificações e de sofrimentos que
somente nos é dado encontrar em poucas almas extraordinárias, nos Santos
que compreendem o inefável mistério do Crucifixo».
As
aparições de Setembro e Outubro não fazem mais do que inculcar os pontos
em que mais tem insistido Nossa Senhora: que rezem o Terço; «que se
emendem dos seus pecados e peçam perdão deles a Nosso Senhor». «Não
ofendam mais a Nosso Senhor que já está muito ofendido».
Pede
finalmente que construam ali uma capela à Senhora do Rosário, porque «Eu
sou a Senhora do Rosário».
Mais tarde
a Jacinta que escutou todas estas revelações e teve outras em
particular, antes de ir para o hospital há-de dizer a Lúcia: 1) Deus
quer estabelecer no mundo a devoção ao Imaculado Coração de Maria; 2)
que a Lúcia é a encarregada de o dizer; 3) que Deus nos concede todas
as graças pelo Imaculado Coração de Maria; 4) que o Coração de Jesus
quer que a Seu lado se venere o Coração de Sua Mãe; 5) que é no Coração
de Maria que está a paz do mundo. Eis as suas palavras citadas pela.
Irmã Lúcia: «Já falta pouco para ir para o Céu. Tu ficas cá para dizeres
que Deus quer estabelecer no mundo a devoção ao Imaculado Coração de
Maria. Quando fores para dizeres isso, não te escondas, diz a toda a
gente que Deus nos concede as graças por meio do Coração Imaculado de
Maria, que lhas peçam a Ela, que o Coração de Jesus quer que a Seu lado
se venere o Coração Imaculado de Maria. Que peçam a paz ao Imaculado
Coração de Maria, que Deus lha entregou a Ela. Se eu pudesse meter no
coração de toda a gente o lume que tenho cá dentro do peito a queimar-me
e a fazer-me gostar tanto do Coração de Jesus e do Coração de Maria!»
Em visão
profética viu a pequenina um dia a realização deste desejo do Senhor:
— Não
viste o Santo Padre? — pergunta ela à prima, sua confidente.
— Não.
— Não
sei como foi: eu vi o Santo Padre numa casa muito grande, de joelhos
diante duma mesa, com as mãos na cara a chorar; fora da porta da casa
estava muita gente a atirarem-lhe pedras, outros rogavam-lhe pragas e
diziam-lhe muitas palavras feias. Coitadinho do Santo Padre, temos de
pedir muito por Ele!
E noutra
ocasião: — «Ó Lúcia, não vês tanta estrada, tantos caminhos e campos
cheios de gente a chorar com fome e não tem nada de comer? E o Santo
Padre numa igreja diante do Imaculado Coração de Maria a rezar e tanta
gente a rezar com ele»?...
Estas
visões proféticas parecem traduzir bem os tremendos momentos em que Sua
Santidade Pio XII consagrou o mundo ao Imaculado Coração de Maria.
* * *
Passados
anos teve a mais velha dos Pastorinhos, já religiosa, a seguinte visão
por ela mesma descrita em terceira pessoa: «Dia 10-12-1925, apareceu-lhe
a Santíssima Virgem e ao lado, suspenso em uma nuvem luminosa, um
Menino. A Santíssima Virgem pôs-lhe no ombro a mão, mostrando-lhe ao
mesmo tempo um coração que tinha na outra cercado de espinhos; ao mesmo
tempo disse o Menino: — Tem pena do Coração de tua Santíssima Mãe que
está coberto de espinhos que os homens ingratos a todos os momentos lhe
cravam, sem haver quem faça um acto de reparação para os tirar!
«Em seguida
a Santíssima Virgem: — Olha, minha filha, o meu Coração cercado de
espinhos que os homens a todos os momentos Me cravam com blasfémias e
ingratidões. Tu ao menos vê se me consolas e diz que prometo assistir
na hora da morte, com as graças necessárias para a salvação a todos os
que no primeiro sábado de cinco meses seguidos, se confessarem,
receberem a Sagrada Comunhão, rezarem o Terço, Me fizerem quinze minutos
de companhia, meditando nos quinze mistérios do Rosário, com o fim de Me
desagravarem».
«Até 1926
ficou isto em silêncio, segundo ordem expressa de Nossa Senhora —
escreve a Irmã Lúcia em carta de 2 de Dezembro de 1940 — No dia
15-12-1926, apareceu-lhe de novo o Menino Jesus. Perguntou se já tinha
espalhado a devoção a Sua Mãe? Ela (continua a mesma Irmã Lúcia,
falando sempre em terceira pessoa) expôs-Lhe as dificuldades que tinha o
Confessor, e que a Madre Superiora estava pronta a propagá-la, mas que o
confessor tinha dito, que ela só nada podia. Jesus respondeu: — É
verdade que a tua Superiora só nada pode, mas com a minha graça pode
tudo...»
«No
dia 17-12-1927, foi junto do Sacrário perguntar a Jesus como satisfaria
o pedido que lhe era feito, se a origem da devoção ao Imaculado Coração
de Maria estava encerrada no segredo que a Santíssima Virgem lhe tinha
confiado? — Jesus com voz clara fez-lhe ouvir estas palavras: — Minha
filha, escreve o que te pedem e tudo o que te revelou a Santíssima
Virgem, na aparição em que te falou desta devoção escreve-o também;
quanto ao resto do segredo continua o silêncio»
.
Como se vê,
era chegado o momento de Lúcia cumprir a missão a que a destinava a
Providência; e pouco a pouco começou a constar destas revelações; muitos
dos que tiveram conhecimento do facto, deram-se para logo a praticar a
devoção ao Coração de Maria segundo as indicações da Irmã Lúcia. «Mas só
a 13 de Setembro de 1939 — escreve ela — Sua Ex.a Rev.ma o Sr. Bispo de
Leiria se dignou em Fátima tornar público este pedido de Nossa Senhora.
Em 1929, Nossa Senhora, por meio de outra aparição, pediu a consagração
da Rússia ao Seu Imaculado Coração, prometendo por este meio impedir a
propagação de seus erros e a sua conversão. Algum tempo depois dei conta
ao Confessor do pedido de Nossa Senhora; Sua Rev.a empregou alguns
meios, para que se realizara, fazendo-o chegar ao conhecimento de Sua
Santidade Pio XI».
Ainda na
carta de 2 de Dezembro de 1940, significava a vidente o desejo da
Consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria, pois Nosso Senhor
prometia em retorno «abreviar os dias da tribulação, com que tem
determinado punir as nações de seus crimes...»
* * *
É sabido
como Pio XII na radiomensagem em língua portuguesa, por ocasião da
conclusão
do jubileu de Fátima, a 31 de Outubro de 1942, Consagrou o mundo ao
Imaculado Coração de Maria, consagração que depois foi renovada
solenemente na basílica de São Pedro, na festa da Imaculada Conceição, a
8 de Dezembro.
O
movimento para a consagração do género humano ao Coração de Maria vinha
de há quase um século. Parece ter-se inspirado nas aparições de Nossa
Senhora a Santa Catarina Labouré. Desde então começaram a dirigir-se em
variadíssimas circunstâncias pedidos à Santa Sé, para que se tributasse
à. Rainha do Céu e da Terra este preito de amor. O mesmo Sumo Pontífice
Pio XII recebeu de outras origens pedidos insistentes para que se
dignasse fazer esta consagração
.
Mas tem-se
a impressão que foi Fátima a dar o impulso mais eficaz a esta
realização.
O
Mensageiro de Maria referia-se assim ao grande acontecimento, em
Crónica de Roma: «A radiomensagem foi escutada por toda a colónia
portuguesa de Roma (cerca de 60 pessoas), numa sala do Vaticano, onde em
seguida o Santo Padre nos deu audiência, o que foi uma deferência, não
só pelo caso em si, mas ainda por se realizar já noite fechada, o que é
contra todos os protocolos do Vaticano. Claro está que o melhor foi a
Consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria, tão inesperada, que
quando a começamos a ouvir, nos perguntamos, se aquilo seria a valer e
oficialmente.
As
dúvidas foi o próprio Papa quem as dissipou, pois a primeira coisa que
fez, ao entrar na sala da audiência, foi perguntar-nos se estávamos
satisfeitos com a Consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria,
que acabava de ter lugar em cumprimento do pedido feito por Nossa
Senhora de Fátima
».
Em 1850, OS Bispos reunidos em Concilio provincial, em Albi, Aix,
Bourges, Sens, consagram as suas dioceses ao Sagrado Coração de
Jesus e ao Santíssimo Coração de Maria (prelúdio da Consagração
da França pelo Episcopado, a 13 de Dezembro de 1914, ao Coração
Imaculado de Maria). Em 1891 surge em Itália um Vasto movimento
chefiado pelos cardeais de Milão e de Turim para a consagração
das dioceses ao Coração de Maria.
A
partir de 1900, o P. Deschamps, S.J. começou a recolher as
petições para obter do Papa a Consagração do género humano ao
Imaculado Coração de Maria. Em 1906, sob os auspícios do Card.
Richard, partiu a segunda petição de Nossa Senhora das Vitórias
e levou a Roma 707.845 assinaturas. Em 1908 e 1912 O R. P. Doré,
Superior Geral dos Padres Eudistas, apresentou duas listas. O P.
Lintelo S J. faz nova petição em 1914 e nesse mesmo ano o
Congresso Eucarístico de Lourdes dirigiu oficialmente a Pio X a
mesma petição e consta que Pio X estava resolvido a aquiescer a
este pedido, se não fora a guerra e a morte do mesmo Pontífice.
Em 1920 outra vez o Geral dos Eudistas recolhe mais 700.000
assinaturas. São estes também os votos dos múltiplos Congressos
Marianos de Lião (1900), Friburgo (1902), Einsiedeln (1906),
Paris (1927), Chartres (1927), Lourdes (1930), Boulogne-sur-Mer
(1938), Saragoça (1940).
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