O Padre Agostinho Veloso
e a Alexandrina
II
— O “caso” da Alexandrina —
« Para declarar e dar a entender esta noite escura pela qual a alma
tem de passar a fim de chegar à luz divina da perfeita união do amor
de Deus, quanto é possível nesta vida, seria mister outra maior luz
de ciência e de experiência do que a minha; pois são tantas e tão
profundas as trevas e os trabalhos, tanto espirituais como
temporais, que as ditosas almas têm ordinariamente de passar para
poderem chegar ao alto estado da perfeição, que não basta ciência
humana para o poder compreender, nem experiência para o saber dizer;
pois somente quem por isso passa, o saberá sentir, mas não dizer ».
Acusações gratuitas
Vimos
acima as razões que levaram o estudioso Padre Veloso a ressentir uma
aversão biliar contra a “Doentinha de Balasar”. Ele
não só combateu
o caso, mas levantou mesmo falsos testemunhos contra ela e contra o
seu digno Director espiritual.
Porque
não seguiu ele este sábio conselho de S. João da Cruz?
« Não me fiarei nem da experiência, nem da ciência, pois uma e outra
podem falhar e enganar ».
Como já
disse acima, aquando do processo diocesano para a beatificação da
Ale-xandrina de Balasar, foram ouvidas quarenta e oito testemunhas,
das quais quarenta e sete eram a favor da introdução da causa. Uma
só dessas testemu-nhas ― a testemunha número XII ― se opunha à
introdução: o Padre Agostinho Veloso.
Interrogado pelo Tribunal eclesiástico, ele afirma peremptoria-mente:
― « Não tenho devoção nenhuma à Serva de Deus. Não desejo a sua
beatificação porque considero que isso seria um desastre para a
Igreja ».
Uma tal
afirmação ― a única discordante! ― vinda da boca dum sacerdote,
causa admiração e merece uma explicação. Por isso mesmo o dito
Tribunal pergunta:
― « Vossa Reverência diz que a beatificação da Serva de Deus seria
um desastre para a Igreja. Porque razão, explique-nos ».
Sem
qualquer embargo, o Padre Veloso respondeu:
― «1° Dizem que ela estava paralisada. Eu sei, no entanto, que ela
não o era;
― 2°
Que ela teve uma miélite: isso é mentira e eu posso prová-lo com um
documento assinado que tenho em meu poder, mas que não confiarei ao
Tribunal;
― 3°
Afirmo igualmente que ela não era paralítica, e isto pela simples
razão que, tendo ido à Trofa, o pároco dessa freguesia mostrou-me
sete fotografias da Alexandrina, tiradas por ele mesmo, onde se vê
esta passear no jardim, isto por volta de 1939 ou 1940, mais ou
menos».
E um
pouco mais adiante, ele diz ainda, sob juramento:
― « A Alexandrina seguia os conselhos e as ordens do director
espiritual, Padre Mariano Pinho e penso que ela estava total-mente
“feita” com ele, que era um tarado sexual. »
Graves
acusações não documentadas, portanto falsas acusações gratuitas,
tendo em vista, provavelmente, entravar a causa então em curso.
Sabe-se, por exemplo, pela Autobiografia da Alexandrina, que se na
Trofa se movimentou foi por “simples” milagre de Deus e obediência
ao seu “Paizinho” espiritual, como o atestam o Doutor Azevedo e a
Sãozinha, presentes nessa ocasião e, sobre-tudo dignos de fé.
Se,
como ele próprio o diz, podia “prová-lo com um documento
assinado”, porque se recusou a produzir, perante o Tribunal
eclesiástico, o dito documento? Porque o não tinha... senão tê-lo-ia
exibido com orgulhoso prazer. Torna-se óbvio que fez então uma falsa
declaração e, pela mesma ocasião um falso juramento, o que é
gravíssimo.
Como
para provar e justificar todas as suas asserções malévolas, o Padre
Agostinho Veloso aponta, perante o Tribunal eclesiástico um
documento enviado pelo então Arcebispo de Braga, Dom António Bento
Martins Júnior ao Provincial da Província Portuguesa da Companhia de
Jesus, o Padre Júlio Marinho, documento onde o Prelado explica a
decisão da Comissão que ele mesmo tinha en-carregado de estudar o
“caso” de Balasar:
« Levamos ao conhecimento de Vossa Reverência que, tendo encarregado
uma Comissão, composta de pessoas prudentes, instruídas e
especializadas nas ciências filosófica e teológica, de estudar
quanto se passa com a Alexandrina Maria da Costa, de Balasar, a dita
Comissão emitiu o seguinte parecer: “Diante de longa relação feita,
esta Comissão sente a necessidade de dizer que não ter encontrado
nada que ateste, no caso da Alexandrina, a presença de sobrenatural,
de extraordinário ou de milagroso, etc. »
Se a
conclusão a que chegou o Padre Mariano Pinho sobre o resultado da
dita Comissão, é louvável ― “diante destas determina-ções, só
restava obedecer, fossem quais fossem as razões que a isso levaram a
Autoridade competente” ―; como era previsível, o Padre Veloso
tira deste documento uma conclusão muito pessoal:
― « O Prelado mandou este documento ao Padre Júlio Marinho,
Provincial da Província Portuguesa da Companhia de Jesus, porque
conhecia a grave responsabilidade que o Padre Mariano Pinho tinha em
todos os aspectos da mistificação de Balasar. »
E logo
a seguir, um ataque frontal dirigido aos dois directores da
Alexandrina:
― « Se ela perdeu, sucessivamente, dois directores espirituais foi
porque, tanto um como outro, colaboraram na mistificação que o
Prelado não podia permitir. O segundo director foi o Padre Pasquale.
Basta ler o livro “Eis a Alexandrina”, do qual ele é autor, para ver
até que ponto também ele colaborou na mistificação. »
Esta
maneira de proceder denota no Padre Veloso, como também já disse,
três grandes defeitos que parecem ter sido nele uma constante:
vaidade, teimosia e egocentrismo.
Ele
estudou, estudou muito, sabe muito, sabe mesmo tudo e, quanto
possam dizer os outros, mesmo que tenham razão, não é ver-dade: só
ele sabe, só ele é detentor da verdade...
E, como
se fosse necessário prová-lo, leia-se o que no mesmo artigo ele
escreveu:
« O
que aí fica vale como documento humano de psicologia feminina,
e como aviso a jornalistas ingénuos e principalmente a directores de
almas, algumas vezes, cúmplices, embora de boa fé, dos falsos
caminhos, onde as melhores qualidades naturais se podem perverter ».
O que dizem as testemunhas
Sãozinha
Diversas testemunhas foram interrogadas, durante o Processo
diocesano da Alexandrina, sobre as afirmações peremptórias do
Padre
Veloso. Vimos já o que a esse respeito disse o venerando Cardeal
Patriarca de Lisboa, D. Manuel Gonçalves Cerejeira.
Vejamos
agora o que sobre ele responde Maria da Conceição Proen-ça, a
professora de Balasar, a Sãozinha.
Perguntou-lhe o Tribunal:
― «O
Padre Agostinho Veloso diz que a vida moral do Padre Ma-riano Pinho,
com as suas dirigidas, era gravemente suspeita. Que diz a esta
afirmação?»
É bom
lembrar aqui que a Sãozinha lidou de perto com a
Alexan-drina ― escrevendo muitas vezes as suas cartas e mesmo páginas
do seu Diário quando a irmã o não podia fazer ―; que tinha também o
Padre Mariano Pinho como Director espiritual. Ouçamos pois
aten-tamente as suas respostas cheias de bom senso e de recato.
― « Também eu fui sua dirigida durante dez anos, mas nunca en-contrei
nele a mínima atitude, nem ouvi a mínima palavra desres-peitosa,
antes pelo contrário: ele era delicado, atento e sobretudo devotado
às almas ».
Outra
pergunta do Tribunal:
― « Era ele prudente na direcção espiritual? »
― « Comigo sempre o foi. Todavia penso que algumas vezes possa não
ter sido com algumas pessoas, por causa da sua bondade, um pouco
ingénua, o que poderá tê-lo por vezes levado a acreditar com uma
certa facilidade o que lhe diziam. De qualquer das maneiras,
custa-me a acreditar nisso ».
As
acusações do Padre Veloso tendo sido muito graves, o Tribunal não
desarma: a verdade tem que vir ao de cima... O interrogatório
continua:
― « O Padre Agostinho Veloso diz que foi por causa de abusos muito
graves que os seus Superiores se viram obrigados a enviar o Padre
Mariano Pinho para o Brasil. Que pensa à cerca disso? »
Calmamente a Sãozinha respondeu:
― « O Padre Mariano Pinho foi enviado para o Brasil por causa duma
carta difamatória, carta que teria sido escrita por uma certa Ema de
Vila Real e cuja má reputação é publicamente reconhecida. Ouvi dizer
que os Superiores do Padre Mariano Pinho, sem qualquer inquérito
sobre a acusação, proibiram este de vir a Balasar e pouco depois
enviaram-no para o Brasil. Entre a proibição de se deslocar a
Balasar e a partida para o Brasil, passaram-se dois anos. Posso
testemunhar que ele sempre obedeceu e nunca disso se lamentou ».
― « O Padre Agostinho Veloso ― continua o
interrogador ― também ele religioso, diz assim: “Eu conheci muito
bem esse Padre e sei que ele era um tarado sexual, que dirigia as
penitentes, mais ou menos histéricas, por uma via de falsa mística e
pela prática de actos sexuais com ele e por mistificação...” Que
pensa a Senhora desta afirmação? »
Acusação terrível que provavelmente faz estremecer a boa Sãozinha. A
sua resposta é curta mas incisiva:
― « Tudo
isso é mentira. Aquele que me parece tarado é o Padre Agostinho
Veloso e não outro, porque, para afirmar uma coisa dessas, é preciso
estar absolutamente certo dos factos ».
O
interrogador argumenta ainda, parecendo não se satisfazer com a
curta resposta da Sãozinha:
― « A
Senhora diz que, para afirmar uma coisa dessas, é preciso estar
absolutamente certo. Ora, o Padre Agostinho Veloso, sacerdote
ilustre, que conhecia o sentido das palavras, quando disse “Eu
conheci bem esse Padre” estava certo naquilo que dizia. Que lhe
parece? »
Provavelmente um pouco paralisada pela insistência, a Sãozinha
respondeu simplesmente:
― « Se
ele o conhecia, não o conhecia que chegasse, porque o Padre Pinho
era incapaz de tais coisas... »
Parecendo não se satisfazer com respostas tão curtas, o Tribunal que
estava ao corrente de todas as maledicências do Padre Veloso,
pergunta:
― « O
Padre Agostinho Veloso acrescenta ainda: “Eu ouvi dizer a algumas
das suas vítimas, às quais, quando elas resistiam aos seus desvios
eróticos, ele costumava dizer, para as convencer, que fazia a mesma
coisa com a Alexandrina”. Que diz a Senhora sobre esta afirmação? »
Era
demais!... A reacção da Sãozinha não se fez esperar:
― « Eu
digo, com indignação, que tudo isso é um tecido de mentiras.
Encontrei-me com muitas pessoas que vinham a casa da Alexandrina e
que eram também dirigidas do Padre Pinho; nunca nenhuma delas se
queixou nem me advertiu de tal procedimento por parte dele ».
A
insistência do interrogador pode parecer inquisitória, mas não é,
porque ele sabe perfeitamente que a Sãozinha era muito amiga da
Alexandrina e que tinha sido dirigida do Padre Pinho, por isso mesmo a
insistência é compre-ensível. Ele acrescenta:
― « O
Padre Agostinho Veloso diz também que a Alexandrina, sob a direcção
do Padre Mariano Pinho, teve manifestações e fenómenos místicos,
tais como o pedido de Consagração do mundo a Nossa Senhora, o
convite para a crucifixão total, e ele acrescenta: “Eu tenho razão
de afirmar que tudo isso nada mais foi do que uma mistificação: não
foi Jesus que a convidou. Foi o imprudentíssimo confessor que a
levou a isso, com fins que nada têm a ver com a glória de Deus”. O
mesmo termina dizendo: “Eu conheci-o muito bem e sei do que ele é
capaz”. Que pensa a Senhora destas afirmações? »
Calmamente Sãozinha responde ao interrogador do Tribunal:
― « No
que diz respeito aos fenómenos místicos, eu estou convencida deles.
Eles foram o resultado, não duma mistificação por parte do Director
espiritual, mas vindos de Jesus.
Não
se trata duma mistificação ― insiste a
Sãozinha. Quando pela primeira vez ela ouviu os convites de
Jesus, ela nem os com-preendeu, razão pela qual ela perguntou ao
Padre Mariano Pinho o que significavam aqueles convites.
Eu
não acredito que o Padre Agostinho Veloso conhecesse bem o Padre
Mariano Pinho, senão não teria feito tais afirmações ».
O
calvário da Sãozinha ainda não termina aqui: o interrogador anuncia
outros dizeres do Padre Veloso:
― « O
Padre Agostinho Veloso disse que a irmã da Alexandrina, Deolinda, se
tornou sua confidente e sua secretária nas comunicações com o
Director espiritual. Mas o Padre Agostinho Veloso inclina-se a
acreditar que ela foi cúmplice na mistificação, na qual o Padre a
incluiu. Diga-nos, minha Senhora, que tão bem conheceu a Deolinda e
tão bem conheceu a Alexandrina, o que pensa destas afirmações ».
A
Sãozinha, calma como sempre, respondeu simplesmente:
― « Eu
posso dizer que nem uma nem outra teriam sido capazes de se deixarem
manobrar dessa maneira. Eu o sei por conhecimento pessoal ».
A
última frase proferida foi como uma guilhotina: decapitou
completamente as veleidades que pudesse ter ainda o
interrogador ― que aliás actuava para o bem da causa da Alexandrina.
Mas a
Sãozinha tem ainda algo mais a dizer. Com uma certa altivez,
provavelmente, ela afirma perante o Tribunal:
― « Eu estou persuadida que o Padre Agostinho Veloso pensaria
diferentemente se tivesse estudado o caso com a devida atenção ».
Esta
frase resume perfeitamente tudo quanto disse até aqui sobre o Padre
Agostinho Veloso.
Deolinda, irmã da
Alexandrina
Como as
quarenta e sete outras, a Deolinda, depois de prometer dizer a
verdade, nada mais do que a verdade, foi interrogada pelo
Tribunal.
Depois
de muitas outras perguntas ― a Deolinda foi sem dúvida a pessoa que
melhor conheceu a Alexandrina ― chegou o momento fatídico das
perguntas sobre as afir-mações do Padre Veloso.
― « O
Padre Agostinho Veloso afirma que o Padre Ma-riano Pinho, para
conseguir os seus intentos, dizia às outras almas que ele dirigia,
que ele fazia a mesma coisa com a Alexandrina. O que pensa disto? »
Esta
entrada de rompante não impressionou a boa Deo-linda, que respondeu
simplesmente:
― « O
que ele fazia com as outras almas não sei; quanto a mim, ele nunca
me disse coisas desse género. Também nunca vi aqui nada que a isso
se assemelhasse. Eu não posso acreditar que ele fosse capaz de
incitar fosse quem fosse a pecar ».
Depois
de afirmar que sua irmã sempre fora escrupulosa-mente obediente aos
seus Directores espirituais, uma per-gunta salta imediata, da boca do
interrogador:
― « A Alexandrina teria ela sido capaz, para obedecer ao seu
Director espiritual, de cometer actos contra a cas-tidade? »
As
respostas da Deolinda são sempre ― ou quase sempre ― curtas, mas de
grande densidade; por isso mesmo convém lê-las calmamente, quase
meditá-las.
― « Eu
estou certa que o Director espiritual ele próprio seria incapaz de
lhe sugerir tais actos, como estou segura que ela nunca os teria
praticado, se isso lhe tivesse sido pedido ».
Vem a
seguir uma pergunta sobre o Padre Mariano Pinho:
― « Conhece
bem a vida moral do Padre Mariano Pinho? »
― « Conheço
aquela que diz respeito ao número de anos em que foi meu Director
espiritual... »
O
Tribunal interroga-a depois sobre o Padre Veloso,
perguntando-lhe:
― « Que
pensa desta afirmação do Padre Agostinho Veloso: “A sua vida moral
de sacerdote, com as filhas espirituais, é gravemente suspeita. Foi
por causa de faltas nesse género que os seus Superiores decidiram
enviá-lo para o Brasil”? »
Resposta categórica da irmã da Alexandrina:
― « Eu não sei o que possa ter acontecido com outras pessoas; mas,
segundo aquilo que sei dele, eu digo que é impossível que isso seja
verdade. Ele mostrou a sua virtude, submetendo-se à vontade dos seus
Superiores ».
Parecendo não satisfeito, o interrogador pergunta ainda:
― « O
Padre Agostinho Veloso disse: “Eu conheci bem esse Padre e sei que
ele levava as suas penitentes, as mais histéricas, pela via da falsa
mística, à prática de actos sexuais com ele e à mistificação através
de visões”. Que pensa disto? »
Com
simplicidade, Deolinda responde:
― « Eu
fui dirigida por ele mas nunca tive a impressão de ser histérica e
nunca ninguém me acusou disso. Isso parece-me impossível, pelo que
sei dele, que tenha dirigido as suas penitentes por uma via de falsa
mística, com o fim citado. Ele sempre tratou toda a gente, grandes
ou pequenos, com respeito e caridade ».
O
Tribunal insiste:
― « O
Padre Agostinho Veloso diz ter ouvido dizer a certas vítimas, que
quando elas resistiam, ele lhes dizia que fazia a mesma coisa com a
Alexandrina ».
Não
deve ser fácil ouvir dizer assim tão mal duma irmã, sem se revoltar,
sem mostrar um desejo de repulsa... Deo-linda permaneceu calma e
serenamente respondeu:
― « Isso
parece-me falso. Parece-me impossível da parte do Padre Mariano
Pinho. No que diz respeito à tal Ema, devo dizer o seguinte: quando
me encontrei com ela, e creio que apenas aconteceu duas vezes,
deu-me a impressa de ser alguém duma piedade exagerada e mal
formada. Mais tarde ouvi dizer, por outras pessoas, que ela era uma
tarada ».
Padre Abel Guerra, S. J.
Esta
testemunha foi interrogada “sobretudo para que respondesse às
acusações do Padre Agostinho Veloso” e não porque conhecesse
verdadeiramente a Alexandrina que “apenas visitou uma vez em
1934”.
Da
mesma idade que a Alexandrina, pois nasceu em Lavacolhos, distrito
de Castelo Branco, a 4 de janeiro de 1904, o Padre Abel Guerra
afirma, antes de mais:
« Tenho devoção à Alexandrina... recomendei-me a ela para obter
graças... e desejo a sua beatificação para a glória de Deus e
triunfo da verdade. »
Depois,
respondendo ao tribunal que lhe perguntara se conhecia bem o Padre
Veloso, a sua resposta é categórica:
― « Sim, conheço-o muito bem. »
Este
“muito bem” é na boca do Padre Abel Guerra muito importante, visto
que sendo também Jesuíta, não se furta ao que este “muito bem” possa
ter como consequências nas questões futuras.
― « O Padre Agostinho Veloso disse aqui categoricamente
― diz
o interrogador ― que a Serva de Deus não sofreu de nenhuma
mielite, que o podia provar com documentos que não forneceu. Que
pensa disso?
― « Antes de mais, não tenho a mínima ideia de qual do-cumento se
possa tratar, e em segundo lugar, admira-me uma tal afirmação do
Padre Veloso, porque muito cate-górica e estranha. »
O
Tribunal faz então ao Padre Abel Guerra uma pergunta muito judiciosa
e interessante:
― « Parece a Vossa Reverência que o Padre Agostinho Ve-loso seja uma
testemunha parcial ou imparcial nas rela-ções entre o Padre Mariano
Pinho e a Serva de Deus? »
A
resposta do Jesuíta é sibilina:
― « Penso que é uma testemunha parcial, e penso igual-mente que nem
tão pouco deveria ser testemunha neste processo pelas razões que
depois direi. »
O
Tribunal não procurou saber logo essas “razões” do Padre Guerra;
continuou, sem se dispersar, o interrogatório por ele previsto.
― « O Padre Agostinho Veloso disse que a vida moral deste sacerdote ― o
Padre Mariano Pinho ― com as suas dirigidas era gravemente
suspeita. Que responde a esta acusação? »
― « Pelo que sei sobre o Padre Pinho e por aquilo que sei doutras
fontes, penso que esta afirmação não tem fundamento, antes pelo
contrário é essa afirmação que me parece gravemente suspeita ».
Homem
culto e conhecedor, o Padre Abel Guerra, também ele escritor,
responde com segurança e aprumo às interrogações do Tribunal
eclesiástico, porque conhece “muito bem” o seu colega Veloso, assim
como conhece o Padre Mariano Pinho.
― « O Padre Agostinho Veloso ― continua o
interrogador ― afirma que o Padre Mariano Pinho era um tarado
sexual, que dirigia as penitentes, mais ou menos histéricas, por
vias de falsa mística, à maneira de Miguel Molinos, pela prática de
actos sexuais com ele e à mistificação pelas visões. Que nos pode
dizer a respeito destas afirmações? »
― « Antes de mais, por aquilo que sei do Padre Mariano Pinho, nada
me diz que tenha sido um tarado sexual, antes pelo contrário e
admira-me bastante uma tal afirmação. Por aquilo que conheci, por
ter convivido com ele, durante mais ou menos dois anos, durante os
quais o conheci, e ainda por testemunhos de muitas pessoas que o
conheciam e o estimavam, tudo isso me levou a crer que fosse um
homem de Deus e uma alma de rara virtude, o que não se acorda com o
tratamento de tarado sexual. Pode ser, visto que era uma alma
simples e sem malícia, que uma vez ou outra tenha cometido qualquer
imprudência, mas sem a mínima malícia. »
Como o
intuito de Tribunal era de saber a verdade, o interrogador continua:
― « O Padre Agostinho Veloso continua a afirmar que foi por causa
destes abusos gravíssimos, deste género, que os Superiores para não
o expulsarem da Companhia, decidiram enviá-la para o Brasil.
Far-nos-ia prazer, digo, que Vossa Reverência nos dissesse
concretamente o que sabe a este respeito. »
O Padre
Abel Guerra sabe, e como sabe, vai calmamente e longamente explicar
no decorrer das duas cessões de interrogatório às quais participou.
Ao
lermos as suas declarações, podemos dizer que não há melhor água do
que aquela que sai da fonte, mesmo onde ela nasce... e brota pura!
― « Não creio que tenham pensado em expulsá-lo, porque isso só se
poderia fazer depois dum processo canónico, no qual fosse provada a
existência de graves crimes, processo que não teve lugar, e que nem
esteve, penso, na ideia dos Superiores a provocá-lo.
No
que diz respeito aos abusos gravíssimos de que fala o Padre
Agostinho Veloso, o próprio Padre Provincial que o enviou para o
nosso Seminário de Macieira de Cambra, onde eu era Reitor,
escreveu-me para me pôr ao corrente da situação, que era que
aparentemente nada havia de grave, ao máximo qualquer imprudência e
que vinha para lá privado da faculdade de confessar. A partir dum
certo momento, visto que na casa estavam alguns que queriam
confessar-se a ele, eu pedi ao Padre Provincial de lhe conceder a
faculdade de confessar naquela casa, quando lhe pedissem, coisa que
me concedeu facilmente.
Penso que isso não teria acontecido, se ele estivesse convencido que
o Padre Mariano Pinho era réu de graves crimes. »
Depois
disto, algumas correcções que lhe parecem oportunas, pois esclarecem
certos pontos do “discurso” do Padre Veloso:
― « Pelas afirmações do Padre Agostinho Veloso poder-se-ia concluir
que o Padre Mariano Pinho foi enviado imediatamente de Braga para o
Brasil, mas isso não se passou assim, porque ele esteve ainda
durante quatro anos em Macieira de Cambra. Creio que a razão pela
qual foi enviado para o Brasil, fosse aquela de o libertar do
ambiente e de libertar os Superiores daquela dificuldade. »
À busca
de afirmações sensatas e, para que deste imbróglio particular saia a
verdade, o Tribunal continua, e o interrogador diz ainda ao Padre
Abel Guerra:
― « P. Padre Agostinho Veloso continua: “Ouvi de algumas das suas
vítimas que, quando resistiam aos seus desejos eróticos, ele as
convencia dizendo que fazia a mesma coisa com a Alexandrina”. Que
diz Vossa Reve-rência acerca desta afirmação? »
― « Por aquilo que sei sobre o Padre Mariano Pinho, considero essa
afirmação absolutamente falsa e de facto incompatível com o seu
procedimento moral. »
A
Tribunal insiste:
― « O Padre Agostinho Veloso era amigo ou inimigo do Padre Mariano
Pinho? »
A
resposta que vai dar o Padre Abel Guerra é importantíssima, pois vai
mostrar o verdadeiro carácter, como já acima sublinhei, do Padre
Veloso. Ouçamo-lo:
― « O Padre Agostinho Veloso era adversário e continua a sê-lo do
Padre Mariano Pinho. Ainda há bem pouco tempo disse a um sacerdote:
“Acuso o Padre Mariano Pinho para me defender”, referindo-se à
deposição que fez neste Tribunal. »
Depois
desta afirmação que é também uma acusação, o Padre Abel Guerra
lamenta que o Padre Mariano Pinho não possa defender-se ele mesmo de
tão graves acusações e mesmo que nenhuma voz “autorizada” se faça
ouvir claramente para o defender.
Depois,
a pedido do tribunal explica a sua visita, em 1934, à “Serva de
Deus” e as impressões que nesse tempo recolheu:
― « Quando fui visitá-la, fui lá em estudo, para verificar aquilo
que tinha estudado em ascética e místi-ca ― note-se que o Padre
Veloso não julgou bom fazê-lo ― e concluí que não dava sinais de
histerismo, digo, de histeria, ou de doença semelhante, e a mesma
conclusão tirei dos seus escritos, sobretudo das cartas, que eu li e
que me impressionaram pela sua simplicidade e breves. Ainda hoje
conservo a mesma opinião... »
Mas o
Tribunal parece não ter esgotado todas as perguntas referentes ao
Padre Agostinho Veloso, por isso mesmo continua a pesquisa,
perguntado ao Jesuíta:
― « O Padre Agostinho Veloso diz textualmente: “Tenho razão para
afirmar que os fenómenos místicos, que são atribuídos à Serva de
Deus, nada mais são do que mistificação. Não foi Jesus que os
suscitou, mas o imprudentíssimo director, digo, confessor, que os
suscitou com fins que nada têm a ver com a glória de Deus. Eu
conheci-o bem e sei daquilo que é capaz”. Que diz Vossa Reverência
desta afirmação? »
― « Acho-a sem fundamente concreto e gratuita. Penso que não podia
ser uma mistificação. Quando fui vê-la, tive a impressão que ela
tinha um profundo amor a Deus, como nunca tinha visto em ninguém.
Por uma espécie de ideia fixa, ela vivia toda absorvida em Deus,
todas as suas palavras e atitudes eram a expressão contínua do amor
que ela sentia por Deus. Não me parece que ela pudesse prestar-se a
uma mistificação, nem activa, nem passiva, porque não era nem uma
doente, nem uma histérica, antes pelo contrário, era uma pessoa
psiquica-mente normal. Quanto ao Padre Mariano Pinho, não o julgo
capaz de levar a Serva de Deus à mistificação. »
O
Tribunal fala depois da Deolinda, que o Padre Veloso acusa de
cumplicidade com sua irmã e com o Padre Pinho... A resposta é curta
mas clara:
― « Penso que essa afirmação não tem fundamento. »
Sobre
as ordens dadas pelo Director espiritual à Serva de Deus e postas em
causa pelo Padre Veloso, quando afirma ao Tribunal que “pensa que
esta fosse totalmente submetida a ele, que era um tarado sexual”, o
Padre Guerra Guerra afirma categoricamente:
― « Penso que essa afirmação é simplesmente uma monstruosidade. »
Mais
adiante e, para terminar a sua intervenção remarcável junto do
Tribunal, o Padre Abel Guerra faz uma espécie de resumo de quanto
sabe ou ouviu dizer sobre a então Serva de Deus:
― « Sei que a opinião geral é que ela seja uma grande santa. Muitas
pessoas de grande virtude e valor inte-lectual e moral mo disseram: o
Senhor Cardeal Patriarca,
o Padre José Aparício, S. J.,
Monsenhor Men-des do Carmo,
Padre Humberto Pasquale,
sdb, Padre Alberto Gomes e Monsenhor Vilar.
A
razão desta fama está na sua virtude, digo, na realidade das suas
virtudes. Esta fama não mais diminuiu, antes pelo contrário, tem
vindo sempre a aumentar. Nada foi feito para promover esta fama, bem
pelo contrário, muito foi feito para a destruir e denigra-la.
Pessoalmente penso a Serva de Deus absolutamente digna das honras
dos altares.
Tudo
isto sei por conhecimento directo e indirecto. »
Poderia
pensar-se que aqui termina o depoimento do Padre Guerra, mas ele
ainda tem mais a dizer, ainda tem mais explicações a dar. Ouçamo-lo:
― « Sei que muito foi feito, dito e escrito contra a fama e as
virtudes da Serva de Deus, enquanto viva e depois da sua morte.
Foi
dito que o caso de Balasar era uma mistificação e o seu Director foi
acusado de conivência nesta mistifi-cação e ao mesmo tempo acusado de
graves pecados contra o sexto mandamento, como aliás se confirma
atra-vés de deposições aqui feitas.
Entre as pessoas que se opuseram sobressai o Padre Agostinho Veloso
que influenciou o Dr. Abel Pacheco, o Dr. Gomes de Araújo e os
Superiores da Companhia de Jesus desse tempo, assim como Sacerdotes
e muitas outras pessoas.
O
Padre Agostinho Veloso ainda está vivo ― estávamos
então em 1968. Nesta sua acção, a meu ver diabólica, apaixonada e
pertinaz, ele fez-se acusador e propagador de supostos crimes do
Padre Mariano Pinho.
Presumo que a razão desta sua atitude seja uma observação que o
Padre Mariano, no tempo em que os dois estavam a residir no Porto,
lhe fez, a propósito de qualquer atitude menos correcta dele, e daí
saiu o mal-entendido, que depois se transformou em hostilidade
estimulada pela inveja. Tudo isto sei por conhecimento directo. »
Para
que as dúvidas não pudessem vir ao decima, o Padre Abel Guerra
termina a sua deposição, sobre este assunto tão delicado, de maneira
categórica, não porque tivesse ouvido falar, ou porque alguém lhe
dissesse, mas “por conhecimento directo”.
** * *
*
Ficarei
por aqui no que diz respeito às testemunhas que foram interrogadas
pelo Tribunal eclesiástico, aquando do Processo diocesano para a
causa de beatificação e canonização da Alexandrina Maria da Costa.
O Padre Payère
Parece-me judicioso incluir aqui o testemunho do Padre R. Payère,
sacerdote francês da diocese de Versalhes, e escritor, que visitou a
Alexandrina no dia 4 de dezem-bro de 1945.
Diz ele
em carta enviada para Balasar:
« Alexandrina Maria da Costa que eu vi (...), pareceu-me uma
belíssima alma, completamente unida a Deus, uma hóstia pura,
silenciosa e alegre no seu sofrimento profundo que exigem os pecados
do mundo, em estrei-ta união com Aquele que é por excelência o
Cordeiro de Deus. Alexandrina é também o cordeiro de Deus que expia
pelos pecados do mundo ».
Mais
adiante, na mesma missiva o mesmo sacerdote diz ainda:
« O
seu olhar e o seu sorriso estão cheios de bondade, de simplicidade e
de caridade suave; e portanto ela so-fre muito porque de quando em
quando, um espasmo doloroso crispa os seus traços e vela o seu olhar
um curto momento, o tempo de tudo oferecer a Deus sobre o altar da
sua alma e logo após a serenidade volta e a paz invade de novo a
face da Alexandrina ».
Ao
terminar a sua carta, que tem a data de 5 de dezem-bro do mesmo ano,
o mesmo sacerdote escreve, como para prestar homenagem à “Doentinha
de Balasar”:
« Durante uma hora ela permaneceu imóvel, não deu o mínimo sinal de
impaciência, nem de fadiga.
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Sorriso, bondade, condescendência,
solicitude de Deus: eis tal como ela me pareceu durante esta hora.
A
necessidade de falar por intermédio dum intérprete não me permi-te
formular um testemunho mais completo, o que seria talvez dife-rente
se a conversação fosse directa.
Mas
é verdade que as almas desta têmpera falam directa e silenciosamente
a linguagem de Deus ».
* * * *
*
O que
aqui fica dito não deve ser olhado como uma condenação do Padre
Agostinho Veloso: só Deus tem direito de julgar cada um de nós, pois
todos somos pecadores.
Bom é
lembrar que, se assim aconteceu, foi porque isso estava nos planos
de Deus, único a saber “escrever direito por linhas tor-tas”.
Podemos
também pensar que o Padre Veloso tenha sido, involuntariamente, no
momento do Processo, sobretudo, o “cardeal-diabo” da causa da
Alexandrina e da eventual futura do seu bom e santo primeiro
Director espiritual, o Padre Mariano Pinho.
É bom
« lembrar aqui ― como adverte o professor José Ferreira ― que
o Processo da Alexandrina, ilibando o Padre Pinho das infames
acusações de que foi vítima, deixa muito facilitada a tarefa para o
seu futuro processo ».
O Padre
Agostinho Veloso não foi prudente nas suas afirmações; não foi
caridoso nas suas insinuações; mostrou-se presunçoso, como dele
afirmou o Cardeal Cerejeira ao tomar posições não documentadas,
podendo causar prejuízos incalculáveis...
« Em
toda a boa eleição, quanto é da nossa parte, o olhar da nossa
intenção deve ser simples, tendo somente em vista o fim para que sou
criado, a saber, para louvor de Deus nosso Senhor e salvação da
minha alma; e assim, qualquer coisa que eu eleger deve ser para que
me ajude para o fim para que sou criado, não subordinando nem
fazendo vir o fim ao meio, mas o meio ao fim ».
Agora
que os três ― a Alexandrina, o Padre Mariano Pinho e o Padre
Agostinho Veloso ― foram chamados à Mansão celeste ― onde não
existem nem rivalidades nem rancores, e sabendo-se que “entre a
ponte e a água há uma certa distância” ―, o
que melhor poderemos desejar é que os três beneficiem da total visão
beatífica e intercedam por nós junto de Deus.
Afonso
Rocha
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