O Padre Agostinho Veloso
e a Alexandrina
I
Os sacerdotes e a
Alexandrina
« Tinha
muito respeito pelos sacerdotes ».
Os
sacerdotes que de perto ou de longe lidaram com a Alexandrina foram
numerosos: Jesuítas, Espiritanos, Salesianos, Beneditinos,
Dominicanos, Franciscanos e outros mais ainda, sem contar os párocos
de diversas paróquias que bastas vezes a visitavam; uns por
curiosidade e outros em busca de conselhos práticos ou espirituais.
É que a
Alexandrina foi também vítima pelos sacerdotes, os outros “Cristos”
na terra...
O
seu primeiro Director espiritual ― o Padre Mariano Pinho ― era
jesuíta e o seu segundo ― o Padre Humberto Maria
Pas-quale ― salesiano italiano de S. João Bosco...
Alguns
destes sacerdotes que visitaram a “Doentinha de Balasar”, marcaram a
vida dela de maneira indelével: o Padre Mariano Pinho, já citado,
porque foi o seu primeiro Director espiritual; o Padre Humberto
Pasquale que foi o seu segundo; o Padre Terças, porque publicou uma
relação sobre ela que teve grandes reper-cussões e causou a partida
do seu primeiro Director; o sacerdote Jesuíta António Durão Alves,
que a visitou por mando do Arce-bispo de Braga, e a quem a
Alexandrina deixou “uma impressão favorável”; o Cónego Manuel Vilar,
que a visitou por mando da Santa Sé; o Cónego António Gonçalves
Molho de Faria, que tam-bém foi presidente da comissão que emitiu um
parecer negativo (este sacerdote, que depois testemunhou durante o
processo diocesano, não só reconheceu o seu erro, mas tornou-se um
fervo-roso defensor da Alexandrina); e para terminar Monsenhor
Men-des do Carmo, que, por desígnios da divina Providência, assistiu
à morte da Bem-aventurada de Balasar.
A lista
seria longa e porventura maçadora, se aqui tivesse de no-mear todos
aqueles sacerdotes que frequentaram a casa do Cal-vário, em Balasar,
e não só portugueses, como espanhóis, fran-ceses e doutras
nacionalidades.
Ainda
que pareça surpreendente, vou-me interessar mais particularmente por
um sacerdote jesuíta que nunca foi a Balasar, porque nunca quis lá
ir, mas que teve, por causa das suas atitudes, palavras e escritos,
uma grande influência, não só na vida da Alexandrina, mas também e,
mais particularmente, naquela do venerando Padre Mariano Pinho,
primeiro Director espiritual da Alexandrina, como já foi dito.
Trata-se do Padre Agostinho Pinto Veloso.
Mas quem foi ele?
« Jornalista de garra e verbo camiliano »
Nasceu
em Favaios, concelho de Alijó, em 20 de Novembro de 1894 e era filho
de Bento Pinto Veloso e de Amélia Teixeira. Depois dos estudos
primários, começou a sua vida social como « empregado do
comércio, em Matosinhos », antes de “sentir” a vocação
sacerdotal e de começar os estudos preparatórios no seminário do
Porto no ano lectivo de 1914-1915.
Depois
de ter cursado teologia “com muita distinção”, recebeu a
ordenação sacerdotal a 30 de Julho de 1922.
«Logo a seguir foi-lhe confiada a direcção interina das Oficinas de
S. José, as quais dotou com importantes melhoramentos. Permaneceu à
frente delas durante mais de um ano, muito se empenhando na vinda
dos actuais directores, os membros da Sociedade de Dom Bosco (salesianos)».
«Dedicando-se depois à vida paroquial, pastoreou com notável zelo as
freguesias de Teixeira e Teixeiró (Baião), Santa Marinha do Zêzere
(Baião) e Pedreira (Felgueiras), na diocese do Porto. Na de
Teixeira, abandonada havia mais de vinte anos, restaurou a igreja
paroquial e deu grande impulso a diversas instituições de natureza
religiosa e social e em Pedreira conseguiu a ligação da igreja com a
estrada mais próxima e promoveu a exploração de água para a povoação
e a construção de um fontanário».
«Ao
mesmo tempo que se dedicava à promoção religiosa, cultural e social
dessas populações e se tornava pregador muito aceite, começou a
entregar-se a actividade literária em traduções e adaptação de obras
formativas, e mesmo ao jornalismo, mantendo uma polémica acerca de
“Divórcio ou adultério” nas colunas de
Fradique, de Maio a Julho de 1935», como nos conta o seu
biógrafo.
A
“Enciclopédia Verbo” diz que, «para maior realização pessoal e
apostólica, o jovem Padre Agostinho, entrou na Companhia de
Jesus a 7 de Dezembro de 1937», começando o seu noviciado, perto
de Guimarães, em Santa Marinha da Costa.
Passados dois anos, a 8 de Dezembro de 1939, fez profissão simples
perpétua.
Mas o
Padre Agostinho tem sede de saber, deseja conhecer mais, aumentar os
seus conhecimentos, o que é louvá-vel, e, por isso mesmo, durante
«os três anos seguintes, 1939-1942, dedicou-os a ampliar os estudos
superiores de Filosofia e Teologia no Instituto Beato Miguel de
Carvalho, de Braga, actualmente Faculdade Pontifícia».
Talvez
porque julgasse insuficientes os estudos até aí feitos em Portugal,
o Padre Agostinho Veloso, «no Verão de 1942 dirigiu-se a
Salamanca, onde permaneceu até Julho de 1943, ocupado no estudo dos
problemas de Ascética e Mística, em especial no estudo do
Instituto e do Direito da Companhia de Jesus e dos Exercícios
Espirituais de Santo Inácio de Loyola».
Sublinhei aqui as palavras “Ascética e Mística”, porque mais tarde
terei que falar destas matérias, quando tiver que explicar ― ou
tentar explicar ― o “julgamento” que o Padre Veloso fez sobre a
Alexandrina de Balasar.
É bom
lembrar desde já, igualmente, que nos Exercícios de Santo Inácio de
Loyola, fundador da Companhia de Jesus, há um capítulo que trata do
discernimento dos espíritos, capítulo muito importante que todos os
peritos em Ascética e Mística conhecem.
Mas,
voltemos à notícia biográfica do sábio Jesuíta.
«Depois de quase 6 anos de formação ascética e filosófica ― explica
a Enciclopédia Verbo ―, voltou ao campo de apostolado, no Verão
de 1943, como redactor da revista Brotéria, em Lisboa», «à
qual deu apreciada cola-boração ― diz outra fonte ―, avultando
vários ensaios de cunho filosófico, científico, filológico e
apologético».
Desde
logo a actividade literária do Padre Veloso vai tomar novos rumos,
vai aumentar e dar a conhecer um « jornalista de garra e verbo
camiliano », um escritor prolífico e admirado, assim como um
poeta delicado e sensível.
Escreveu em jornais e revistas, usando por vezes os pseudónimos de
C. de Turcifal, Carlos Alberto de Lemos, ou Padre Anselmo, e com
eles assinou algumas obras.
Entre
outras publicações periódicas colaborou nos diários Novidades,
Diário da Manhã, e Diário Popular, e nas revistas
Mensageiro do Coração de Jesus, Acção Médica e Lumen — Revista
de Cultura para o Clero; no semanário Fradique
sustentou vigorosa e longa polémica sobre o divórcio, como acima foi
dito.
Na sua
vasta obra cultural sobressaem os trabalhos seguintes: Uma vítima
da seita negra (versão livre e adaptação), Força e fraqueza
do Socialismo (trad.); Antes que cases (Considerações para os
noivos); Esta palavra Lisboa (ensaio sobre o nome, da capital);
A «loucura» dum santo; Quem são os Jesuítas?; A mensagem
de Ozanam, A mensagem de Leonardo Coimbra; Antero e os seus
fantasmas; Aspectos cruciais do problema de Fátima; Ainda algumas
confusões e erros sobre Fátima; Deus, o Homem e o Universo
(trad., na colecção «Filosofia e Religião»); Os problemas do
pensamento à luz do pensamento de Deus; Naturalismo rotário e
sobrenaturalismo cristão; Nas encruzilhadas do pensamento (Diálogos
sobre filosofia moderna), 2 vols., 1 – Sob o signo de
Descartes; II – Sob o signo de Husserl; O problema do mal;
Réplica a uma diatribe (a propósito do caso de Goa); Mistificação em
arte; A originalidade em arte; Responsabilidades do homem católico
na hora presente ; Pasteur homem de fé ; A farsa surrealista; A
desrealização surrealista. Das suas obras poéticas, onde a
inspiração é fluente e espontânea, mencionar-se-ão: Portugal tão
pequenino; Cinco cânticos a Santa Teresinha; Parábolas de sempre;
Vitral antigo.
Mas o
Padre Veloso tinha ainda outras actividades, estas mais ligadas ao
seu ministério, como explica o cronista da Companhia de Jesus:
« Desde o princípio da sua carreira sacerdotal consagrou-se com
igual êxito e aceitação ao ministério do púl-pito, percorrendo em
frutuosas missões populares, tríduos, novenas e semanas de pregação,
não só no con-tinente mas também as ilhas adjacentes, e dando
exercícios espirituais ao clero e a diversas classes da sociedade e
pronunciando numerosas e muito apreciarias palestras e conferências
em diversos centros e institutos cien-tíficos e culturais ».
Mais
adiante o mesmo autor diz ainda:
« Desde 1944 ocupou a cátedra de professor de questões filosóficas
no Instituto de Serviço Social, em Lisboa; e desde 1955 fez parte do
júri para a atribuição dos prémios literários do S. N. I. ».
Resumindo aqui quem foi o Padre Agostinho Veloso, termino,
utilizando a afirmação da Enciclopédia Verbo: « Foi em grande
parte um autodidacta que, até ao dia em que um atropelamento o
vitimou ― em Lisboa, em 22 de Fevereiro de 1970 ―, sopesava
criticamente tudo o que lia. Operário evangélico incansável, foi
orador popular, conferencista culto, poeta de lira ingénua,
polemista dialéctico, ensaísta não raro brilhante, e crítico de arte
por vezes pouco sensível aos elementos estéticos: cegava-o o empenho
da defesa da fé, da verdade, e da pátria, tornando-se por vezes rude
e até bravio ele que chegava a enternecer-se até às lágrimas ».
Como
Santa Teresa de Ávila, penso que também ele podia exclamar:
« Quando estava nos contentamentos do mundo, lembrando-me do que
devia a Deus, era com pesar; quando es-tava com Deus, as afeições do
mundo me desassossegavam ».
E
ainda, da mesma Doutora da Igreja:
« Tudo aproveita pouco se, perdida totalmente a confiança em nós
mesmos, não a pomos em Deus ».
Interrogações
« Andava pois já a minha alma cansada e, embora quisesse, não a
deixavam descansar os ruins costumes que tinha ».
A
notoriedade criada à volta do ser humano é como uma faca de duplo
gume: pode servir de fulcro para duas ca-racterísticas humanas
opostas: a vaidade ― que é mãe da soberba e da auto-satisfacção ― ou
a humildade, que provém do verdadeiro amor.
Os
sucessos obtidos pelo “autodidacta” Padre Veloso não teriam
suscitado nele uma espécie de “auto-satisfacção”, de vaidade, de
teimosia e de egocentrismo?
Não
teria ele esquecido este sensato conselho de Santa Teresa de Ávila,
que certamente ele leu quando estudou Ascética e Mística em
Salamanca, e que diz respeito aos dons recebidos do Senhor?
« É
mister haurir daqui forças de novo para servir e procurar não ser
ingrato porque, com essa condição, as dá o Senhor. Se não usamos bem
do tesouro e do alto estado em que nos põe, Ele no-lo tornará a
tirar e ficaremos muito mais pobres; e Sua Majestade dará as jóias a
quem com elas brilhe e aproveite a si e aos outros ».
Tendo
um grande respeito pelos sacerdotes, custa-me pôr aqui estas
questões, visto não querer de maneira ne-nhuma “julgar” o
procedimento do valoroso sacerdote, cujos textos estudei ― poesia e
alguma prosa ― nos meus longínquos tempos de seminarista. Mas a
verdade histórica deve aqui ser salvaguardada e aplicada, tanto
quanto possível, a regra fixada por Santo Inácio de Loyola, nos seus
“Exercícios espirituais”, a saber que « se há-de pressupor que
todo o bom cristão deve estar mais pronto a salvar a proposição do
próximo que a condená-la; se a não pode salvar, inquira como a
entende, e, se a entende mal, corrija-o com amor; e se não basta,
busque todos os meios convenientes, para que, entendendo-a bem, se
salve ».
Interrogado a seu respeito, o Cardeal Manuel Gonçalves Cerejeira,
que bem o conheceu, disse: “Eu acho-o dema-siado presunçoso”.
O mesmo
venerando Cardeal diz ainda:
« No
que diz respeito ao Padre Agostinho Veloso, com o qual mantive
sempre boas relações, considero-o como uma pessoa dos extremos,
desprovido de julgamento sereno e equilibrado sobre as pessoas e as
coisas, e por conseguinte repentino nas suas conclusões ».
A
questão posta acima, encontra nestas frases autorizadas do Cardeal
Cerejeira a resposta adequada.
Mas
porquê estas interrogações e afirmações sobre o Padre Agostinho
Veloso, poderão perguntar os leitores, e com certa razão?
É que o
Padre Veloso interveio na vida da Alexandrina de Balasar, sem tão
pouco a conhecer, sem nunca a ter visitado, baseando-se
apenas
no que ouvia e, pior ainda talvez, porque não gostava do
Padre Mariano Pinho, também ele jesuíta.
Seria
porque este lhe fazia sombra, visto ser também um bom escritor, um
exímio e famoso pregador e um grande director de almas?
Seria
por rivalidades directivas na revista Brotéria que ambos
ocuparam postos importantes ― de Director, o Padre Pinho; de
redactor, quanto ao Padre Veloso?
Sabemos
que o Padre Pinho não fazia parte dos amigos do Padre Veloso, e
procurámos saber porque razão.
Na
página 106 do seu Cristo Gesù in Alexandrina, o Padre
Humberto está a recolher textos sobre a proibição de o Padre Pinho
visitar a Alexandrina e de a esta terem sido pedidas as cartas que o
seu director espiritual lhe enviara. Então numa nota dá este
esclarecimento:
« O
Padre Pinho, tempos atrás, tinha feito uma obser-vação a um confrade:
Padre Veloso. Este conservou-lhe uma aversão surda. Um dia, na sua
ausência foi-lhe ao quarto, abriu-lhe a correspondência e encontrou
então uma carta que oferecia ocasião a interpretações senti-mentais;
juntou-lhe insinuações pouco delicadas e enviou tudo aos superiores.
A acusação teve triste seguimento, porque o Padre Pinho foi afastado
com restrições no exercício do seu ministério ».
A carta
viria duma tal Ema, uma pessoa desequilibrada.
No
mesmo livro, na página 140, igualmente numa nota, cita-se uma carta
do Dr. Azevedo, de 23 de agosto de 1943, onde este diz que o Padre
A. Veloso fora « proibido de pregar nas dioceses de Lamego e do
Porto ». Só uma muito grave razão justificaria tal medida tão
pouco abonadora das qualidades do visado.
É certo
e provado que o Padre Veloso, sendo inimigo do Padre Pinho, foi
também inimigo da Alexandrina de Bala-sar, inimigo até à morte
repentina que o vitimou em plena rua, em Lisboa.
Uma
outra certeza tenho: esta “birra” era própria ao Padre Veloso, visto
que o Padre Mariano Pinho era incapaz de odiar alguém, mesmo se
viesse a saber que fora acusado de “tarado sexual”.
São
João da Cruz, falando de certas almas ― talvez como a do Padre
Veloso ― diz:
« Outras é uma lástima: trabalham e afadigam-se muito e voltam para
trás, e põem o fruto do aproveitamento no qne não aproveita, mas
estorva ».
A
grande Teresa, Doutora da Igreja afirma também « que somos tão
miseráveis e tão inclinados às coisas da terra, que mal poderá
aborrecer, de facto, tudo o que é cá de baixo e com grande desapego,
quem não entender que tem algum penhor lá de cima ».
Deixo
por aqui as “questões” e vou ir mais adiante e expor o motivo destas
páginas.
Motivo
« Pressuponho haver em mim três pensamentos, a saber: um que é
propriamente meu, que sai da minha pura liberdade e querer; e outros
dois que vêm de fora: um que vem do bom espírito e o outro do mau ».
Como
dito acima, não pretendo aqui julgar o Padre Agostinho Veloso, mas
simplesmente esclarecer, tanto quanto possível a razão daquela
aversão que ele tanto manifestou contra a Alexandrina Maria da
Costa, quer por escrito quer em palavras ou testemunhos.
Também,
como já dito, sabendo que sentia uma aversão profunda contra o Padre
Mariano Pinho, é obvio que sentisse o mesmo rancor às pessoas com
quem este lidava ou dirigia.
Sabe-se
que o Padre Veloso nunca visitou à Doentinha de Balasar nem estudou
o caso desta, considerando-a uma “iluminada”, uma “exaltada”, uma
simuladora, uma histérica e, por isso mesmo, mentirosa.
Como
acima foi igualmente dito, o sábio Jesuíta, desejoso de adquirir
novos conhecimentos e acaso maior notoriedade, « no Verão de 1942
dirigiu-se a Salamanca, onde permaneceu até Julho de 1943, ocupado
no estudo dos problemas de Ascética e Mística ».
« Este Padre ― explica Santa Teresa de
Ávila, falando dum dos seus directores espirituais ― como o
Senhor lhe deu experiência em muitas coisas, tem procurado estudar
tudo o que por estudo tem podido saber ».
De lá
veio provavelmente com um diploma suplementar desta vasta e delicada
disciplina, que necessita, devemos sabê-lo, para que seja bem
assimilada e sobretudo estudada e aplicada, de muita humildade da
parte daquele que a ensina ou procura aplicá-la quando a ocasião se
apresenta, tal como defende o Santo fundador dos Jesuítas, no
parágrafo cinco dos exercícios espirituais:
«Muito aproveita, ao que recebe os exercícios, entrar neles com
grande ânimo e liberalidade para com o seu Criador e Senhor,
oferecendo-lhe todo o seu querer e liberdade, para que sua divina
majestade, assim de sua pessoa como de tudo o que tem, se sirva
conforme a sua santíssima vontade».
Diz o
cronista que o Padre Veloso, depois da sua estadia em Espanha,
« voltou ao campo de apostolado, no Verão de 1943, como redactor da
revista Brotéria, em Lisboa ».
Quando
aí chegou, já o Padre Mariano Pinho tinha sido impedido pelo
Provincial dos Jesuítas de dirigir a Alexandrina. Esta ordem foi
efectiva a partir de 7 de Janeiro de 1942 e o sacerdote foi então
enviado para Vale de Cambra, onde foi professor. Para quem dera
retiros aos Bispos portugueses, pregara nas principais igrejas do
país, dirigira a Brotéria, fundara a Cruzada, etc.,
vê-se bem que colocá-lo ali numa aldeia provinciana era sério
castigo.
Mas
sabe-se igualmente que, entre 1939 e 1942, o Padre Agostinho Veloso,
« dedicou-se a ampliar os estudos superiores de Filosofia e
Teologia no Instituto Beato Miguel de Carvalho, de Braga », como
sabemos também que o Padre Pinho, em meados de 1941 e princípios de
1942, aí se encontrava.
É
igualmente sabido de todos que, no dia 29 de Agosto de 1941, o Padre
José Alves Terças, da Congregação dos Missionários do Espírito Santo,
assistiu à paixão da Alexandrina e que depois publicou um relato do
que viu e ouviu no n.º 10 da revista « Vida de Cristo, a Paixão
dolorosa », vol. V, Lisboa, 1941. Tem aqui origem a perseguição ao
Padre Pinho, que em breve é afastado da direcção da Alexandrina ― 7
de Janeiro de 1942 ― e da direcção do Mensageiro de Maria, e
que ele, daí em diante, passa a residir no Seminário de Vale de
Cambra.
Depois
destes incidentes quase rocambolescos, o ilustre Arcebispo de Braga,
D. Bento Martins Júnior, nomeou uma comissão, composta de três
teólogos, entre os quais o Cónego António Gonçalves Molho de Faria,
para estudar o caso de Balasar e averiguar se sim ou não havia nele
algo de sobrenatural.
A dita
comissão “pesquisou”, inquiriu-se do que se passava na casa do
Calvário, mas sem se interessar verdadeiramente da inquirida, sem
interrogá-la a fundo, ou então ameaçando-a simplesmente de
represálias, o que está provado no processo diocesano em vistas da
beatificação e canonização da Alexandrina.
E que
tem o Padre Agostinho Veloso a ver com esta comissão?
Sinceramente, penso que nada tem a ver com ela, visto que nesse
período o Padre Veloso já estudava, provavelmente, Ascética e
Mística em Salamanca.
O que é
certo é que esta mesma comissão emitiu, em 16 de julho de 1943, uma
conclusão desfavorável, afirmando que tudo quanto se passava no
pequeno quarto da Alexandrina nada tinha de sobrenatural ou
milagroso, o que motivou ― porque o Dr. Augusto de Azevedo nisso se
empenhou ― a ida da Doentinha de Balasar para a Foz do Douro onde
foi examinada durante quarenta dias pelo ilustre e então célebre Dr.
Gomes de Araújo.
Encontrei no testemunho dado pelo Dr. Augusto de Azevedo, aquando do
processo diocesano, as declarações que seguem e que
deixo
ao apreço do leitor:
« Alguns anos antes ― diz o simpático
Doutor ― tinha-me encontrado com o Padre Agostinho Veloso na
sacristia da igreja da Trofa e, falando-lhe da Alexandrina, disse-me
ele que gostaria de a visitar. Eu respondi-lhe que quando desejasse
vir a Balasar que me faria prazer levá-lo lá no meu carro. Ele
disse-me que desde que tomasse a decisão me escreveria nesse
sentido. Pouco depois ouvi dizer que ele difamava a Alexandrina
dizendo mesmo que a mãe desta era uma mulher que tinha filhos de
diversos homens.
Alguns tempos depois ― continua o Dr.
Azevedo ― encon-trei de novo o Padre Agostinho Veloso, depois da
Alexan-drina ter ido à Foz do Douro e depois que o Dr. Gomes de
Araújo tinha feito o seu atestado. Ele falava então com o
farmacêutico de Cadinhas, e estavam presentes a esposa deste e o
Professor Roque. Perguntei ao Padre Veloso quando desejava ir a
Balasar visitar a Alexandrina. “Co-mo então ― disse-me ele ― o senhor
anuncia por todos os lados que ela não se alimenta, mas quando ela
passou pela Trofa, ela comeu em casa do Sr. Sampaio!”
Vejamos, Padre Veloso, não sabe o Senhor que nós dize-mos que ela não
se alimenta desde 1942 e que foi em 1941 quando ela passou pela
Trofa? Que um homem qualquer faça afirmações como as que o Senhor
acaba de fazer sobre a Alexandrina é uma coisa, mas que de tais
insi-nuações sobre ela e sobre a sua mãe venham da boca dum jesuíta,
é inconcebível. “Quer pois o senhor dizer ― respondeu-me ele ― que
eu sou um jesuíta indigno?”
Eu
respondi-lhe: “Visto as afirmações que lhe são atribuídas, o Senhor
é na verdade indigno de vestir a batina que traz” »
O que
acabamos de ler faz parte do depoimento ― com juramento ― do Dr.
Augusto de Azevedo, homem que não tinha rancor a ninguém e que
estava sempre pronto a prestar serviço.
Aquando
do dito processo diocesano, o Tribunal interrogou 48 testemunhas. A
uma delas, Maria Angelina Marques Ferreira que conheceu a
Alexandrina desde 1935 até à morte desta, foi feita esta pergunta:
« O
Padre Veloso disse-nos que “sabemos ― ele
e outros do seu conhecimento ― que ela não estava paralisada e
que por conseguinte ela podia, sem qualquer milagre, mistificar
pelos seus êxtases, durante os quais ela imitava as diversas
passagens da Paixão, como ela mistificava igualmente pela paralisia
que nunca existiu” ».
A
resposta da Maria Angelina é categórica:
« O
Padre Agostinho Veloso afirmou uma coisa que ele não viu e que ele
só poderia provar se tivesse visto.
Nunca ninguém me disse uma tal coisa e todavia eu conheço numerosas
pessoas que conheceram a Serva de Deus ».
Vem
depois uma outra pergunta:
« Como explica a Senhora que um Sacerdote tão célebre como ele possa
ter feito uma tal declaração? ».
A
resposta da testemunha perece-me muito judiciosa. Ei-la:
« Se
bem que se trate dum Sacerdote, eu creio que por detrás de uma tal
afirmação do Padre Veloso, outra coisa se esconde ».
Também
eu penso que por detrás de todo este rancor manifestado pelo Padre
Veloso algo mais se esconde, algo que não me parece confessável,
algo que permanecendo escondido alimenta a suspeita e provoca
conjecturas diversas.
Talvez
seja este o verdadeiro motivo... Aliás, alguém testemunhou no mesmo
Processo que o Padre Agostinho Veloso acusava o Padre Pinho… para se
defender (ver adiante). E é melhor nem referir uma acusação que
consta no depoimento do Padre Dr. Sebastião Cruz…
P Padre
Agostinho Veloso esqueceu, infelizmente, os ensinamentos do seu
Santo fundador que é portanto claro:
« Não
dizer palavras para difamar ou murmurar, porque se descubro um
pecado mortal que não seja público, peco mortalmente; e, se um
pecado venial, venialmente; e, se um defeito, mostro o meu próprio
defeito ».
O jornalista
« Não
temem andar entre leões ― e parece cada um querer levar um
pedaço ― que são as honras e deleites e coisas semelhantes a que se
chama no mundo contentamentos ».
O
« jornalista de garra e verbo camiliano » vai mais tarde ― em
Janeiro de 1947 ― publicar na revista Brotéria um longo
artigo
sobre “Mística e jornalismo”, onde ele argumenta sobre “a
psicose do maravilhoso” e onde fala “dos casos típicos”
dessa mesma “psi-cose”. Ele aí aponta Balasar sem no en-tanto
nomear expressamente a Alexan-drina, mas afirma que « estes casos,
porém, tornam-se mais conhecidos, não porque valham mais que os
ou-tros, mas porque a imprensa perió-dica, tomando-os à sua conta,
lhes deu, com razão ou sem ela, uma noto-riedade que, de outro modo,
nunca chegariam a ter... »
Terá
provavelmente razão o Padre Veloso quando acusa a imprensa perió-dica
de dar a esses factos “uma noto-riedade... com razão ou sem
ela...”. Mas ele próprio está a utilizar o mesmo sistema e a
aproveitar-se do facto que a imprensa periódica “tome à sua
conta” esses factos, pois isso lhe dá uma oca-sião suplementar de
expor o seu pró-prio pensamento, a sua própria crítica sobre os
factos incriminados, factos que ele parece não conhecer
profundamente, correndo o risco de errar e de dar uma opinião que
possa ter influências nefastas nos casos citados.
Nesse
mesmo artigo, não se encontra qualquer alusão ao discernimento dos
espíritos, o que é de estranhar, sobretudo tratando-se dum jesuíta,
um “conhecedor” e praticante dos Exercícios Espirituais de Santo
Inácio de Loyola. Nos “argumentos”, não se encontra a menor
referência aos “especialistas confirmados”, que digo, aos
“Doutores” que são Santa Teresa de Ávila ou São João da Cruz.
O
diplomado em Ascética e Mística não acena para as regras utilizadas
em geral pelos Directores espirituais quanto ao discernimento dos
carismas de que beneficiam as almas por eles dirigidas; o Padre
Veloso limita-se apenas a citar casos, sem verdadeiramente os
aprofundar, ou quando o faz, fá-lo por intermédio de textos
“autorizados”, como os de Frei Luís de Sousa, como se não se
sentisse capaz, ele próprio, de discorrer sobre um assunto que
todavia fora estudar em Salamanca.
Aí terá
lido e estudado as obras de santa Teresa de Ávila, de São João da
Cruz e de Santo Afonso Rodrigues e, muito provavelmente, terá lido
quanto escreveu Frei Luís de Granada que, mesmo falhando no caso
exposto no referido artigo, sobre a freira de Lisboa, não deixa de
ser um autor místico de valor.
« A
psicose do maravilhoso vem de longe. É uma tentação mais ou menos
cíclica, principalmente em tempos anormais »,
começa ele por dizer, ao iniciar o seu longo artigo.
Esta
afirmação é gratuita e errada, porque a “psicose do maravilhoso”,
como ele escreve, não é fruto de certas e determinadas épocas, mas é
uma “psicose” permanente, que é mais ou menos “plebiscitada” segundo
a corrente espiritual da época em que os factos acontecem. Eu
explico:
No
século XVII, por exemplo, logo após o Concílio de Trento, o número
de Santos e de Bem-aventurados é simplesmente extraordinário, como
foi extraordinário o número de visionários, razão pela qual alguns
chamam a esse período “a via láctea”.
O
século XVIII terá sido menos fértil em santidade, menos fértil em
místicos? Não, mas o período histórico era diferente, a
Contra-reforma tinha sido feita e muitos daqueles que beneficiaram
de carismas ficaram no silêncio dos seus quartos ou das suas celas,
o que não impediu que muitos deles fossem beatificados e canonizados
e que os seus escritos ainda hoje tenham aceitação e mesmo mais do
que isso. Basta aqui recordar o nome de São Luís Maria Grignion de
Montfort, entre outros.
Este
mesmo século deu à Igreja um número incalculável de mártires, não só
aqueles que pereceram na China ou no Japão, mas sobretudo aqueles
que a Revolução Francesa vitimou.
Ao
exemplificar a tal psicose, o Padre Agostinho Veloso escreve:
« Só dos últimos anos, lembram-nos os casos típicos do Barral, da
Madre Virgínia (no Funchal), e das visionárias de Lamego, da
Covilhã, da Vergada, de Pereira de Avidagos, de Balasar... »,
portanto o caso da Alexandrina, que aqui nos interessa e que faz
também parte daquele elenco que «a imprensa periódica, tomando-os
à sua conta, lhes deu, com razão ou sem ela, uma notoriedade que, de
outro modo, nunca chegariam a ter.... »
Antes
de falar sobre o caso da Alexandrina de Balasar, convém aqui
esclarecer que a causa da Madre Virgínia da Paixão, do Funchal, se
encontra a decorrer em Roma, depois de terminado o processo
diocesano e do parecer fa-vorável da Conferência Episcopal
Portuguesa.
O caso
de Catarina Emmerich e de Teresa Neuamnn ― o Padre Veloso também os
aponta ―, merecem uma peque-na informação:
A
Catarina Emmerich, como é sabido, é agora Bem-aventurada e a causa
da Serva de Deus, Teresa Neumann está a decorrer normalmente e tudo
leva a crer que muito em breve a Igreja a proclamará Bem-aventurada.
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