Na escola da dor
Nos primeiros anos da
doença ainda desejou curar : « Cheguei a
fazer algumas promessas para ser curada — dizem as suas
notas
autobiográficas — como : cortar rente o cabelo, que era para mim um grande sacrifício,
dar todo o meu ouro e vestir-me de luto, toda a minha vida, ir de joelhos desde
a nossa casa. até à Igreja. Minha mãe, irmã e primas fizeram também grandes
promessas...
Como me falassem dos
milagres de Fátima e sabendo eu, em 1928, que várias pessoas iam à Cova da Iria,
nasceram em mim desejos de ir também. O médico assistente e o meu pároco não me
deixaram, dizendo que era impossível ir para tão longe, se eu mal consentia que
me tocassem na cama... Nesse ano, o Sr. Abade foi a Fátima e perguntou-me o que
eu queria de lá. Pedi-lhe que me trouxesse uma medalha ; mas ele ofereceu-me um
terço, uma medalha, o Manual do Peregrino e alguma água de Fátima. Sua Rev.cia
aconselhou-me a fazer uma novena a Nossa Senhora e a beber agua de Fátima, com o
fim de ser curada. Não fiz uma, mas muitas. Cantava muito e dizia às pessoas
vizinhas que me visitavam se um dia me vissem pelo caminho e me ouvissem cantar,
era que eu ia agradecer a Nossa Senhora o beneficio que recebera.
Pensava que seria curada,
mas enganei-me : era a minha grande confiança na Mãezinha e em Jesus que assim
me fazia falar. Pensava : se for curada, vau logo para religiosa, pois tinha
medo de viver no mundo. Nem sequer visitaria a minha família. Queria ser
missionária, para baptizar pretinhos e salvar almas a Jesus.
Como não consegui nada,
morreram os meus desejos de ser curada e para sempre, sentindo cada vez mais
ânsias de amor ao sofrimento e de só pensar em Jesus ».
E é agora que ela começa pouco
a pouco a conhecer o seu caminho, a sua vocação.
« Sem saber como — escreve — ofereci-me
a Nosso Senhor como vitima, e vinha desde ha muito pedindo o amor ao sofrimento.
Nosso Senhor concedeu-me tanto, tanto esta graça, que hoje (escreve em Outubro
de 1940) não trocaria a dor por tudo quanto há no mundo. Com este amor à dor
toda me consolava em oferecer a Jesus todos os meus sofrimentos. A consolação de
Jesus e a salvação das almas era o que mais me preocupava.
Com a perda das forças
físicas fui deixando todas as distracções do mundo e com o amor à
oração — porque só a orar me sentia bem — habituei-me a viver em união íntima
com N0sso Senhor. Quando recebia visitas que me distraiam um pouco, ficava toda
desgostosa e triste, por não me ter lembrado de Jesus durante esse tempo ».
Foi nestas disposições de alma
que encontrei a Alexandrina, quando pela primeira vez a conheci pessoalmente,
durante um tríduo que preguei em Balasar (S. Eulália) de 16 a 20 de Agosto de
1933.
Estava então nos seus 28 anos,
pouco mais e há nove anos que entrevara.
Várias vezes falei com ela
durante esse tríduo e logo me ficou a impressão de estar diante de uma alma de
grande virtude, muito simples, muito verdadeira, profundamente piedosa, de uma
resignação perfeita à vontade de Deus nos seus sofrimentos, e muito desejosa de
santidade e de salvar os pecadores, respirando, em todo o seu modo, pureza e
inocência.
Até ali, tinha-a dirigido o
Espirito Santo tão somente : não sabia o que era director espiritual. A seus
rogos, encarreguei-me então, pouco a pouco, da sua direcção espiritual. O andar
dos anos mostrou-me à saciedade que me não enganara nas primeiras impressões,
muito pelo contrario. O que não suspeitei nem de longe, foi o quanto de
extraordinário viria Deus a operar naquela alma.
Mas antes de qualquer
referência a este ponto, o que primeiro importa conhecer previamente é a sua
alma. Se não encontrássemos de facto virtude verdadeiramente sólida, ficaríamos
in limine dispensados de qualquer investigação ulterior. Se pelo
contrário, a encontrássemos, seria a melhor luz para desvendarmos tudo o mais.
Entremos pois neste estudo,
embora sumariamente, principiando pelo seu espirito de oração.
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