PADRE MARIANO PINHO,
S.J.
(1894-1963)
TABLE
A formação – Na Póvoa de Varzim – A Beatriz Marques Pinheiro – «Sofrer, calar, reparar» – Director espiritual da
Alexandrina – Na
Consagração do Mundo ao Imaculado Coração de Maria – A Alexandrina revive a
Paixão – O Dr. Dias de Azevedo
entra em – cena – A partida para o Brasil – No Brasil – No Processo
Diocesano da Alexandrina – « Subirá às
honras dos altares » – O Padre Mariano Pinho e a
Abscôndita – Documentos existentes em
Balasar – Uma carta ao Arcebispo
Primaz – Duas cartas ao Padre – Humberto – Cronologia – NOTAS
Há várias
sínteses biográficas sobre o Padre Mariano Pinho,
mas penso que está ainda por fazer um
trabalho
em profundidade
que documente a verdadeira dimensão do seu papel na
implantação da Cruzada Eucarística, que esclareça o impacto da sua
pregação, que avalie a sua acção nas revistas que dirigiu, o mérito dos
livros que publicou, o trabalho que desenvolveu no Brasil, o muito que
sofreu por causa da Alexandrina, etc.
Creio que é
necessário reunir os seus escritos e o que os contemporâneos sobre ele
escreveram. No que à Alexandrina se refere, é preciso reunir as cartas
que ele lhe escreveu e estudar as que ela lhe dirigiu.
Aqui, vou
apenas alinhar algumas ideias sobre este jesuíta.
O Padre
Mariano Pinho nasceu no Porto, duma família de pequenos comerciantes, em
16 de Janeiro de 1894, e faleceu no Recife, Brasil, em 11 de Julho de
1963, com 69 anos. O seu nome completo era Mariano Monteiro Carvalho
Pinho.
Cursou a
Escola Apostólica da Santíssima Trindade, em Guimarães, onde fez os
estudos secundários de 1906 a 1910. Neste último ano, teve de se exilar
do país, por causa da perseguição da Primeira República. Com dezasseis
anos, entrou na vida religiosa em Exaten, na Holanda, em 7 de Dezembro
de 1910, onde foi colega de Luís Mariz, de Simeão Tang, de Tobias Ferraz
e de Domingos Maurício.
Estudou em
Alsenberg, Bélgica, de 1913 a 1915, Humanidades e Retórica. Cursou
Filosofia, em Onha, Burgos, desde 1915 até 1918.
Em 1919,
navegou para o Brasil e entrou no Colégio Padre António Vieira, na Baía,
onde ensinou, redigindo simultaneamente a revista Legionários das
Missões, de que foi fundador.
Regressou à
Europa em 1923 para cursar Teologia em Innsbruck, na Áustria,
ordenando-se sacerdote em 1926, na mesma cidade. No ano de 1927-1928,
fez a terceira provação em Paray-le-Monial, ultimando assim a sua
formação religiosa. Frequentou durante algum tempo, em 1929, a
Pontifícia Universidade de Comilhas, Santander, Espanha, para se
licenciar em Teologia.
Foi ainda
em Innsbruck que escreveu os artigos sobre o então sedutor Teosofismo
que saíram na Brotéria e que certamente marcaram o seu futuro.
Não atacou este movimento principalmente dum ponto de vista teórico, mas
histórico: analisou miudamente o seu nascimento e evolução, mostrando
como todo ele não passava duma mistificação. E fê-lo num estilo ligeiro,
mas mostrando um conhecimento da matéria versada do mundo anglo-saxónico
que há de ter impressionado profundamente.
Em
1929, quando o Padre Mariano Pinho chega à Póvoa de Varzim, os primeiros
jesuítas regressados do exílio já aí se encontravam desde 1923. Era na
residência desta vila, no Largo das Dores, que estava a direcção do
Mensageiro, a que se chamara Apóstolo desde o início da
República. É exactamente nesse ano que a revista retoma o nome original.
Ali muito
perto, a Madre Sá já erguera o seu ousado Colégio do Sagrado Coração de
Jesus. Esta grande lutadora era também uma regressada do exílio, que
passou na Inglaterra e na Suíça. Trazia novas ideias pedagógicas, que ia
pôr em prática em favor da educação da juventude feminina.
As obras da
igreja do Sagrado Coração de Jesus esperavam ainda melhores dias, depois
da suspensão republicana.
O Padre
Pinho, se viera para dirigir o Mensageiro, vai-se distinguir
sobretudo como promotor da Cruzada Eucarística das Crianças
― a C. E. C. De facto, a meio do
ano, publica pela primeira vez uma separata tendo em vista a C. E. C.
Nascia assim uma revista nova de grande sucesso, a Cruzada.
Ouçamos
como ele define a Cruzada Eucarística das Crianças: a C. E. C. é «a secção
infantil do Apostolado da Oração ―
uma piedosa união de meninos e meninas de todo o mundo católico, para
alcançar a conversão das nações e a restauração cristã da sua pátria.
Chama-se Cruzada, porque à semelhança dos guerreiros antigos, que
foram ao Oriente combater os infiéis e libertar os Lugares Santos, a
C. E. C. procura libertar as almas e as nações do jugo do demónio, para
que nelas só reine Jesus Cristo. Eucarística
― porque a sua grande arma de
combate é a Comunhão frequente.»
E continua
este Gualdim Pais moderno (adoptara este pseudónimo que lembrava o
mestre português medieval dos Templários):
« Chama-se
também Apostolado da Oração :
1.º porque
a C. E. C. é o mesmo apostolado, ou Associação do Santíssimo Coração de
Jesus, adaptado às crianças, regendo-se pelos estatutos dele ;
2.º porque
se propõe converter todas as crianças católicas noutros tantos apóstolos
do Reino de Deus e da salvação das almas, empregando para isso como arma
principal a Oração.
Para
realizar o seu nobilíssimo ideal da restauração do mundo e de Portugal,
a C. E. C. emprega três meios :
1.º
Oração ― Jesus disse: «é
preciso orar sempre»; «pedi e recebereis». Passou a sua vida terrena a
fazer o bem e a orar pela salvação das almas e agora continua a orar
sempre por nós no Céu e no sacrário.
2.º
Pequenos sacrifícios ― O
sacrifício robustece a nossa vontade contra o mal. Vale como súplica à
clemência de Deus e também como satisfação à Justiça Divina. O
sacrifício de Jesus inocente desagravou a honra de Deus e redimiu a
humanidade pecadora; sacrifico das crianças inocentes, unido ao de
Jesus, ajudará a resgatar de novo mundo.
3.º
Comunhão frequente ― Sem
ela não pode haver vida cristã: e como o espírito da C.E.C. é o espírito
de reparação e desagravo em união com o Santíssimo Coração de Jesus,
todos os seus membros e obrigam ao menos a uma comunhão mensal
reparadora. »
Estava aqui
um programa de acção, havia uma revista e havia um dinamizador
entusiasta. Os frutos não se fizeram esperar. Em breve há notícias da
inauguração de vários núcleos da Cruzada, uns mais próximos, outros bem
distantes.
O dia de
Pascoela de 1929 há-de ter sido um dia muito especial para o Padre
Mariano Pinho: inaugurou-se então a C.E.C. da Igreja do Sagrado Coração
de Jesus. Veja-se o relato que saiu no Mensageiro :
« Às sete
da manhã entrava em procissão por uma das portas laterais da capela-mor,
com grande regozijo dos olhares curiosos e indagadores dos assistentes,
um bando de meninos e meninas. Eram os adaís esforçados que iam ser
recebidos na Cruzada. Rompia a procissão um menino com o estandarte da
Cruzada Eucarística; seguiam-no dois a dois outros meninos, todos eles
de banda branca a tiracolo, rubricada no peito e no dorso com a Cruz de
Cristo. Vinham depois as meninas vestidas de branco com uma espécie de
cota de armas branca com a Cruz Redentora em vermelho. A bênção da
bandeira e a admissão fez-se no altar do Sagrado Coração de Jesus após a
qual se dirigiram de novo em procissão para a capela-mor, onde
juntamente com o C. E. C. do Colégio do Sagrado Coração desta Vila
entoaram o hino do C. E. C. que todos os cruzados cantam com a afinação e
o entusiasmo de quem canta coisa sua e que lhes sai da alma. A
capela-mor ficou toda ocupada pelos dois grupos dos Cruzados. Era um
espectáculo agradável à vista dos que os contemplavam da terra e mais
agradável aos olhos dos que a ele se uniam do Céu, por considerarem esse
bando de criancinhas inocentes junto do Sacrário como os Anjos
reparadores e adoradores da Eucaristia. Seguiu-se a Missa solene, mas já
antes tinha havido Missa de Comunhão geral para o povo. Os cruzados
comungaram na Missa solene. O número de comunhões feitas este dia na
Igreja do Coração de Jesus pelas intenções do Sumo Pontífice ascendeu à
avultada soma de 755 e muito maior seria se a primeira Missa se tivesse
celebrado mais cedo.
De tarde
houve terço, sermão, Te-Deum em acção de graças e soleníssima bênção do
Santíssimo. Ao harmónio esteve o Sr. Dr. Josué Trocado que pacientemente
se prestou durante quase uma semana a ensinar o povo para a Missa e
Te-Deum. »
O grupo do
Colégio do Sagrado Coração de Jesus tinha sido instalado em 21 de
Fevereiro.
Veja-se
também esta notícia, envida à Cruzada pelo pároco de Amorim e que
assinala uma ida do Padre Pinho a essa freguesia, para aí inaugurar a
Cruzada Eucarística das Crianças :
« A Cruzada
Eucarística das Crianças inaugurou-se na minha freguesia no domingo, 28
de Abril.
As
crianças, em número de 64, tinham-se preparado no tribunal da Penitência
para receber, no dia do seu alistamento na Cruzada, a Jesus, o terno
amigo das criancinhas. Para dar maior solenidade ao acto, fora convidado
o centro da Cruzada da Póvoa para assistir à inauguração da Cruzada em
Amorim. O convite foi bem aceite pelo Director e Zeladores e à tarde,
embora o tempo estivesse um tanto chuvoso, começam a chegar a Amorim uns
a pé ouros em caminheta os Cruzados da Póvoa.
Os novos
Cruzados de Amorim vêm pouco a pouco chegando à Igreja e seus parentes
acompanham-nos para presenciarem a cerimónia tão impressionante da
admissão. Depois da recitação do terço, subiu ao púlpito o Rev. P.
Mariano Pinho, promotor desta obra em Portugal: depois de historiar a
C. E. C. desde o seu princípio, mostrou aos novos sócios os fins da
Cruzada e o quanto havia a esperar das crianças que desde a meninice se
entregavam ao Santíssimo Coração de Jesus. A impressão da prática foi
tal que, no fim, muitas crianças e pais vinham pedir ao Pároco para seus
filhos pertencerem à Cruzada. As crianças foram distribuídas em grupos
pelas doze catequistas, ficando estas constituídas zeladoras da C. E. C.
Ficou assente que a Comunhão mensal se realizaria no primeiro domingo
depois da primeira sexta-feira do mês. O Rev. Pároco, Zeladoras e
Cruzados de Amorim mostram-se muito reconhecidos para com o Rev.mo
Director e grupos da C. E. C. da Póvoa que vieram abrilhantar com a sua
presença a sua festa inaugural. Avante pela C. E. C. que contribuirá
imenso para preservarmos as crianças de tantos perigos que as cercam ! »
Entretanto
a revista infantil vai publicando fotografias de grupos da C. E. C. ; na
área do arciprestado, além das dos grupos da Póvoa, podem-se ver
fotografias dos grupos de Amorim, de Arcos, de Beiriz, de Nabais, do
Outeiro Maior.
Num dos
números iniciais da Cruzada vem esta relação dos «Centros de Cruzada
Eucarística de que temos recebido mais frequentes notícias :
Angra do
Heroísmo ― centro do Asilo
da Infância Desvalida.
Barcelos
― centro da freguesia de
Barcelinhos, Aldreu.
Braga
― S. Vítor.
Esposende
― S. Marinha de Forjães.
Póvoa de
Varzim ― centros da Igreja
do Sagrado Coração de Jesus, do Colégio do Sagrado Coração de Jesus, do
Colégio B. João Bosco, de Amorim, de Nabais, da Estela e de Terroso.
Vila do
Conde ― centro do Colégio
de S. José, Outeiro.
Viana
― freguesia de Nossa
Senhora de Monserrate; e Matriz, Tondela, Silvares.
Elvas
Funchal
― Freguesia de S. Jorge.
Guarda
― Vilar Formoso.
Viseu
― centro da Sé, da
freguesia de S. Josninho, de Figueiró da Granja.
(No
original, a lista vem com muitos erros, que procuramos corrigir, tanto
quanto nos foi possível.)
O Dr. Jorge
Barbosa, num artigo sobre a Alexandrina saído na Voz da Póvoa em
15/5/96, dá notícia duma outra actividade do Padre Pinho―:
«―O
Padre Mariano Pinho, sacerdote da residência dos Jesuítas da Póvoa de
Varzim, foi director espiritual da Congregação Mariana de Jovens da
Póvoa de Varzim (os denominados filhos de Maria), cujos actos
religiosos se realizavam no 1º andar do prédio n.º 7 do Largo de Eça de
Queirós, por cedência graciosa do seu proprietário, Dr. Josué Francisco
Trocado. Nesta sede se realizavam as reuniões sociais, conferências e
encontros de lazer ou de convívio entre os mais novos (aspirantes,
que usavam fita verde, ao peito, nos actos religiosos) e os mais
velhos (congregados, que usavam fita azul), mais larga.
***
Esta
sociedade católica juvenil teve um semanário noticioso e católico,
intitulado A Voz do Crente, que se
publicou
de 25 de Março de 1927 a 9 de Julho de 1932 (248 números) …
Na Voz
do Crente, encontram-se algumas menções do nome do Padre Pinho a
propósito da Congregação Mariana dos Jovens. Veja-se esta informação de
1 de Maio de 1931:
« No
domingo, às 8 horas, na Igreja Matriz, realizar-se-á a sua reunião
mensal, com missa celebrada pelo Rev.º Mariano Pinho, comunhão e bênção:
de tarde, às 2 e meia, proceder-se-á à admissão dos novos Congregados,
Candidatos e anjos, para o que se estão preparando os jovens com um
retiro pregado pelo Director, Rev.º Mariano Pinho ».
No número
seguinte, de 8 do mesmo mês, vem desenvolvida notícia do acontecimento
antes anunciado e referidos até temas da homilia do Padre Pinho. Como
curiosidade, fala-se da necessidade de continuar o « círculo de
estudos » da congregação.
Em 2 de
Outubro desse ano, noticia-se que a Congregação mudou de instalações,
mencionando-se novamente o Padre Pinho.
Foi
certamente ainda na Póvoa que o Padre Pinho traduziu Harry Dee,
um livro para a juventude da autoria dum jesuíta norte-americano, que
teve a primeira edição em português em 1932. Também na Póvoa terá
reunido muito do material para o Relatório da Cruzada Eucarística,
saído igualmente em 1932.
O Padre
Pinho era « mestre de grandes almas », como dele declarou Jesus, e a
poveira Beatriz terá sido uma
das
primeiras colheitas da sua seara. O que sobre ela escreveu lembra às
vezes a Alexandrina. Ouçamos a introdução à notícia biográfica em três
páginas A4 que ela lhe mereceu no quinto número da Cruzada
Eucarística, em Maio de 1930. Ele intitulou o artigo de «Flor
colhida na prima-vera» e assinou-o com as iniciais M. P., como em muitos
casos fazia.
« A Beatriz
morreu… Lá foi no seu caixãozinho branco para o cemitério, vestida de
Cruzada Eucarística…
Mas não,
não morreu. Os Anjos não morrem; manda-os Deus à terra a derramar gotas
de bálsamo sobre as feridas dos que padecemos por nossos pecados:
envia-no-los para que nos apontem, de fronte erguida e olhar límpido
como as estrelas, o roteiro da Eternidade: e, depois de termi-nada a sua
missão, vão-se, não morrem: voam para o Céu.
A Beatriz
era um anjo, não morreu; cumpriu a sua missão e voou para o Céu. Foi-se
com o abrir dos lilases para a pátria que lhe pertencia, para a pátria
dos inocentes.
Tinha razão
quando há um ano, no retiro espiritual, escrevia, em seu caderninho de
notas íntimas, que « es-perava que a sua cruz neste mundo não havia de
demorar muito ». Não durou muito: foi-se aos quinze anos e meio, a 3 de
Abril de 1930.
« Levai-me
deste mundo para fora, que só arrasta as almas para o pecado», dizia ela
no mesmo caderninho. E Nosso Senhor fez-lhe a vontade: levou-a antes que
o mundo viesse empanar a limpidez da sua inocência. Era zeladora da
Cruzada das Crianças: o Coração Santíssimo de Jesus veio buscá-la na
véspera da primeira sexta-feira de Abril: queria lá neste dia entre os
coros dos Anjos a sua Zeladora, a sua organista ―
era ela a organista da Igreja do Coração de Jesus da Póvoa de Varzim;
desta vez já não tocará na primeira sexta-feira: foi cantar no Céu os
louvores eternos do Coração do Rei Divino, do seu Divino Esposo,
como ela mais de uma vez chama a Jesus em seus apontamentos
espirituais. »
Nos
títulos das duas obras que o Padre Mariano Pinho dedicou à Alexandrina,
está sempre o tema da vítima. Na primeira, ela é, sem mais, a « Vítima
da Eucaristia ». Na segunda, a expressão « No Calvário de Balasar »
mostra-a vítima com a Vítima do Calvário.
A
Alexandrina afirma na Autobiografia que, talvez em 1933, « sem saber
como, ofereci-me a Nosso Senhor como vítima, e vinha, desde há muito
tempo, a pedir o amor ao sofrimento. … A consolação de Jesus e a
salvação das almas era o que mais me preocupava. »
Esta oferta
é muito original. Ainda por cima feita « sem saber como ». Como terá ela
chegado a esta decisão ?
Sem grande
margem para grandes dúvidas, o Mensageiro do Coração de Jesus
ajuda-nos a perceber alguns antecedentes.
Em 1928,
Pio IX publicara a Miserentissimus Redemptor (O nosso
Misericordiosíssimo Redentor) sobre o tema do sofrimento reparador. O
Padre Pinho citou-a na capa de No Calvário de Balasar.
Ora o
Mensageiro de Maria, em 1929 e 1930, faz-se também eco desta
encíclica.
No
Mensageiro do Coração de Jesus escreve-se longamente sobre o
« Venerável » La Colombière e sobre Santa Margarida Maria Alacoque (a
imagem desta santa é colocada na Basílica do Sagrado Coração de Jesus em
1929). Muito curioso é um trabalho artístico com que se abre esses
artigos e onde se lê a divisa « Sofrer, calar, reparar », tão próxima da
que a Alexandrina vai adoptar : « Sofrer, amar, reparar ».
Embora não
seja nesta altura que ele descobre a Alexandrina, as revistas que
dirigia hão-de ter chegado até ela, não sabemos através de quem.
Entre 1931 e 1933, o Padre Pinho continua como redactor da
revista Mensageiro do Coração de Jesus, mas agora em
Braga.
Em
16 de Agosto de 1933, torna-se director espiritual da
Alexandrina, por ocasião duma pregação dum tríduo em honra do
Sagrado Coração de Jesus, dirigindo já antes a Deolinda.
Em
27 de Dezembro, muda-se para Lisboa, onde assume o cargo de
director da revista Brotéria (até 1935). Na capital,
entrega-se também a ministérios sacerdotais e a dirigir
Congregações Marianas, em colégios de religiosas. Pregava com
frequência nas igrejas paroquiais e fundava cruzadas
eucarísticas infantis. Dava conferências sobre temas religiosos.
De
1933 a 1936 é superior da Casa dos Escritores de S. Roberto
Belarmino, em Lisboa.
Em
Setembro de 1934, Jesus pede à Alexandrina que aceite ser
alma-vítima. Ela comunica o facto ao Padre Pinho, que lhe ordena
que escreva tudo o que ouve de Jesus.
O
Padre Pinho, que padecera o exílio imposto pela Primeira
República, como muitos outros, verá com bons olhos a obra de
Salazar. Em 1934, publica na Botéria um longo artigo «No
Estado Novo», com catorze páginas.
Constitui uma análise serena, objectiva à orientação
político-social outorgada a Portugal por Salazar. Conclui o
autor: «As recentes iniciativas do Governo Português procedem
dum pensamento altamente social, a que não parece ter sido
estranha a inspiração da Encíclica Quadragesimo Anno»
(Brotéria, 1934, I. p. 291).
Em 30 de
Julho de 1935, depois da Comunhão, Jesus ordena à Alexandrina: |
Em 28 de Agosto de 1933, a Alexandrina dirige ao Padre Pinho a
sua primeira carta. Veja-se a metade inicial:
« Sr. Padre Pinho: Então como tem passado desde o dia 20 até
hoje? O grande excesso de trabalho não agravou o estado de saúde
de V. Rev.cia? Sempre tenho pedido isso a Nosso Senhor. Oxalá as
minhas orações sejam ouvidas.
Quanto a mim, tenho passado um pouco mal do coração; tenho
perdido bastantes forças e por essa razão pedi à minha irmã para
me escrever esta, para eu não estar a fazer esforços.
Agora tenho a agradecer a V. Rev.cia o livrinho que me enviou.
Não é fácil imaginar como fiquei contente! Havia talvez uma hora
que eu tinha estado a chorar porque sentia muitas saudades ao
pensar as palavras que me dizia e que tanta consolação davam à
minha pobre alma; e o carinho com que tratava com esta pobre
doente! E agora pensar que estou tão distante de V. Rev.cia! Mas
bem me reconheço indigna de uma tão grande graça, de lhe poder
falar mais vezes. Mas vejo que Nosso Senhor vela por mim porque
fez com que o Sr. P. Pinho, mesmo no meio de tantos trabalhos,
me não pudesse esquecer.
Recebi a carta de V. Rev.cia, li-a muitas vezes, porque em a ler
me sentia mais forte para amar a Nosso Senhor e por Ele sofrer
tudo quanto fosse da Sua Santíssima Vontade. » |
« Manda dizer ao teu director espiritual que, em prova do amor
que dedicas à minha Mãe Santíssima, quero que seja feito todos
os anos um Acto de Consagração do mundo inteiro... Assim como
pedi a S. Margarida Maria para ser o mundo consagrado ao meu
Divino Coração ». (Carta ao Padre Pinho, 1 de Agosto de 1935).
Cada uma destas palavras é importante: o amor de Alexandrina a
« minha Mãe Santíssima », o acto de consagração anual e o
paralelismo com o pedido feito a Santa Margarida.
No
livro No Calvário de Balasar, o Padre Pinho escreve não
« S. Margarida Maria »,
mas apenas « Santa Margarida »,
acompa-nhado este nome com um ponto de interrogação entre
parêntesis. Não era certamente por desco-nhecer a biografia de
Santa Mar-garida Maria Alacoque, ele que tinha feito parte da sua
formação em Paray-le-Monial e sob cuja di-recção uma bio-grafia
desta san-ta tinha sido pu-blicada no Men-sageiro do Cora-ção de
Jesus !
Foi só no
dia da SS. Trindade do ano seguinte que ele definitiva-mente se
convenceu que a men-sagem era autêntica.
Por isso, em 11 de Setembro, es-creveu ao
Papa, por meio de Sua Em.cia o Cardeal Pacelli, a mani-festar-lhe o
pedido dirigido por Jesus à Alexandrina para que o mundo fosse
consagrado ao Coração Imaculado de Maria. |
Obras do Padre Mariano Pinho
Livros
que escreveu
Relatório da Cruzada Eucarística,
Porto, 1932
Notas de um Retiro,
1932
Carta Magna da Acção Católica,
Braga, 1939
Regresso ao Lar,
1.ª ed., Porto, 1944; 2.ª ed., Baía, 1947
O Imaculado Coração de Maria à Luz de Fátima,
ª ed., Baía, 1948; 2.ª
ed., Braga, 1950
Vítima da Eucaristia,
1956 (com tradução francesa e alemã ainda em vida do autor)
No Calvário de Balasar,
S. Paulo, 1963
Tradução
Harry Dee, 1ª
ed., 1932; 2ª ed., 1956
Revistas que criou e dirigiu:
Legionários das Missões
(Brasil)
Cruzada Eucarística
Revistas que dirigiu
Mensageiro do Coração de Jesus
Mensageiro de Maria
Brotéria |
Entretanto
deixa a direcção da Brotéria, para ser nomeado promotor nacional
das chamadas Congregações Marianas e da Cruzada Eucarística,
desempenhando simultaneamente as funções de director dos órgãos de
imprensa destes movimentos da Companhia de Jesus vocacionados para a
formação cristã dos leigos. Passa a residir em Braga, onde é professor.
Dirige, até 1942, o Mensageiro de Maria, órgão das Congregações
Marianas. Isto é, está optimamente colocado para acompanhar as
diligências com vista à Consagração.
Essas
diligências são conhecidas: as variadas iniciativas por ele
protagonizadas, os pedidos de esclarecimentos vindos de Roma, a
intervenção do Monsenhor Vilar, a vivência da Paixão com movimentos. Por
fim, em 31 de Outubro de 1942, realiza-se a consagração
― quando o Padre Pinho já fora
afastado da direcção espiritual da Alexandrina e da direcção de revistas
como o Mensageiro de Maria, onde a mensagem papal virá a ser
publicada… Era difícil o caminho que lhe cabia percorrer !
Há um seu
artigo, saído no Mensageiro de Maria em Março de 1940, com o
título de « O que é o Coração de Maria ? », que certamente se integra
nos seus esforços de esclarecimento com vista à consagração. Nele se lê
a determinada altura que « a devoção do Coração de Maria é a devoção ao
amor que ardeu em seu Coração, para com Deus e para com os homens, e se
nela abrangemos todas as manifestações deste amor, fixamos sobretudo as
principais, como são as suas dores na Paixão de Jesus e as suas
misericórdias para com os homens. »
Com
início em 30 de Setembro de 1938, o Padre Pinho orienta um
retiro espiritual para a Alexandrina, no seu quarto; no êxtase
de 2 de Outubro, Jesus prediz que ela iria sofrer toda a Sua
santa Paixão, pela primeira vez, em 3 de Outubro, e, em seguida,
todas as sextas-feiras, das 12 horas às 15.
A
Paixão vivida com movimentos é uma prova de que Jesus quer que
se faça a Consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria:
Ele mesmo o afirma. De resto, vivida nesta forma, ela terminou
logo que o Papa se decidiu a concretizar o desejo de Jesus.
A
retoma dos movimentos por parte da Alexandrina, já com 13 anos
de acamada, provocou grande surpresa. Por isso, foi necessário
ouvir os médicos. Foram ouvidos o Dr. Elísio de Moura (26 de
Dezembro), o Dr. Abílio Garcia de Carvalho (conhecido como o Dr.
Garcia) e outros, mas sem resultados significativos.
O Dr. Dias de
Azevedo entra em cena
Antes de falar do Dr. Dias de Azevedo, lembremos dois factos:
Em
1939, publica o Padre Pinho, em Braga, a Carta Magna da Acção
Católica Portuguesa.
A
20 de Outubro de 1940, por determinação do Padre Pinho, a
Alexandrina começa a ditar a sua Autobiografia.
O
Dr. Dias de Azevedo tem uma importância decisiva na vida da
Alexandrina. O seu papel não se confunde com o de qualquer outro
médico que a tenha tratado. Desde o primeiro contacto que com
ela trava, ainda em tempos do Padre Pinho, ele apercebe-se da
riqueza mística desta doente e por isso dá-se conta de que é um
caso especialíssimo, que há-de ser a glória da sua vida.
Ele chega
em Janeiro de 1941 e começa logo averiguações muito sérias com vista a
obter o mais completo esclarecimento clínico sobre a Alexandrina.
Depois, levá-la-á para o Refúgio de Paralisia Infantil, para conseguir
uma declaração objectiva, indesmentível, científica sobre o seu jejum e
sobre a sua saúde mental. A seguir, manter-se-á ao seu lado para a
acompanhar como médico e para a defender contra todos os que a atacam,
até ao fim, e, para além dele, com o Boletim de Graças.
No dia 29
de Agosto de 1942, o Padre José Alves Terças, da Congregação dos
Missionários do Espírito Santo, assiste à Paixão; seguidamente publicará
um relato do que viu e ouviu no n.º 10 da revista « Vida de Cristo, a
Paixão dolorosa », vol. V, Lisboa, 1941.
Começa aqui
a perseguição ao Padre Pinho, que em breve será coagido a residir no
Seminário de Vale de Cambra, ele que dirigira as revistas de mais
responsabilidade da Companhia, que estivera afrente da Casa de
Escritores, que pregara nas mais importantes igrejas das vilas e cidades
do país... São-lhe dirigidas acusações graves, que nunca foram provadas,
mas que, muito mais tarde, foram denunciadas como falsas.
|
Fragmento da carta de 21/4/1942
ao Padre Pinho
Minha filha, escreve ao teu Paizinho. São palavras minhas
transmitidas por uma alma em prolongada agonia, prestes a voar
ao Céu.
Ele
está a passar dias mais amargos que se podem imaginar. À minha
seme-lhança, contra ele levantam as calúnias mais infames. O seu
coração mártir de dor sofre inocente.
São
duas almas dignas de desprezo que se revoltaram contra ele.
A
primeira, impostora, enganadora, fin-gia amar-Me; tentou iludir a
todos daqui-lo que não era: o Meu Divino Coração não foi
enganado.
A
segunda não tem o Espírito Divino que muitos julgam. O Espírito
Divino não difama. Jesus usa de caridade até para aqueles que
estão culpados.
O
meu Divino Coração está triste. Muitos destes sofrimentos são
causados pela cu-riosidade dos meus discípulos. Ai deles, que
tremenda responsabilidade! Metem-se naquilo que não devem,
querem julgar a causa que lhes não compete.
É a
raiva de Satanás contra o teu Pai-zinho.
O
meu Divino Coração cá está para o justificar e defender. Querem
sujeitá-lo às maiores penas, mas nunca o Coração Di-vino de Jesus
o consentirá.
Minha Mãe Santíssima será com ele. Ele é o servo fiel do meu
Divino Coração: é por isso que Satanás o odeia.
Ele
tem sido e será a salvação de muitas almas: mais uma razão
porque Satanás se revolta contra ele.
As
almas que o caluniam não se perdem se por elas se fizerem
muitas, muitas orações; terei compaixão delas e depressa virão
ao meu Divino Coração.
Diz
ao teu Paizinho que o amo e serei o seu defensor na terra e no
Céu. Lá na mi-nha Pátria verão claramente a sua ino-cência. |
A partida para o Brasil
A oposição
ao Padre Pinho tomou naturalmente fôlego renovado desde que a Comissão
nomeada pelo
Arcebispo
de Braga declarou que nada havia de extraordinário na vida da
Alexandrina (16 de Junho de 1944).
Essa
oposição teve certamente aspectos variados, mas, ao menos em parte,
assentava na recusa apriorística do carácter extraordinário do que se
passava com a doente de Balasar. E essa recusa, por estranho que pareça,
teria sem dúvida a ver com o veredicto que uns 20 anos antes tinha sido
apresentado na Universidade Gregoriana pelo jesuíta Padre Siwek acerca
de Teresa Neumann. O Padre Molho de Faria e o Padre AgostinhoVeloso
citam-no. Certamente, na mesma base se argumentaria contra o Padre José
de Oliveira Dias e a sua dirigida, a célebre «Abscôndita», de que se
fala à frente.
Veja-se
agora este colóquio da Alexandrina, de 22 de Fevereiro de 1946,
sexta-feira, dois dias após a partida do Padre Mariano Pinho para o
Brasil :
« O dia 20
não poderá apagar-se jamais da minha memória. A partida do meu Paizinho
para o Brasil. O que Jesus me pediu! Não esperava tanto.
Na manhã
desse dia, logo depois da sagrada Comunhão, perguntei repetidas vezes a
Jesus se sim ou não ele ia e não me deu resposta. Mas mesmo assim
permaneci na minha confiança contra toda a esperança. Nosso Senhor
enviou-me alguém para me animar e confortar e dispor-me para o que se
esperava acontecer. A alma estava forte. Eu estava calma e serena. Mas o
que eu sofria não há imaginação que o possa imaginar nem lábios que o
possam dizer. Que derrota na minha alma !
Quando ia
para rezar, não sabia como oferecer as minhas orações. Seriam precisas
para Jesus fazer o milagre de ele não ir ? Ou para Lhe agradecer tão
grande graça ? Ou para ele ter boa viagem ?
Indecisa,
sem saber o que fazer, entregava-as a Jesus. E com a força da minha
confiança, que não sei donde me veio tal, dizia: não foi, não vai.
Oh, como eu
estava enganada !
A dor era
dilacerante. Eu disse: estou como S. Lourenço, estou assada por todos os
lados, mas o meu fogo é pior: queima-me o espírito, cansa-me a alma.
Era
já noite. Como a dor era insuportável, esforcei-me por redobrar a minha
confiança. Dizia jaculatórias, implorava o auxílio do Céu. E confiada só
no Senhor de que Ele providenciaria, lembrei-me de Abraão com o seu
filho Isaac, com a diferença de que eu não subia o monte, mas entrava no
mar, a grande distância, e lá ia arrancar o meu Paizinho. Mal eu sabia
que àquela hora já o vapor caminhava com ele sobre as águas do mar.
Quanto
tenho de agradecer ao Senhor por me ajudar a tudo vencer com serenidade
e resignação! Tanto orei, tantas orações pedi, sacrifícios e mais coisas
ainda e por fim teve que partir.
Ó santa
obediência ! O que vou fazer agora ?
Continuar a
confiar e a esperar no Senhor, redobrar as minhas orações e, de olhos
postos no alto, esperar com alegria e tudo sofrer por amor.
Na manhã de
ontem, logo após a sagrada Comunhão, eu disse a Jesus:
Entrego-me
a Vós para tudo e prometo-Vos fazer todo o possível para não me
preocupar mais se isto ou aquilo compromete a vossa divina causa; se ela
é vossa, tomai conta.
O que eu
quero, meu Jesus, e prometo fazer todo o esforço, é fazer tudo com a
maior perfeição possível e amar-Vos com todo o amor de que o meu coração
seja capaz. Sois Vós o único em quem posso esperar.
À tarde,
soube então da hora e de todos os pormenores da despedida do meu
Paizinho, na entrada para o vapor. Quis ainda ser forte, encobrir as
minhas lágrimas, mas fi-lo por pouco tempo. Consegui abafar os
suspiros ; ninguém os ouvia; mas as lágrimas rolaram-me pelas faces,
durante algumas horas, mas com todo a serenidade e paz. Uma dor que
parecia não ter fim. Oferecia-as a Jesus e por tudo O bendizia e
louvava. E disse-Lhe que, assim como tinha prometido, se o Paizinho não
fosse para o Brasil, os meus lábios não pronunciariam uma palavra de
regozijo nem satisfação, assim lhe prometi também se Ele me ajudasse com
a sua graça, não dizer uma palavra contra aqueles que o fizeram ir e que
tanto me têm feito sofrer.
Nesse
ponto, meu Jesus, quero que os meus lábios sejam mudos, para nada
poderem dizer. Foi este o meu horto e não foi pouco doloroso.
Senti-me
nele e nele prostrada em duro terreno contra o meu peito. Reguei-o com
muitas lágrimas, mas lágrimas de resignação.
Na
madrugada a dor atingia o seu auge. Sem isso pensar, tive uma visão da
alma.
À minha
frente, uma mão muito branca, repetidas vezes, me abençoava. Senti na
alma uma união que a deixou mais forte. Depois de receber o meu Jesus e
de Lhe dar umas pequenas graças, porque não tinha forças para mais,
tinha junto de mim, um livro que há dias tinha pedido, com o Te Deum já
marcado, para ler em acção de graças logo que soubesse que o Paizinho
não saía. Não quis mandá-lo guardar sem o ler como acção de graças a
Nosso Senhor por ter consentido na ordem, que foi executada. Parecia-me
assim dar mais consolação a Jesus: bendizê-lo na dor como na alegria.
E segui o
meu calvário com lágrimas, muitas lágrimas, as quais em espírito ia
dando a Jesus. Senti-me cair por muitas vezes sem forças para
levantar-me: e nada mais senti dos tormentos de Jesus.
Mergulhada
na dor e na cegueira, cegueira que nunca viu nem espera ver, veio o meu
Jesus.
―
Minha filha, coração de oiro, coração de fogo, alma pura, alma cândida,
alma só alvura, vem a Mim, vem ao Meu Coração descansar de tanta dor, de
tanta amargura; vem buscar coragem, conforto e confiança.
―
Meu Jesus, meu Jesus, sabeis tão bem que só em Vós confio e não em mim e
como permitistes que eu me enganasse ou que o demónio me enganasse ?
―
Sossega, tranquiliza-te e escuta-me.
Eu não te
enganei, tu não te enganaste, o demónio não te enganou, porque eu não
consenti nisso.
Tudo
o que fiz não foi para te humilhar, nem humilhar aqueles que amas e Eu
amo e cuidam da Minha divina causa, mas sim para os deixar mais firmes e
contentes.
Fui
obrigado a fazê-lo. Tive que proceder assim para não castigar com
castigo eterno, como tantas vezes me tens pedido.
És mestra
de todas as ciências, doutora das ciências divinas. Quanto o mundo tem
de aprender de ti !
Eu falo com
toda a ciência e sabedoria. Quando te falei da Pátria, não te enganei,
porque, para aqueles que obedecem, no mundo não têm pátria, a sua Pátria
é só o Céu.
Se
soubesses, minha filha, quanto custou ao meu Divino Coração, louco de
amor por ti, não te dizer tudo o que ia suceder, quando sorri e demorei
a minha resposta !
Dei-te a
coragem e confiança em todo este te tempo para poderes resistir e teres
agora coragem para receberes tão grande golpe.
Não te
enganei ao dizer que não te pedia o sacrifício da partida do teu
Paizinho. Não to pedi na ocasião; vim agora pedir-to mais tarde. E vês
como me deste tudo ?
Disse-te
que não ia, prometi libertá-lo, e foi este o melhor meio da sua
libertação.
Verás como
to vou dar mais que nunca. Não foi; ficou contigo. Aquilo que eu uni não
podem os homens desunir.
A visão que
tiveste esta manhã, a abençoar-te foi ele com a sua mão que muitas vezes
te abençoou, enquanto que o vapor ia navegando no mar.
Vês como to
dou e como te está unido ? Pedi para que ficasse oculto o que te dizia a
tal respeito. E sabes a razão? Para não levar os homens a revoltarem-se,
a pontos de resistirem às minhas graças, graças que para alguns, neste
sentido, não torno a dar-lhes. Persistiram, resistiram. Fiz tudo para
que assim não procedessem.
Eu não
queria que nova nódoa, negra nódoa, caísse sobre a Companhia. Minha
Companhia que tanto amei e amo, porque ainda, dentro dela, tem muitos
que me são queridos.
Nódoa feia,
nódoa negra que não mais desaparecerá enquanto o mundo for mundo e,
depois, na eternidade, e que tão mal faz às almas.
Alguns que
não pertencem à Companhia ajudaram a tão negra nódoa e só a Companhia
ficou manchada.
Eu não
queria, Eu não queria, Minha filha; fiz tudo para não resistirem à
graça.
Jesus dizia
isto e chorava.
―
Não choreis, meu Jesus; deixai as lágrimas para mim e aceitai-as como
prova de amor. Não me deixeis enganar. Perdoai a todos. Sede a minha
força.
―
Vai confiante, espera alegre, que bem depressa as Minhas divina
promessas serão realizadas com grande brilho e grande triunfo.
Coragem,
coragem e alegria. Coragem para os que te rodeiam e cuidam do que é Meu.
Coragem e amor, coragem com a certeza de que Jesus não falta, que Jesus
a todos ama loucamente.
Vai, vai
escrever tudo isto !
―
Obrigada, meu Jesus.
―
Coragem, coragem.
Que grande
luz dás ao mundo, que grande exemplo pela tua alegria e amor à cruz ! »
Disse Jesus
à Alexandrina que a ida do Padre Pinho para o Brasil era « o melhor meio
da sua libertação ». Longe daqueles que o perseguiam, vai ele poder dar
de novo largas às suas actividades. Viveu primeiro na cidade de Salvador
da Baía, no Colégio Padre António Vieira, até 1953, e depois no Recife,
no Colégio Nóbrega, dedicando-se a uma intensa actividade pastoral no
domínio da formação cristã de leigos e acompanhamento espiritual. Na
Baía, publicou, em 1948, O Coração Imaculado de Maria à Luz de Fátima,
a sua melhor obra, que terá outra edição em Braga em 1950.
Nos anos de
1951-52, ensina Religião, Latim e Português e é director espiritual dos
alunos, de uma Congregação Mariana e da Cruzada Eucarística, assistente
da Acção Católica, auxiliar do director diocesano do Apostolado da
Oração, redactor de Chama Viva, escritor e censor de livros.
A partir de
1953, no Colégio Nóbrega, no Recife (Pernambuco), vai ser professor de
Francês na Faculdade de Filosofia da Universidade Católica.
Um ano após
a morte da Alexandrina, em 1956, publica a Vítima da Eucaristia e
a 2ª edição da tradução de Harry Dee.
Em 1958, já
não tem actividades docentes no Colégio Nóbrega nem na Faculdade; é
simplesmente director da Congregação Mariana dos alunos do Colégio e
redactor do jornal Mundo Melhor. Mantém-se no exercício destas
funções quase até à morte.
Sai
entretanto a tradução francesa da Vítima da Eucaristia (1958),
com o título de Sous le Ciel de Balasar. Mais adiante sairá na
Suíça a tradução alemã (1960).
Em 1963,
publica, em S. Paulo, a nova biografia da Alexandrina No Calvário de
Balasar.
Em 11 de
Julho, falece, com 69 anos, no Colégio Nóbrega.
Segundo o
Padre Humberto, o Padre Pinho, no Brasil, « foi sempre estimado dos seus
confrades e dos fiéis, trabalhou com muito fruto até à morte ».
O Padre
Abel Guerra, S.J. exprimiu-se sobre ele neste termos : « Sofreu como um
santo as piores calúnias e tribulações sem um lamento nem uma ruptura na
sua alegria espiritual. »
Actualmente
(2005), uma sua antiga dirigida, a Sra. Amparo, expressa sobre ele a
melhor opinião e dedica-se a divulgar no Recife a devoção à Beata
Alexandrina.
Uma muito
significativa parte dos testemunhos do Processo Informativo Diocesano da
Alexandrina destina-se a ilibar o Padre Mariano Pinho das gravíssimas
calúnias que lhe haviam assacado. Chegou-se ao cúmulo de lhe chamar
« tarado sexual ».
Muitas
pessoas tomaram a sua defesa, desde o Padre Humberto, a senhoras que
haviam sido dirigidas por ele, dois jesuítas que muito bem o haviam
conhecido (o Padre Abel Guerra e o Padre Lúcio Craveiro), o Dr. Dias de
Azevedo, etc.
Duas das
testemunhas mais decididas na defesa do bom-nome do Padre Mariano Pinho
foram as Professoras Çãozinha e Angelina Ferreira : « O Padre Veloso
mente ― testemunhou a
primeira ― Nunca vi (e a
porta muitas vezes ficava entreaberta) o que quer que fosse de menos
decoroso entre o Padre Pinho e a Alexandrina.
Foi também
meu director durante dez anos e nunca notei nele a mais pequena
indelicadeza. Não admito sequer a possibilidade da veracidade das
afirmações do Padre Agostinho Veloso. »
Por sua
vez, a Prof.ª Angelina Ferreira, que foi dirigida do Padre Pinho desde
1929 a 1946, inquirida sobre a sua opinião a respeito do Padre Pinho,
asseverou : « Era um padre muito santo, muito espiritual, muito
inteligente e ao mesmo tempo muito humilde. »
Ou então :
« Dirigiu-me só pelas estradas da santidade e pureza e assim soubesse
imitá-lo. Nunca ouvi de pessoa alguma por ele dirigida, rapaz ou
rapariga, senão que era um santo e um anjo. »
Sobre as
atoardas levantadas contra ele, foi contundente : « É uma mentira, para
não dizer mais. »
Nos
Sentimentos da Alma anuncia Jesus que o Padre Pinho há de subir « às
honras dos altares ». Vejam-se estas frases que sobre ele vêm no êxtase
de 4 de Setembro de 1948, primeiro sábado:
« São
grandes os desígnios de Deus sobre a sua alma. Ele será contado no
número dos Meus Santos. »
No dia 7 de
Junho de 1952, Jesus recomenda à Alexandrina :
« Diz ao
teu Paizinho que ele está todo absorvido dentro do Meu Coração Divino.
É nele que
ele sofre, é nele que ele trabalha, é nele que ele vive.
Diz-lhe que
as grandes imolações e as grandes crucifixões são próprias dos santos.
Ele será
contado no número dos meus eleitos.
Ele há-de
ser coroado com a auréola dos santos.
Dá-lhe todo
o meu amor com toda a Minha paz, na certeza de que a sua vida dolorosa
foi permitida por Mim.
Se ele
soubesse o proveito da sua dor ! No Céu tudo vai saber e compreender.
Dá-lhe
amor, amor com toda a minha riqueza.
Dá-lhe
amor, amor com toda a riqueza da Minha Bendita Mãe. »
Em 1 de
Novembro do mesmo ano, a mensagem é mais precisa :
« Diz ao
teu Paizinho que os eleitos do Senhor o esperam. Ele será contado entre
eles; como os meus santos, ele será honrado na terra; como eles,
subirá às honras dos altares.
Preparo-o
para isso pelo sofrimento. Escolhi-o para luz e guia das almas, missão
difícil e espinhosa, missão que exige a maior perfeição e sabedoria;
missão que exige a ciência das coisas divinas.
Diz-lhe que
o Senhor é fidelíssimo, não falta ao que promete.
Diz-lhe que
as nuvens se dissiparam, o sol apareceu, brilhou.
Dá-lhe todo
o meu amor, todo o amor da Trindade Divina e de minha Mãe bendita. »
Parte
destas citações já foi publicada no boletim da Opera dei Tabernacoli
Viventi, o Magnificat!, que é dirigido pela Maria Rita Scrimieri
Pedriali, uma das fãs italianas da Alexandrina. Efectivamente, no número
que assinalava a beatificação, fez ela sair um artigo sob o título :
« P. Mariano Pinho, SJ : “Brillerà con te eternamente, farò che egli
salga in terra agli onori degli altari” (Gesù ad Alexandrina) ».
Veja-se
ainda esta citação dos Sentimentos da Alma, de 2/3/1946 :
« Diz ao
teu padre (Padre Pinho) que recolhi os vossos sofrimentos,
diz-lhe que o escolhi para luz e guia da tua alma e não renuncio a isso.
Uni as vossas almas, não as separo, nem as deixo separar. Recebi grande
consolação da sua obediência e humildade. Ele será sempre um mestre de
grandes almas. »
Nenhum
livro sobre a Beata de Balasar menciona a « Abscôndita ». Nem nenhum
livro do Padre Mariano Pinho. Todavia, antes da Beatificação, sempre que
se falava sobre a Alexandrina com algum sacerdote que andasse na roda
dos 70 anos, vinha à baila a « Abscôndita ».
Abscôndita
é antes de mais o título dum livro, duma biografia da Irmã Inês do
Coração de Maria, da Congregação de S. José de Cluny, açoriana, que
viveu em Nogueiró, junto a Braga. Morreu em 1945, com 29 anos, e foi
dirigida por um amigo do Padre Pinho, que conheceu bem a Alexandrina, o
Padre José de Oliveira Dias. Este sacerdote era professor de oratória no
Seminário Diocesano.
A autoria
da compilação dos materiais que constituem o livro vem atribuída a M. da
S. Mourão de Freitas, que era um sacerdote da Diocese de Leiria. O Padre
José de Oliveira Dias, que naturalmente está em muitas das páginas da
biografia, é apenas o responsável pelo prefácio.
Este livro,
que teve segunda edição, provocou celeuma dentro da Companhia e com
certeza também fora dela. Chegou-se por fim à conclusão de que o ilustre
Padre Dr. José de Oliveira Dias, tão culto, autor dum livro tão notável
como os Elementos de Arte Concionatória, que viu na sua dirigida
uma autêntica mística, estava enganado. A celeuma teve certamente o seu
ponto mais alto bem entrada a década de 40, coincidindo portanto com a
data do afastamento do Padre Mariano Pinho de Balasar. O descrédito que
caiu sobre a Irmã Inês, conhecida por Abscôndita, terá significado, para
os jovens seminaristas do tempo, também o descrédito da Alexandrina. Se
a Abscôndita fora um erro de avaliação, e da parte dum homem tão
notável, a Alexandrina também o era. Como o Padre Pinho era amigo muito
chegado do Padre José de Oliveira Dias ―
e como ambos foram enviados para o Brasil ―
na imaginação das pessoas que só um pouco de fora terão ouvido falar do
assunto, associaram-se de tal modo as duas figuras que até se atribuía a
autoria da Abscôndita ao director da Alexandrina…
Os
seminaristas de então foram levados naturalmente a desinteressar-se da
Doente do Calvário ; o que de facto aconteceu. E não se esqueça que a
atitude do Arcebispo do tempo, D. Bento Martins Júnior, face à Beata de
Balasar, era então muito mais de rejeição que de aceitação.
Em Balasar,
conservam-se alguns documentos que pertenceram ao Padre Pinho,
nomeadamente cartas suas dirigidas ao Arcebispo de Braga e ao Padre
Humberto, uma notícia biográfica em latim sobre a Alexandrina, feita em
1937 por causa da Consagração, etc. Não se conservam é as cartas que
dirigiu à Alexandrina, que estarão em Roma à guarda dos Salesianos.
« Ex.mo
e Rev.mo Senhor Arcebispo Primaz
Beijando
respeitosamente o sagrado anel de V. Ex.cia Rev.ma, peço licença para
mais uma vez roubar uns minutos o precioso tempo de Ex.cia Rev.ma.
Como devo
muito em breve embarcar para o Brasil, e como por outra parte poderia
Ex.cia Rev.ma, por causa do relatório que enviei na Páscoa sobre a
Alexandrina de Balasar, poderia, digo, desejar mais algum esclarecimento
ou documento dos que possuo sobre o caso, pareceu-me conveniente avisar
a Ex.cia Rev.ma desta minha próxima partida, a realizar na 2.ª semana de
Fevereiro p. futuro.
Por outro
lado, muito estimava levar já comigo alguma resposta reconfortante ao
dito relatório, antes de partir, senão terei que levar para além-mar o
vexame de reles director de almas que sobre mim caiu e muito pesa desde
que apareceu a declaração oficial de que a comissão encarregada de
estudar o assunto nada encontrou de sobrenatural, mas antes indícios
certos do contrário, no caso de Balasar.
Para mim,
qualquer palavra de Ex.cia Rev.ma a atenuar ou modificar para melhor
essa sentença, seria um grande alívio para a viagem, tanto mais que em
parte é por causa do caso de Balasar que os Superiores acharam prudente
que me afaste algum tempo para longe.
Esperando
receber mercê, fico às ordens de Ex.cia Rev.ma até 27 de Janeiro, no
Instituto Nun’Alvares – Caldas da Saúde:
de V.
Ex.cia Rev.ma servo humilde e muito obediente,
Mariano
Pinho S.J.
Porto,
16-I-46. »
O Padre
Humberto só teve uma vez uma brevíssima conversa com o Padre Mariano
Pinho. Outros contactos havidos entre eles foram por correspondência
epistolar.
Vejam-se
estas duas cartas enviadas ao Padre Humberto, uma da Baía, outra do
Recife :
« S.
Salvador, Baía e Colégio António Vieira, 28/VII/47
Rev. em Xto
P. Humberto e meu prezadíssimo amigo
P. C.
Era meu
dever já há muito ter agradecido a V. Rev.ma o modo gentilíssimo como
por meio da Casimira Maria, minha irmã, se dignou vir aliviar com seus
pêsames a nossa dor pelo falecimento de nosso Pai. Deus pague a V.
Rev.ma essa caridade.
Também o
Dr. Azevedo me escreveu no mesmo sentido e, sabe V. Rev.a, estava para
dizer que achei tudo muito natural. Isto é o hábito em que estamos de
ver sempre Nosso Senhor tão delicado, mesmo com quem, como eu, tão pouco
o merece. Bendito seja Ele por tudo e rogue-Lhe V. Rev.cia me conceda em
troca a graça de em tudo O servir a cada momento, como Ele quer que eu
sirva. É o meu maior receio na vida: não acertar com a sua santíssima
Vontade, apesar de, por outro lado, me parecer que não quero outra coisa
senão o cumprimento exacto e puríssimo dessa mesma Divina Vontade.
De mim, que
direi a V. Rev.a ? Que me vão correndo os dias numa prolongada e
mortificante expectativa, o que não quer dizer prolongada pasmaceira,
porque, mercê de Deus, desde os primeiros momentos que aqui cheguei, não
me tem faltado que fazer, e milhares que viessem daí não ficariam no
desemprego: tanta é a falta e tão poucos os obreiros. Os seus bons
irmãos Salesianos que lhe contem, pois vão na dianteira em tudo, até nas
numerosíssimas vocações; ao contrário do que nos acontece a nós e ao
clero regular. Para este então é uma dor de alma em várias dioceses a
começar por esta vastíssima arquidiocese primaz do Brasil. Imagine-se:
até ao ano de 1950, não se ordenará nenhum presbítero e nesse ano
espera-se creio que apenas um ?! O pior é que não se encontra solução
para este aflitivo problema.
Se por aqui
houvesse muitos Calvários e vítimas como Cristo a penar neles, talvez
Nosso Senhor apiedado fizesse chover em compensação as graças da
vocação; mas isso é coisa que não se improvisa facilmente.
E que me
conta V. Rev.cia daí ? Tem estado tão caladinho !... Mas a culpa tem
sido minha que com o meu prolongado silêncio desmereço receber amiudadas
notícias de tão bom e dedicado amigo. Como agora por aí devem estar em
férias, talvez lhe seja mais fácil escrever e contar muitas coisas,
tanto mais que foi a Roma. Já mo disseram de Viseu. Que inveja santa lhe
tenho !
Cá fico
pois esperando uma longa carta e enquanto tiver que contar, não pare de
escrever.
Não o canso
mais: renovo apenas os mais vivos agradecimentos e com um grande abraço
para V. Rev.cia mando também muitas coisas para o Dr. Azevedo e Madrinha
e toda a família. Pode dizer-lhes que os tenho sempre presentes, como se
de Portugal não tivesse saído. Adeus, meu bom P. Humberto. Creia-me
sempre muito sinceramente amigo in cordibus Jesu et Mariae,
Mariano
Pinho S.J.
Recife,
28-VIII-62. »
« Meu
prezadíssimo amigo Rev. Padre Pasquale
P.C.
Aproxima-se
o dia 1.º de Setembro e quero que esta minha carta
― que já há muito devia ter
escrito ― lhe mostre que
não esqueci V. Rev.ma diante de Deus, no dia do seu aniversário
natalício. Parabéns !
E agora,
muitas desculpas por tanto atraso em agradecer a sua última, com a
preciosa relíquia de S. Cottolengo e aquela bela colecção de
relicariozinhos da Alexandrina. Foram por aqui tão cobiçados que não
tenho nem uma! Mil vezes obrigado.
Desejava
mandar-lhe já a nova biografia, mas ainda não saiu do prelo. Logo que
saia, irá pelo correio um exemplar. Muitas vezes tenho pensado que este
livro devia ter sido feito por nós ambos. Mas V. Rev.cia não veio para o
Brasil, como tanto era necessário. O Espírito Santo trabalha por aqui
muito em almas de escol, e verdadeiras vítimas. Venha, que
encontrará bom terreno para o seu zelo.
Já estou a
ver que o novo livro que aí estão publicando chegará aqui primeiro que o
meu aí.
O que é
pena é que não aparecesse nenhuma coisa em castelhano e em inglês sobre
a Vítima de Balasar; seria uma parte enorme do mundo que a ficaria a
conhecer. Já tentei, mas nada consegui até hoje. V. Rev.cia, aí na
Europa, consegui-lo-á melhor que eu.
Adeus, meu
querido Padre Humberto; em união de orações nos Corações de Jesus e
Maria, todo seu, Padre Mariano Pinho S.J. »
1894 – Em
16 de Janeiro, nasce no Porto, de família de pequenos comerciantes,
Mariano Monteiro Carvalho Pinho.
1906-1910 -
Cursa a Escola Apostólica da Santíssima Trindade, em Guimarães, onde faz
os estudos secundários.
1910 – Em 7
de Dezembro, com dezasseis anos, no exílio, entra na vida religiosa em
Exaten, na Holanda, onde foi colega de Luís Mariz, de Simeão Tang, de
Tobias Ferraz e de Domingos Maurício.
1913-1915 –
Estuda Humanidades e Retórica, em Alsenberg, Bélgica.
1915-1918 –
Cursa Filosofia, em Onha, Burgos.
1919 –
Navega para o Brasil e entra no Colégio Padre António Vieira, na Baía,
onde ensina Matemática, Português, Latim e Inglês, redigindo
simultaneamente a revista Legionários das Missões, de que foi
fundador.
1923 –
Regressa à Europa para cursar Teologia em Innsbruck, na Áustria.
1925-1926-
Publica na Brotéria uma série de artigos denunciando as falácias
do « Teosofismo ».
1926 –
Ordena-se sacerdote em Innsbruck.
1927-1928 –
Faz a terceira provação em Paray-le-Monial, ultimando assim a sua
formação religiosa.
1929 –
Frequenta, durante algum tempo, a Pontifícia Universidade de Comilhas,
Santander, Espanha, para se licenciar em Teologia.
1929-1931 –
O Padre Pinho reside na Póvoa de Varzim, onde então se localizava a
redacção do Mensageiro do Coração de Jesus.
1929 – É
nomeado redactor da revista Mensageiro do Coração de Jesus, à
qual deu fecunda colaboração em artigos sobre intenções gerais, sobre a
Cruzada Eucarística das Crianças, sobre ao Apostolado da Oração. Funda a
revista Cruzada.
Começa a
usar o pseudónimo de Gualdim Pais.
Sem
conhecer ainda a Alexandrina, os seus escritos podem ter tido decisiva
influência na sua oferta como vítima.
Participa
no Congresso Eucarístico de Viana, onde lê uma comunicação sobre as
Vocações Sacerdotais e a Eucaristia.
É director
espiritual da Congregação Mariana de Jovens da Póvoa de Varzim.
Apoia as
Doroteias do Colégio do Sagrado Coração de Jesus, dirigido pela Madre
Sá.
1931-1933 –
Continua como redactor da revista Mensageiro do Coração de Jesus,
mas agora em Braga.
1932 –
Publica, no Porto, o Relatório da Cruzada Eucarística em Portugal.
Publica a 1ª edição da tradução de Harry Dee.
1933 – Em
16 de Agosto, torna-se director espiritual da Alexandrina, por ocasião
duma pregação dum tríduo em honra do Sagrado Coração de Jesus. Note-se
que a este divulgador da devoção ao Sagrado Coração de Jesus vai caber
um papel importante na consagração do mundo ao Imaculado Coração de
Maria.
1933 – Em
27 de Dezembro, muda-se para Lisboa, onde assume o cargo de director da
revista Brotéria (até 1935).
Na capital,
entrega-se também a ministérios sacerdotais e a dirigir Congregações
Marianas, em colégios de religiosas. Pregava com frequência nas igrejas
paroquiais e fundava cruzadas eucarísticas infantis. Dava conferências
sobre temas religiosos.
1933-1936 –
É superior da Casa dos Escritores de S. Roberto Belarmino, em Lisboa.
1934 –
Publica na Botéria um longo artigo « No Estado Novo », com
catorze páginas.
Constitui
uma análise serena, objectiva à orientação político-social outorgada a
Portugal por Salazar. Conclui o autor : « As recentes iniciativas do
Governo Português procedem dum pensamento altamente social, a que não
parece ter sido estranha a inspiração da Encíclica Quadragesimo Anno »
(Brotéria, 1934, I. p. 291).
Em Setembro
deste ano, Jesus pede à Alexandrina que aceite ser alma-vítima. Ela
comunica o facto ao Padre Pinho, que lhe ordena que escreva tudo o que
ouve de Jesus.
1935 –
Em 30 de Julho, depois da Comunhão, Jesus ordena à Alexandrina:
« Manda dizer ao teu director espiritual que, em prova do amor que
dedicas à minha Mãe Santíssima, quero que seja feito todos os anos um
Acto de Consagração do mundo inteiro... Assim como pedi a S. Margarida
Maria para ser o mundo consagrado ao meu Divino Coração ». (Cartas ao
Padre Pinho: 1-8-35).
1936 – Em
11 de Setembro, o Padre Pinho escreve ao Papa, por meio de Sua Em.a o
Cardeal Pacelli, a manifestar-lhe o pedido dirigido por Jesus à
Alexandrina para que o mundo fosse consagrado ao Coração Imaculado de
Maria.
Deixa a
direcção da Brotéria, para ser nomeado promotor nacional das
chamadas Congregações Marianas e da Cruzada Eucarística, desempenhando
simultaneamente as funções de director dos órgãos de imprensa destes
movimentos da Companhia de Jesus vocacionados para a formação cristã dos
leigos. Dirige, até 1942, o Mensageiro de Maria, órgão das
Congregações Marianas. Agora reside em Braga, onde é professor.
1938 – Com
início em 30 de Setembro, orienta um retiro espiritual para a
Alexandrina, no seu quartinho; no êxtase de 2 de Outubro, Jesus prediz
que ela iria sofrer toda a sua santa Paixão, pela primeira vez, em 3 de
Outubro, e, em seguida, todas as sextas-feiras, das 12 horas às 15.
Traz a
Balasar o Dr. Elísio de Moura, no dia 26 de Dezembro.
1939 –
Publica, em Braga, a Carta Magna da Acção Católica Portuguesa.
1940 – Por
determinação do Padre Pinho, a 20 de Outubro, a Alexandrina começa a
ditar a sua Autobiografia.
1941 – É
contactado em Braga pelo Dr. Dias de Azevedo, que se propõe estudar a
Alexandrina do ponto de vista médico.
1942 – No
dia 29 de Agosto, o Padre José Alves Terças, da Congregação dos
Missionários do Espírito Santo, assiste à Paixão; seguidamente publicará
um relato do que viu e ouviu no n.º 10 da revista « Vida de Cristo, a
Paixão dolorosa », vol. V, Lisboa, 1941. Tem aqui origem a perseguição
ao Padre Pinho, que em breve é afastado da direcção da Alexandrina e da
direcção do Mensageiro de Maria. Passa a residir no Seminário de
Vale de Cambra. São-lhe dirigidas acusações graves, que nunca foram
provadas, mas, muito mais tarde, denunciadas como falsas.
No dia 31
de Outubro, o Santo Padre faz a consagração oficial do mundo ao
Imaculado Coração de Maria, para o que muito concorreram as diligências
do Padre Pinho.
1944 –
Publica, no Porto, a 1.ª edição do Regresso ao Lar.
1946 – Em
Fevereiro, parte para o exílio no Brasil, indo residir para o Colégio
Padre António Vieira, na Baía, onde foi professor, orador e
conferencista muito apreciado. Sofre duma úlcera.
No dia 22
deste mês de Fevereiro, declara Jesus à Alexandrina a propósito do
castigo infligido ao Padre Pinho : « Eu não queria que nova nódoa, negra
nódoa, caísse sobre a Companhia. Minha Companhia que tanto amei e amo,
porque ainda, dentro dela, tem muitos que me são queridos. »
1947 –
Publica, na Baía, a 2.ª edição do Regresso ao Lar.
1948 –
Publica, na Baía, O Coração Imaculado de Maria à Luz de Fátima, a
sua melhor obra.
1951 –
Ensina Religião, Latim e Português nesse mesmo Colégio. É director
espiritual dos alunos, de uma Congregação Mariana e da Cruzada
Eucarística, assistente da Acção Católica, auxiliar do director
diocesano do Apostolado da Oração, redactor de Chama Viva,
escritor e censor de livros.
1952 –
Exerce as mesmas ocupações e tem a mais o ensino do Francês do 5.º ano e
6.º anos do Colégio.
1952 – No
dia um de Novembro, Jesus manda à Alexandrina : « Diz ao teu Paizinho
(Padre Mariano Pinho) que os eleitos do Senhor o esperam. Ele será
contado entre eles; como os meus santos, ele será honrado na terra; como
eles, subirá às honras dos altares .
1953 –
Transfere-se da Baía para o Colégio Nóbrega, no Recife (Pernambuco),
onde é professor de Francês na Faculdade de Filosofia da Universidade
Católica.
1956 –
Publica a Vítima da Eucaristia e a 2ª edição da tradução de
Harry Dee.
1958 – Já
não tem actividades docentes no Colégio Nóbrega nem na Faculdade, é
simplesmente director da Congregação Mariana dos alunos do Colégio e
redactor do jornal Mundo Melhor. Mantém-se no exercício destas
funções quase invariavelmente até à morte.
Sai a
tradução francesa da Vítima da Eucaristia, com o título de
Sous le Ciel de Balasar. Mais adiante sairá na Suíça a tradução
alemã.
1963 –
Publica No Calvário de Balasar, em S. Paulo.
1963 – Em
11 de Julho, falece, com 69 anos, no Colégio Nóbrega, no Recife, Brasil.
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