BLANDINA SEARA
menina da Cruzada eucarística
+ 1930
O
Padre Pinho empenha-se na formação das crianças; a revista existe
para elas. Mas verdadeiramente ela chega é aos ze-ladores, que são no
geral jovens. Cedo há-de ter percebido que tinha que apontar nessa
direcção, mesmo porque cedo começou a ensinar.
O
que dum ponto de vista só humano é uma tragédia irreparável, pode, a
um olhar cristão, ser uma vitória retumbante. Foi assim na morte de
Jesus, nas dos mártires e na de todos aqueles que unem ao seu
sofrimento de Cristo.
Por
isso o Padre Pinho gosta de dar notícia de jovens ou crianças que
abraçaram com entusiasmo os ideais da Cruzada, que sofreram e
terminaram os seus dias como exemplo de dedicação à Igreja – como
santos. Colocamos aqui a narrativa relativa à Blandina, mas há
outras.
É
interessante notar que trechos como este, que nem tem a assinatura
do Promotor da Cruzada, quanto a certos pormenores, lembram de perto
a Beata Alexandrina.
Beiriz. — 7-9-1931 - Faz
precisamente hoje um ano que uma boa alma, uma alma privilegiada
voou desta terra para o Céu.
Diz-se
que as almas que passam pelo mundo sem que ele as contamine e
perverta não lhe pertencem e portanto não são daqui, e é verdade.
Blandina Seara — era assim vulgarmente conhecida — era dessas almas:
vivera na terra, mas que à terra não pertencia.
Ainda
não tinha completado os seus vinte e dois anos — nascera a 27 de
Setembro de 1908 — e já contava no seu activo espiritual grande
cópia de merecimentos. Foi um exemplo vivo para todos nós que muitas
vezes nos queixamos de que não temos tempo ou não podemos cuidar a
sério da nossa e da santificação alheia. Ela, precisamente quando se
sentiu minada pela terrível doença que a vitimou, foi quando mais
trabalhou e mais fecundo fez o seu apostolado.
Faz-se
Catequista; torna-se cooperadora activa na organização da Cruzada
Eucarística das Crianças, acompanhando todos os trabalhos, parecendo
até que da sua própria doença tirou novas forças.
Infelizmente para nós que não para ela, a doença agrava-se: como
pobre-zinha, recolhe ao Hospital da Póvoa, mas o seu apostolado
continua. A bre-ve trecho a simpatia dos companheiros da desgraça, se
desgraça se pode chamar à doença, cerca-a e principia logo a fazer
bem. O odor da virtude espalha-se em redor e muitos que suportavam a
sua doença como fardo pesado principiam, a exemplo dela, a levá-la
com mais paciência e resi-gnação cristã, sofrendo por Jesus e para
Jesus.
E não
se limitou a dar o exemplo de resignação no sofrimento e a fazer
frutificar o seu exemplo: obtém verdadeiras conversões. Alguns – nos
Hospitais encontra-se de tudo — viviam afastados dos sacramentos e,
não obstante a doença com que o Pai das misericórdias os havia
ferido, recusavam reconciliar-se com Deus. A hora ainda não tinha
chegado, mas ao contacto com aquela alma cândida, deixam-se vencer,
imploram perdão e recebem com as melhores disposições os sacramentos
da Igreja. Alma bendita! Alma sagrada que no cadinho do sofrimento
se ia purificando, concorrendo amplamente para a santificação dos
outros.
Continuando a doença a fazer progressos, e convencida que em breve
teria terminado os seus dias, pede para voltar para a casinha da sua
família: quer morrer em Beiriz. Tinha sido a edificação dos que
cercavam o seu catre no hospital e quer também ser vítima de
expiação pelos pecadores da sua terra. Quer que o sacrifício que ela
leva com a maior resignação e alegria, sirva, para atrair bênçãos
sobre as criancinhas da C. E. C. que tanto ama e por quem tanto
trabalhou. Os seus últimos momentos foram duma alma santa,
sacrificada e crucificada na Cruz de Cristo. Mas sempre alegre,
sempre sorridente! O seu leito era de dolorosa agonia e parecia de
rosas. Quando alguém lhe dirigia palavras de conforto, nunca faltava
o sorriso cândido o sinal de agradecimento. E confortada mais uma
vez com o pão dos justos que miúdo recebeu sempre no percurso de
toda a doença entrega a sua alma a Deus, deixando-nos a todos na dor
de a perdermos.
Era uma
companheira que se perdia; era uma irmã a quem todos amavam, e que
deixava os seus irmãos entregues à luta ainda, mas a quem legava o
mais belo exemplo e a quem prometera a melhor protecção junto do
trono de Deus.
A prova
de quanto era estimada teve-a no seu enterro.
Não
obstante ser pobre, e de família pobre, em volta do seu ataúde
junta-se, toda a freguesia prestando-lhe assim a homenagem mais
sentida e sincera que já mais se tinha visto em casos semelhantes.
Blandina foi entregue à sepultura precisamente no dia da Natividade
da Senhora. Foi cantar com sua Mãe do Céu as glórias do seu triunfo
na terra. Aceita, companheira, este preito do meu respeito e
admiração.
Um
Zelador da Cruzada Eucarística, 10-1931
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